Análise: Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 2 torna os sonhos dos fãs da franquia de Hideo Kojima em realidade

Tirando a derradeira missão de Solid Snake das amarras do PS3, a coletânea foi feita com muito carinho.

Quando foi lançado em 2023, Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 1 era um balanço de acertos e erros. Se, por um lado, era um pacote atraente por trazer parte do legado da franquia para as plataformas atuais, por outro, apresentava um trabalho bastante simplório que, felizmente, foi melhorando com atualizações. Se eu tivesse feito a análise dele hoje, minha nota com certeza seria maior.


O potencial estava, na verdade, na palavra “Volume” que integrava o nome da coletânea. Essa iniciativa de relançamentos não ficaria apenas na trilogia e nos títulos de MSX, e logo começou a se aventar a possibilidade de uma nova versão de Metal Gear Solid 4. Três anos depois, ela finalmente veio em Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 2, realizando esse desejo.

La li lu le lo

Ao contrário do primeiro volume, que trazia cinco jogos e dois bônus em um compilado, o segundo vem com Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots, Metal Gear Solid: Peace Walker e, como extra da vez, Metal Gear: Ghost Babel. É um tanto desanimador à primeira vista, mas a coletânea foi claramente idealizada levando em consideração o peso do antigo exclusivo do PlayStation 3, agora incluso.

Lançado originalmente em 2008, Metal Gear Solid 4 foi talvez o primeiro arrasa-quarteirões do terceiro console de mesa da Sony. A Kojima Productions produziu um grand finale para a história de Solid Snake, buscando amarrar pontas soltas, oferecer doses de nostalgia e encerrar de vez o arco aberto desde a primeira aventura no PS1.

Ambientados no “futurístico” ano de 2014, controlamos um desgastado Snake que, devido a fatores genéticos, passou a envelhecer precocemente. Ainda tendo um dever a cumprir, ele parte em uma missão para derrotar Liquid Ocelot e interromper uma cadeia de dominação de soldados por nanomáquinas, enquanto diversas situações e revelações são apresentadas ao longo da extensa campanha.

Metal Gear Solid 4 é um Hideo Kojima sem freios. O que foi apresentado acima é apenas um resumo da base da história, pois ela apresenta diversas tramas e subtramas nas quais é muito fácil se perder, mas é coesa o suficiente para não atrapalhar o grande esquema das coisas. Caso não tenha jogado antes, prepare-se para horas e horas de cutscenes e conversas via rádio até a aventura terminar.

O quarto capítulo numerado também trouxe uma série de novidades para a fórmula da série. Pode parecer bobeira, mas o ato de andar agachado muda muito nossa abordagem furtiva em vários momentos, sem ser tão lenta quanto a de rastejar, nem tão visível quanto a de simplesmente correr. Chega a ser curioso voltar para os outros Metal Gear e perceber que isso não era possível.

A mecânica de camuflagem de Snake Eater voltou em Guns of the Patriots, agora modernizada. O OctoCamo é um tipo de traje especial que se adapta automaticamente ao ambiente, trazendo uma variedade insana de texturas para auxiliar nas partes furtivas.

Fico muito feliz em dizer que o port de Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots é excelente não só tecnicamente, mas também artisticamente. A campanha single-player está na íntegra, com todas as referências à saga e a marcas como Sony, PlayStation e Apple, incluindo aquela piadinha com Psycho Mantis e a desnecessidade de trocar de controle durante uma batalha contra um chefe desta vez.

Em meu PC, o jogo rodou a suaves 60 fps, sem quedas, em 1080p e com todas as configurações no máximo. Os loadings em um SSD são praticamente inexistentes, e é possível personalizar o controle, determinar a sensibilidade da câmera e ajustar outros pormenores internamente sem problemas.

Além disso, o jogo tem compatibilidade total com teclado e mouse, com liberdade para criar o mapeamento que o jogador quiser. Pode parecer bobo, mas há relançamentos — estou olhando para você, Ninja Gaiden Master Collection — que não fazem o mínimo nesse ponto.

