Uma dupla incomum, para um jogo incomum
A jogabilidade tem como base as habilidades complementares dos dois protagonistas, o que funciona tanto em modo solo — sendo possível alternar entre os dois a qualquer momento controlando capi com o analógico esquerdo e Corvi com o direito — quanto em cooperativo, local ou online. Na dupla, Capy representa a força física e a habilidade de nado, sendo capaz de nadar contra correntes, cavar o solo em busca de itens e mover obstáculos pelo cenário. Já Corvi conta com o voo para alcançar pontos elevados, carregando objetos menores e atuando como intérprete diante de outras espécies que Capy não consegue compreender.
Na parte inicial do jogo, iremos principalmente explorar os ambientes, coletar recursos e resolver quebra-cabeças simples, tudo intuitivo e extremamente acessível para se manter fiel à proposta de ser um jogo relaxante. O grande diferencial de Capy Castaway, em relação a outros jogos do gênero, é a profundidade do seu sistema de tomadas de decisão.
Em vez de simplificar a progressão a uma lista de missões e à coleta de itens, o jogo vai apresentando, em meio à comunidade de animais sobreviventes, dilemas que nem sempre possuem uma resposta certa ou errada. Imagine uma situação em que, de repente, dezenas de animais se espalhem por ecossistemas que não são seus: esse é o cenário do jogo.
Muitas das escolhas feitas pelo jogador servem para mediar conflitos por território, sugerir caminhos para o convívio entre as espécies ou até mesmo aconselhar os habitantes, o que irá influenciar a vida na ilha e gerar consequências para os arcos pessoais dos personagens secundários. Isso tudo irá gerar múltiplos finais e dá, ao jogador, a possibilidade de jogar várias vezes para experimentar diferentes abordagens sociais, algo raro entre jogos cozy, que geralmente são contínuos ou curtos.
Na campanha, que não deve durar muito mais que quatro horas, esses caminhos diferentes alteram diretamente o ritmo dela. Em vez de a narrativa ser contínua, as decisões morais atuam como pausas reflexivas na jornada de Capy e Corvi. O jogador acaba sendo imerso na história pelas soluções diplomáticas, e acompanhar o desenvolvimento dos conflitos acaba sendo muito interessante, te fazendo desacelerar o ritmo para explorar com calma os biomas.
Por outro lado, o jogador focar estritamente no avanço da história também é uma opção possível. Porém, isso resulta em uma comunidade animal menos integrada e em finais melancólicos. A transição entre os capítulos passa a parecer uma consequência natural dos laços estabelecidos pela dupla, e não o simples cumprimento de etapas.
Pequenos defeitos que não diminuem a experiência
Visualmente, o jogo aposta em uma direção de arte que retrata praias ensolaradas, florestas densas e instalações abandonadas, que lembram os cenários pós-apocalípticos de The Last of Us e outros jogos do gênero; sendo interessante pensar que, de certa forma, a inundação representa justamente isso para os animais que vamos conhecendo durante a aventura.
O uso de bordas e efeitos sutis de iluminação dão, ao ambiente, a aparência de um livro ilustrado infantil (justamente o que me atraiu ao título, já que encanta meus filhos pequenos, além dos animaizinhos). A trilha sonora, composta por músicas calmas e o tradicional lo-fi de um jogo cozy, reforça o tom contemplativo, enquanto a comunicação dos personagens ocorre principalmente por meio de balões de diálogo e, pontualmente, por falas dubladas.
Entre os pontos do mapa, a física de pulo é, às vezes, levemente imprecisa em trechos de plataforma, e o nível de dificuldade dos puzzles é baixíssimo. Apesar destas ressalvas, o resultado final é uma ótima experiência, que provoca emoções e reflexões que são algo muito comum de se encontrar em jogos independentes.
Prós
- Escolhas que impactam o desenvolvimento dos personagens secundários, gerando múltiplos finais e instigando a rejogabilidade;
- Ótima dinâmica entre as habilidades dos protagonistas, Capy e Corvi, com suporte para jogo solo ou co-op (local e online);
- Com uma curva de aprendizado leve e arte visual com estética de livro ilustrado infantil, Capy Castaway é um título ideal para relaxar ou jogar com crianças.
Contras
- A física de pulo pode parecer levemente imprecisa em alguns momentos;
- Os quebra-cabeças são extremamente simples, até mesmo para um cozy game;
- A falta de localização em português prejudica a compreensão da narrativa para os jogadores que não falam inglês.
Capy Castaway — PC — Nota: 8.5
Revisão: Julia Loffreda Costa



