Análise: Madden NFL 27 melhora em relação ao antecessor, mas tem a preguiça de um jogador acomodado

Embora recrie bem o espetáculo da NFL, falhas em servidores e a falta de localização exigem dedicação para curtir a metade boa deste título.

em 28/08/2026
Se você, assim como eu, passou anos longe de Madden — no meu caso, com o último contato datando lá do Madden 19 ainda no PlayStation 4 —, voltar a jogar um título da franquia é, no mínimo, um exercício mental. Para quem cresceu jogando futebol virtual, abrir os menus do Madden NFL 27 pela primeira vez dá a exata sensação de estar folheando um livro de ponta-cabeça. Tudo está em inglês, a interface é cheia de informação e os termos técnicos parecem escritos em hieróglifos.

A comunicação visual é a chave do sucesso

Se você chegou até aqui, além de gostar do esporte, provavelmente foi fisgado pela onda do futebol americano no Brasil, seja assistindo aos jogos tarde da noite na TV, acompanhando a cobertura que não para de crescer por aqui ou até mesmo sendo atraído pelo impacto da NFL desembarcando em solo brasileiro vez ou outra.

Philadelphia Eagles e Green Bay Packers, pela primeira partida da NFL na América do Sul. A Neo Química Arena (Arena Corinthians) recebeu um público de quase 50 mil pessoas.
E é exatamente essa paixão que impede que você feche o jogo em dez minutos. Mesmo parecendo um labirinto no início, o Madden 27 tem o mérito de recompensar a curiosidade. Ele não entrega tudo de bandeja para quem retorna ou para o novato; ele instiga você a querer entender. É um jogo que transforma a curva de aprendizado em um desafio gratificante — desde que você esteja disposto a decifrar suas regras.

Vamos iniciar a análise falando logo do principal problema: a EA Sports continua não dando a mínima para o mercado brasileiro (ou para qualquer outro, na verdade). Zero suporte a menus, legendas e narração em nosso idioma. Para o veterano, isso é tranquilo, mas para o brasileiro que está flertando com o esporte agora, é uma barreira de entrada que exige paciência, dedicação e, quem sabe, um tradutor aberto ao lado.

No entanto, o jogo consegue salvar o novato através de sua comunicação visual. Esqueça o caos tático em tempo real do futebol tradicional, em que você precisa dominar o posicionamento de 22 atletas simultaneamente sem nenhuma ajuda gráfica. No Madden, o esporte é dividido em jogadas (plays), sendo praticamente uma versão por turnos de um jogo de esporte tradicional, com pausas claras que organizam as ideias.

Ao escolher o que fazer no ataque, ainda que o jogador não faça a menor ideia do que cada jogada faz, o gramado se transforma em um tutorial a cada investida. Setas, rotas coloridas e marcações exatas mostram para onde cada atleta deve ir. A linha que "vai e volta" para confundir a marcação e a distância exata das 10 jardas para conseguir a nova descida (First Down) funcionam como tutoriais visuais de maneira orgânica. Com o tempo, mesmo sem perceber, você deixa de apenas escolher as jogadas de maneira aleatória e começa a ler o jogo quase como um tabuleiro.

Tudo no seu tempo

Aqui vai uma observação bem pessoal. Um dos grandes dilemas de quem joga videogames sendo pai de crianças pequenas é encontrar um jogo que não precise de atenção o tempo todo. No futebol tradicional, uma partida exige atenção total — se você precisa pausar durante um contra-ataque ou um momento decisivo, a dinâmica da jogada é quebrada e a imersão acaba se perdendo. O Madden 27 oferece a possibilidade de se ter uma experiência diferente ainda dentro do mundo dos esportes digitais.

Como o futebol americano é um esporte de interrupções planejadas, o Madden foi desenhado para ser cadenciado. Você termina uma jogada, observa o resultado, planeja a próxima e, se precisar levantar para atender alguém, pausa, e o jogo espera. É um título que não te pune por ter uma vida atarefada fora do console, já que cada jogada, a grosso modo, é indepentente de certa forma.

Essa estrutura de "episódios" dentro da partida torna o modo Superstar a porta de entrada ideal. Ao controlar apenas o Quarterback, por exemplo, você é a peça central. Você não precisa gerenciar  o time todo simultaneamente; você foca na sua leitura do jogo, faz o passe (ou a corrida) e colhe o resultado. É uma experiência cinemática, pontuada e, acima de tudo, gerenciável para quem tem uma rotina corrida.