Entretanto, há alguns detalhes que necessitam de retoques. Em uma das primeiras cutscenes, a sombra da hélice de um helicóptero não ficou bem “animada”, parecendo um bug de iluminação que não existia no PS3. Aparentemente, é uma questão relacionada à taxa de quadros, mas, felizmente, essas ocorrências são raras.

Preciso destacar também que o game está com os textos totalmente localizados em português, após um clamor nas redes sociais. É impossível não abrir um sorriso ao experimentar uma obra de quase 20 anos em nossa língua, e com um ótimo trabalho de tradução. Espero que esse esforço também chegue aos títulos do primeiro volume.


De qualquer forma, é a forma definitiva de experimentar Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots. Roda melhor, é mais bonito, muito mais acessível e não muda o que faz do original um jogo tão especial.

O único porém é a ausência de Metal Gear Solid Online 2, o que é compreensível por ser um jogo “separado” da experiência principal, mas seria um material de preservação bem legal. Pelo menos, o outro jogo tem seu componente multiplayer intacto.

Uma nação sem limitação

Embora a estrela da vez seja a do clone, a jornada do soldado perfeito original também merece seus holofotes. Lançado para PSP em 2010, Metal Gear Solid: Peace Walker é um título bastante curioso desde sua concepção, sendo uma sequência direta de Snake Eater, além de uma evolução de Portable Ops.

Ambientado em 1975, Peace Walker narra uma parte da história de Naked Snake, agora Big Boss, após se desvencilhar das forças estadunidenses. No comando do grupo Militaires Sans Frontières (MSF), ele precisa lidar com uma situação conturbada acontecendo na Costa Rica, que pode ocasionar um conflito nuclear. Enquanto isso, precisa descobrir novidades sobre The Boss, que, misteriosamente, pode ainda estar viva após os eventos de Snake Eater.

Os maiores pontos de Peace Walker são o MSF e a criação do Outer Heaven, um estado independente focado na militarização sem pátria. Ao contrário de uma campanha guiada pela narrativa, as missões são dispostas com objetivos específicos, focados em extrair outros militares para a causa, obter itens, localizar alvos, entre outros.

As cenas em graphic novel estão em altíssima resolução agora.
Essa estrutura é perfeita para um jogo de portátil e se encaixa bem nas limitações da plataforma original. É estranho ter algo assim disponível em consoles de mesa e PC, mas a experiência ganha outra vida com a possibilidade de realizar missões online, de forma cooperativa ou competitiva. Claro, o multiplayer é opcional.

Esse relançamento é baseado na versão presente na HD Collection, pacote que também incluiu MGS2 e MGS3 em 2011. Apesar dos visuais em alta resolução, muitos assets são mantidos como eram no PSP, como elementos pixelados em grades e vegetações, além de uma menor contagem poligonal nos modelos. Isso não é uma crítica, pois o visual é bastante charmoso e a direção de arte é muito boa, como de praxe na franquia.

Essa edição da Master Collection conta com as melhorias adicionadas em atualizações dos títulos da Master Collection Vol. 1, o que significa que é possível jogar com texturas e cutscenes em resolução aprimorada, além de outras melhorias gráficas. Nada de ficar limitado à resolução original de 720p; maiores resoluções e taxas de quadros estão disponíveis nas opções desde o início.

Metal Gear em escala menor

Por fim, Master Collection Vol. 2 também resgata Metal Gear: Ghost Babel, lançado para Game Boy Color em 2001, como um extra. O game é um “what if”, trazendo uma sequência não canônica para Metal Gear 2: Solid Snake, em que Snake precisa recuperar o protótipo de um Metal Gear que foi parar em uma fortaleza na África Central, chamada Galuade, nas ruínas de Outer Heaven.

