Análise: ReStory: Chill Electronics Repairs é uma viagem no tempo para uma época mais simples

O Título do Mandragora Studio é recém-chegado, mas já me deixa extremamente ansioso por novos conteúdos ou sequências.

em 14/08/2026
ReStory: Chill Electronics Repairs
começa com a proposta clássica de um cozy game, mas rapidamente me conquistou pelo apelo nostálgico de mexer em relíquias tecnológicas que marcaram minha infância e a de muitas outras pessoas também. Assumir o controle de uma oficina de reparo nos anos 2000 se mostrou uma terapia que eu não sabia que precisava.

É nostalgia que chama?

O jogo começa apresentando o básico do que faremos durante ele todo: desmontar, limpar, montar e entregar os dispositivos ao cliente. Porém, com o andar das coisas, por baixo de toda a poeira e das montanhas de peças, o jogo revela um aprofundamento imenso, como visto na demonstração disponível no Steam. 

Com dezenas de dias na oficina (que nem vi passarem, devido à imersão), há uma expansão absurda no catálogo de aparelhos — que abraça desde portáteis icônicos dos anos 90 e anteriores, até modelos mais “modernos” dos anos 2000, época em que o jogo se passa —, e o título revela que vai muito além de mais um simples simulador de consertar coisas. Sustentado por um ritmo cadenciado e por uma imersão impecável, ReStory beira a perfeição, conseguindo colocar alma em um gênero que, no geral, é muito mais voltado ao prazer de fazer do que ao porquê de fazer.

A rotina da oficina começa bem simples, mas muito satisfatória: tirar parafusos, separar carcaças, remover a poeira com um pincel para então remontar o aparelho. No entanto, à medida que os dias passam, todos os elementos narrativos e mecânicas vão ganhando mais e mais profundidade. O progresso em ReStory é recompensador porque a própria oficina de reparos evolui com você. O que começa com limpezas e trocas básicas de peças se expande para o uso de novas ferramentas — como a introdução do ferro de solda para reparar placas danificadas — e até para a customização visual, permitindo pintar e modificar os consoles conforme o gosto dos clientes.

Além disso, o cuidado com a imersão é fantástico. A iluminação dinâmica da oficina, por exemplo, onde a luz do sol muda as sombras sobre a mesa com o passar de cada dia, funciona como um relógio natural. Isso elimina a necessidade de HUDs poluídos e faz com que o tempo passe voando enquanto você se concentra em cada detalhe da restauração. Quando você se dá conta, as frestas da grade da janela já não aparecem mais e a noite caiu.

Muito mais que uma loja de reparos

Se a demonstração dava a impressão que as opções do jogador seriam limitadas, gerando frustração com a ausência de marcas mais famosas, como a Nintendo (o que até se justificaria pelo histórico da marca ser relativamente agressiva com o uso de seus produtos mesmo que sejam homenagens —, a versão final joga qualquer crítica de variedade pela janela. O catálogo de eletrônicos é enorme e é quase como se o título desse um abraço em quem viveu de alguma maneira (ativamente como adulto ou como criança vendo as novidades hytech dos pais) nos anos 90 e 2000.

Na versão final, a bancada recebe de tudo um pouco: desde portáteis icônicos e relíquias de gerações passadas, passando por celulares marcantes, como o lendário Nokia 3310 (o qual tive um vermelho diferentão, herdado de minha mãe), o BlackBerry e o Futurista Motorola Razr V3, até consoles de mesa, como o PlayStation 1 (não o One) e os cobiçados controle e console do primeiro Xbox. A surpresa de abrir uma caixa e se deparar com um iPod, um walkman da Sony, notebooks, walkie-talkies, câmeras fotográficas ou até o icônico controle-guitarra de Guitar Hero transforma cada dia de trabalho em uma verdadeira caça ao tesouro.

Ainda que, nos primeiros dias, a variedade torne a experiência repetitiva por recebermos cerca de 3 tipos de eletrônicos apenas, à medida que novos itens entram, a diversidade impede a rotina de consertos de se tornar monótona, já que cada aparelho tem uma estrutura de desmontagem única. Isso gera um sorriso no rosto de quem é apaixonado por tecnologia retrô, ou de alguém que, como no meu caso, consertava constantemente o próprio Brick Game (ou minigame como era conhecido) após sua irmã surgir com ele misteriosamente quebrado. 