Espetáculo dentro e fora das sidelines

Se a interface é uma barreira para quem não domina o inglês, a apresentação audiovisual é a "ponte" que te puxa para dentro do estádio. A narração em inglês — que infelizmente escancara a defasagem da nossa versão nacional nos jogos de futebol — é um espetáculo à parte principalmente pela construção do drama e da narrativa para cada partida.

Quando você entra em campo perdendo, com o barulho ensurdecedor das arenas, e ouve os narradores escalonando a voz conforme a equipe entra em campo ou quando você se prepara um passe longo, você sente o peso da responsabilidade. É uma aula de como recriar um evento esportivo gigante como a NFL. 

Os gráficos da Engine Frostbite continuam muito bons, como de praxe nos títulos esportivos da EA, rodando sem grandes problemas mesmo com Ray Tracing (isso em uma máquina pensada para entregar 1080p a 60 frames), e a fidelidade visual de cada atleta, suas caracteristicas de movimentação, os movimentos dos juízes completam o pacote que é muito bem embalado pela adição muitissimo bem vinda do clima dinamico (algo que vimos muito bem na copa do mundo de futebol) e desgaste do campo. 

No quesito jogadores, vale destacar a nova Persona Engine, responsável por dar profundidade as relações. Cada atleta e técnico da liga tem uma identidade própria que influencia como eles reagem a derrotas, renovações de contrato, tempo de jogo ou decisões da diretoria. Além disso, as negociações se tornaram mais dinâmicas com um sistema de paciência melhorado que gera consequencias negociações de contratos. A adição dessa engine integrada ao restante das mecanicas do jogo que todo o universo da NFL seja vivo e crie narrativas imprevisíveis temporada após temporada dentro do modo Franchise.

Contudo, apesar da produção AAA, o Madden ainda padece dos velhos vícios da EA. O criador de personagens é, honestamente, decepcionante. Os rostos continuam com aquele aspecto de "boneco de cera" e a personalização de tatuagens é terrivelmente limitada — uma pena, considerando o estilo marcante dos atletas da NFL. Além disso, as cutscenes fora de campo, com seus diálogos sem som acompanhados de uma música de elevador, quebram completamente a imersão que o resto do jogo constrói com tanto esforço. Dublagem ou texto direto: esse meio-termo sem vida em 2026 é medíocre.

Criticar o coach é uma barbada, difícil é ser um…

Se o modo Superstar é a melhor porta de entrada, o Modo Franquia é onde o Madden 27 revela sua verdadeira natureza de simulador. Minha jornada começou com o New Orleans Saints, uma escolha puramente nostálgica baseada no primeiro Super Bowl que acompanhei, lá em 2009. E, honestamente? A transição de ser apenas um Quarterback para comandar a franquia como um todo foi um choque de realidade.

Tracy Porter, do New Orleans Saints, na reta final de sua corrida de 74 jardas que culminou em um touchdown para fechar a conta após interceptar o passe do quarterback Peyton Manning, do Indianapolis Colts. 
Enquanto no Superstar você pode se dar ao luxo de focar na sua função e "ser carregado" pelo time, aqui não há onde se esconder. Se você tem um jogador de linha ofensiva mais fraco, você vai sentir isso na pele — a defesa adversária lê essa fraqueza rapidamente e o seu Quarterback sofre as consequências. É uma curva de aprendizado bem mais íngreme, em que a intuição começa a dar lugar ao entendimento tático coletivo.

O ponto alto, que para mim já supera o que vemos hoje nos modos de carreira do EAFC, é o sistema de negociações. Você discute anos de contrato, ajusta bônus por performance, pondera o salário base e precisa entender a necessidade do atleta. Você sente que está de fato negociando com uma pessoa. Embora a EA insista no silêncio (essas cenas também carecem de voz), a profundidade das escolhas faz essas conversas parecerem infinitamente mais realistas do que as reuniões de contrato engessadas a que estamos acostumados.

Uma doença chamada Ultimate Team

Se você já é um veterano do EA FC, o Ultimate Team do Madden 27 vai lhe parecer familiar — talvez até demais. A estrutura é a mesma: pacotes, cartas, montagem de elenco baseada em química e a busca constante por melhorias.

A novidade técnica aqui é o sistema de "Evoluções", que permite aprimorar cartas de forma permanente através de desafios. É um recurso pensado para reter o jogador a longo prazo, forçando-o a completar tarefas específicas para desbloquear novas habilidades. É inegável o apelo viciante, mas para o brasileiro que está aqui pela estratégia e pelo esporte, é o modo que mais exige "dedicação financeira" ou um grind excessivo.