Ghost Babel é uma mescla dos games de MSX com Metal Gear Solid, integrando mecânicas como andar escorado na parede e fazer barulho para atrair os inimigos a uma visão aérea 2D. Segmentado em fases devido à sua natureza portátil, o título é uma genuína experiência Metal Gear em um console pequeno, com ótima jogabilidade, bons momentos de história e uma baita trilha sonora.

Por outro lado, o relançamento não conta com localização em português, e o multiplayer foi retirado. A emulação conta com poucos recursos, como um filtro bilinear horroroso e alguns wallpapers para tapar a borda preta, além de opções de redimensionamento de tela em pixel perfect ou expandido.

Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 2 também traz alguns materiais de galeria no pacote. Guns of the Patriots conta com o Metal Gear Solid 4 Database, uma gigantesca enciclopédia com perfis de personagens, descrições de eventos, curiosidades, linhas do tempo e outros fatos sobre o universo idealizado por Hideo Kojima. É um material datado de 2008, sem incluir os eventos de Peace Walker e Metal Gear Solid V, mas ainda serve como fonte de pesquisa para entender melhor a lore geral.

O Master Book também retorna, sendo praticamente uma revista gigantesca sobre toda a franquia, mas, neste caso, totalmente atualizada. Não é tão interativo quanto a Database, mas cumpre seu propósito. Os roteiros dos dois títulos principais também estão incluídos, tal como na coletânea anterior.

Meu maior ponto contra esse pacote é a ausência de um quarto jogo para deixá-lo mais completo. Poderia ser um relançamento de Metal Gear Rising: Revengeance, um remaster de Metal Gear Solid: The Twin Snakes, Metal Gear Solid: Portable Ops ou, até mesmo, dos Metal Gear Acid do PSP. Algumas entradas ainda necessitam de resgate, e um Vol. 3 teria mais conteúdo para entregar.

Menos pode ser mais

Mesmo com menos conteúdo que seu antecessor, Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 2 é um sonho realizado ao trazer consigo o clímax da história de Solid Snake para a modernidade. De quebra, temos o excelente capítulo portátil de Big Boss e um clássico obscuro do Game Boy Color, então a qualidade consegue compensar a quantidade.

O trabalho da Konami em portar essas obras foi bem feito, com diversas opções de customização no PC sem alterações à base delas. Se você quer conhecer ou retornar a essa saga tão querida, os dois volumes estão mais do que recomendados.

Prós

  • Metal Gear Solid 4: Guns of the Patriots finalmente está disponível para plataformas atuais, num port de qualidade e preservando os elementos e referências do jogo original;
  • Metal Gear Solid: Peace Walker foi relançado, logo de cara, com todas as melhorias que MGS2 e 3 receberam apenas com o tempo, mantendo o multiplayer online;
  • Metal Gear: Ghost Babel, um capítulo obscuro da saga, finalmente recebeu seu reconhecimento merecido;
  • Apesar de desatualizado, o Metal Gear Solid 4 Database é um dos melhores conteúdos de lore de uma franquia de jogos;
  • Guns of the Patriots e Peace Walker estão localizados em português, mesmo sendo jogos antigos.

Contras

  • A ausência de alguns jogos, como Acid, The Twin Snakes e Portable Ops, ainda é sentida;
  • Pequenos erros gráficos podem ocorrer em Metal Gear Solid 4.
Metal Gear Solid: Master Collection Vol. 2 — PC/PS5/XSX/Switch/Switch 2 — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Julia Loffreda Costa
Análise produzida com cópia digital cedida pela Konami 
OpenCritic
Siga o Blast nas Redes Sociais
Alecsander "Alec" Oliveira
Um ser que está nesse mundo dos joguinhos desde criança. Fã de games com vibe mais arcade e arqueólogo de velharias, mas não abandona experiências mais atuais. Acompanha a mídia de podcasts, dublagem e ouvinte assíduo de VGM. Pode ser encontrado como @AlecFull e semelhantes por aí.
Este texto não representa a opinião do GameBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Você pode compartilhar este conteúdo creditando o autor e veículo original (BY-SA 4.0).