Geralmente, nós tínhamos mais de um desses em casa, e a troca de peças entre eles era constante, para que ao menos um funcionasse. E isso é exatamente uma das mecânicas do jogo: comprar aparelhos danificados para utilizar algumas peças em outros, ou até mesmo receber dois itens de um cliente, a fim de fazer o possível para que pelo menos um deles volte a funcionar.

A vida passando pela janela

Se o miolo do jogo brilha pela variedade de mecânicas e pelo fator nostálgico, é na narrativa que ReStory faz jus ao Story enfatizado no título. A campanha se desenvolve como um mosaico. As histórias não se resolvem do dia para a noite. O jogo aposta em um ritmo cadenciado, onde cada drama da vizinhança chega até a sua oficina atrelado diretamente a uma demanda de conserto. Seja lidando com a fiação elétrica da casa, que exige reparo para suportar a compra de um ferro de solda, seja acompanhando uma subtrama de assédio ou a ameaça da venda do quarteirão para se tornar um shopping, a narrativa se desenvolve de forma natural.

Como o jogo dá total liberdade de rotina, permitindo que você trabalhe até altas horas da madrugada sem punições (ainda que algumas narrativas incitem o contrário), o desenrolar de certas tramas pode parecer um pouco arrastado em alguns momentos. No entanto, essa lentidão proposital reforça a imersão de estar realmente fincado na rotina de uma vizinhança pacata, onde as coisas acontecem no seu próprio tempo. 

O protagonista, mesmo, é um sujeito passivo. Ele tenta não se envolver diretamente nos problemas alheios, apenas se limitando a ajudar quando é necessário ou inevitável se envolver. Talvez aqui seja o ponto em que o jogo mais me prendeu, por eu ser, pessoalmente, tão passivo aos problemas da vida quanto o protagonista.

Para se jogar comendo sanduíche e bebendo café com leite da vovó

ReStory: Chill Electronics Repairs supera com folga todas as expectativas, transformando-se, de uma surpresa extremamente agradável, em uma das experiências mais imersivas do gênero. Ao unir uma jogabilidade extremamente prazerosa, o cuidado com a atmosfera, um catálogo enorme de relíquias tecnológicas (ainda que algumas sejam adaptadas por questões de direitos autorais) que exala nostalgia e uma narrativa cadenciada — ancorada por um protagonista humanizado —, o título da Mandragora Studio entrega muito mais do que apenas mais um simulador de tarefas.

Ainda que o ritmo narrativo possa se arrastar um pouco em alguns momentos, essa lentidão se alinha perfeitamente ao tom acolhedor e desapressado da obra. ReStory é, acima de tudo, um convite para desacelerar, reviver memórias e deixar as horas passarem enquanto a luz do sol dá lugar à noite na janela da oficina.

Prós

  • Um vasto catálogo colossal de dispositivos dos anos 90 e 2000, cheio de memória afetiva para quem viveu a época;
  • A evolução das possibilidades na oficina sendo interligada com a narrativa é um grande acerto;
  • A sacada de comprar aparelhos usados para extrair peças boas e economizar é um detalhe importante, atrelado à realidade e ao desafio de quem conserta eletrônicos antigos;
  • O detalhe da iluminação do sol servindo como um relógio natural é um toque especial da obra;
  • O enredo atrela os dramas da vizinhança diretamente às demandas da oficina;
  • A liberdade de gerenciar o próprio tempo sem punições severas é alinhada à proposta cozy.

Contras

  • O ritmo devagar e a passividade das tramas podem parecer um pouco lentos demais em alguns momentos.
ReStory: Chill Electronics Repairs — PC — Nota: 9.5


Dedico este texto de análise à minha irmã, que hoje mora do outro lado do Oceano e a qual perdoo por todos os minigames quebrados. 

Revisão: Julia Loffreda Costa
Análise produzida com cópia digital cedida pela tinyBuild
OpenCritic
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Windsor Santos
Jogadorino desde os áureos anos 90, geralmente surpreende amigos com a quantidade de títulos que já finalizou. Divide o amor por games com seus mangás, Hq's e filhotes. Agora seu objetivo é registar seus conhecimentos para as novas gerações de jogadores.
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