Um ponto positivo, porém, é a liberdade de montagem. O jogo permite que você crie seu livro de táticas (playbook) tanto dentro do modo Franquia quanto fora dele, o que é uma dádiva para quem gosta de testar esquemas personalizados. Se você se considera um estudioso do esporte, o Madden dá ferramentas profundas para você aplicar seu próprio conhecimento tático — algo que reflete bem a cultura americana de valorizar o planejamento estratégico acima do talento por si só.

Contudo, um ponto que não pode ser ignorado — e que mancha a experiência geral — é a agressividade da EA com o Ultimate Team. Ao abrir o jogo, você é imediatamente confrontado com banners e pop-ups gigantescos que tentam empurrar o modo como prioridade absoluta, escanteando áreas que antes eram voltadas ao offline e agora parecem empurradas para o ecossistema online. Para quem, como eu, prefere a experiência solitária dos modos Franquia ou Superstar, esse comportamento é invasivo.

Ao abrir o jogo é imediatamente exibido uma sequencia da banners referente ao modo
O jogo tenta a todo custo redirecionar sua atenção para o UT e te prender com ofertas de microtransações (que infelizmente dão as caras até dentro do modo Superstar, o que é patético), como se o consumidor só existisse para gastar com pacotes. É frustrante que um título que exige tanto investimento de tempo e dinheiro ainda precise desse tipo de artifício para captar o usuário, ignorando a expectativa básica de que o menu inicial respeitasse a última escolha de navegação de quem está jogando.

Integração com o College Football 27

Para quem quer uma imersão total, o Madden 27 traz uma integração sensacional com o EA SPORTS College Football 27. Se você joga o modo Road to Glory no jogo universitário, pode exportar seu atleta para o Madden no momento em que ele se torna elegível para o Draft. O jogo transfere posição, conquistas e até parte da progressão do seu personagem, criando uma continuidade de carreira que é o sonho de qualquer fã de simuladores esportivos.

Um jogo preso à  mediocridade

O Madden 27 não é um jogo que vai te abraçar no primeiro minuto. Ele é, desde o início, exigirá dedicação para conviver com a barreira de idioma e a complexidade das regras. Porém, para quem passa boa parte do tempo com videogame e tem a curiosidade de entender a NFL — o esporte que está se fortalecendo por aqui —, ele é uma ótima opção e compensa a falta de localização com um design visual que ensina através da prática.

Para alguém atarefado, como é o meu caso de pai, ele é um título de esportes que respeita o seu ritmo, permitindo que você saboreie a estratégia entre uma mamadeira e outra, ou ao acudir um choro à noite. Se você busca o dinamismo do futebol tradicional, talvez estranhe o ritmo picotado. Mas se você busca um jogo que recompensa a inteligência e o raciocínio tático, o planejamento e a execução precisa, o Madden 27 é uma opção interessante, no mínimo.

Entretanto, ele ainda precisa curar seus velhos vícios — a insistência em empurrar o Ultimate Team por meio de uma interface invasiva e cheia de propagandas, somada a um editor de personagens lamentável, à  preguiça da falta de dublagem nas cenas de gestão e às  animações de colisão que ainda dão seus tropeços. É um jogo que brilha na representação do espetáculo, mas que cansa o usuário nos menus.

Prós:

  • Como mais um jogo da franquia Madden, o 27 entrega um simulador tático com grande profundidade e uma apresentação visual de primeira;
  • Como porta de entrada para os brasileiros interessados em futebol americano, é um bom professor;
  • Nos modos solo a diversão é garantida;
  • É impecável em recriar o espetáculo da NFL.

Contras:

  • A poluição visual nos menus e a agressividade comercial do Ultimate Team tornaram a experiência irritante;
  • Problemas de servidores e a necessidade de estar online em modos solo impedem que o título atinja um patamar de excelência;
  • O idioma em inglês é um obstáculo para o entendimento de boa parte do jogo.
Madden NFL 27 - PC, PS5, XSX, Switch 2 - Nota: 7.0
Plataforma utilizada para análise - PC
Revisão: Camila Sales
OpenCritic
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Windsor Santos
Jogadorino desde os áureos anos 90, geralmente surpreende amigos com a quantidade de títulos que já finalizou. Divide o amor por games com seus mangás, Hq's e filhotes. Agora seu objetivo é registar seus conhecimentos para as novas gerações de jogadores.
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