Aggelos 2 é uma sequência direta do primeiro jogo, lançado em 2018 pelo desenvolvedor solo François Perez, conhecido como Wonderboy Bobi. Como o contexto da história de ambos os títulos é bastante simples — um herói surge para salvar o mundo em meio a um conflito entre bem e mal —, não é necessário ter conhecimento prévio para apreciar o segundo e dá para começar diretamente por ele. Eu mesmo fiz as duas coisas: cheguei sem saber de nada e gostei bastante dessa aventura metroidvania.
Uma introdução de texto ilustrado resume tudo o que aconteceu antes e, de resto, a narrativa segue a mesma linha dos jogos de plataforma 2D de fantasia dos idos de 1990: pouca conversa, falas diretas e foco na gameplay.
O outro garoto maravilha
Assim como na obra anterior, a maior inspiração está na série Wonder Boy, o que é perceptível principalmente nos modelos de personagens e inimigos. Mesmo que ambos os jogos sigam a estética dos consoles 16 bits, Aggelos 2, porém, é uma evolução visual, apresentando pixel art mais detalhada e com maior variedade de cores, o que, a meu ver, tem um resultado muito mais atraente.
A gameplay em si tem uma mudança importante. Como a capa já indica, o Aggelos, isto é, o anjo protagonista, agora tem asas e pode voar. Da maneira típica do gênero, essa habilidade não é dada logo de cara, precisando ser adquirida ao longo da campanha.
Admito que a primeira hora não me animou, pois transmitia apenas o lado simplista da sensação retrô. No entanto, isso mudou quando comecei a obter novas habilidades, pois, a cada vez que isso acontecia, abria-se um novo leque de caminhos a explorar. Exceto por uns poucos marcadores distantes dos objetivos principais, Aggelos 2 não indica o rumo, não guia e não segura a sua mão.
O jogo realmente quer que você faça suas próprias trilhas, aventurando-se por toda parte até encontrar algo de maior relevância. Há uma boa dose de abertura e imprevisibilidade que proporcionam uma ótima experiência de exploração, levando a recompensas abstratas (a satisfação da descoberta) e concretas (melhorias de personagem).
Em diversos momentos, me vi indagando se estaria no “caminho certo” e, mesmo quando me deparava com becos sem saída, eles não eram vazios e rendiam algum pequeno prêmio, mantendo o incentivo ao comportamento curioso e desbravador. Dessa forma, a jornada em si compensa pela falta de material narrativo mais relevante, envolvendo-nos na ação de estar no mundo mais do que na compreensão dele e das ideias que o formam.
Apenas no final senti que o jogo deixou a desejar na exploração: fiquei sem saber o que fazer para alcançar o final verdadeiro. Era necessário retornar a uma sala de passagem, no meio de um caminho por onde eu havia transitado uma única vez muitas horas antes. Sem indicação no mapa, parecia apenas um local comum já visitado.
Eu bem que poderia ter deixado um marcador ali como lembrete de que havia deixado algo sem solução no local, mas o jogo só permite 20 deles e com pouca variedade de cores, de modo que achei o recurso pouco eficiente.
Como exemplo de que esse número é muito limitado, o colecionável mais numeroso do jogo são os ovos: são 100 deles, alguns óbvios, outros escondidos. Assim, eu sempre tinha muitos marcadores aplicados para lembrar dos ovos que encontrara, mas que ainda não era capaz de alcançar.
Consegui 97 ovos e mais algumas dezenas de outros itens de melhoria, mas, infelizmente, não há mecânica no final do jogo para ajudar a rastrear os poucos itens não encontrados.
Uma jornada por dois mundos
Além da habilidade de voo, a principal novidade é que Aggelos 2 alterna entre dois mundos. Não são duas versões de um mesmo local, mas dois grandes mapas individuais e sobrepostos, interligados por portais.
As jornadas entre eles não fluem de maneira igual. O mundo das sombras transmite, no visual e nos inimigos, uma hostilidade que diferencia a sensação de estar nele, distinguindo-o como um lugar próprio que não se confunde com uma extensão do mundo da luz.
Depois de um certo ponto da campanha, o protagonista também passa a ter duas formas, que podem ser alternadas a qualquer momento: luz e sombra. Cada uma possui poderes diferentes, a começar pelo tiro. Sim, mesmo que o herói use uma espada, o ataque principal é um tiro e a lâmina, como arma secundária, serve principalmente para destruir projéteis do elemento correspondente à forma. Os ataques especiais e o uso de itens de cura também se manifestam de maneira distinta para cada um, levando-nos a variar as abordagens.
Essa dinâmica sofre um pouco durante as lutas contra chefes, pois Aggelos 2 parece querer que mudemos de forma constantemente para destruir ondas de projéteis ao mesmo tempo em que tentamos voar e acertar o inimigo. Achei difícil acompanhar essas demandas e, na prática, minhas lutas acabaram virando disputas de sobrevivência, tentando causar o máximo de dano o mais rápido possível na esperança de que o chefe caísse antes de mim.
Uma campanha mais robusta do que parece à primeira vista
Quando olho para o relógio, a campanha parece curta: levei 11 horas para chegar ao final. A sensação, porém, foi outra e até achei que havia algo errado no cálculo. Com seus dois mundos paralelos e boa abertura de exploração não linear, Aggelos 2 não me passou a sensação de acabar antes da hora e, na verdade, até se estendeu mais do que eu imaginava.
A questão é que, ainda que não seja exatamente um metroidvania longo, a jornada é densa de descobertas e robusta de caminhos e segredos, dando grande satisfação ao se entranhar em seus mundos e explorar cada cantinho à medida que o repertório de habilidades cresce — é exatamente isso que espero de um bom design de metroidvania.
Metroidvania retrô bem-feito
Passado o começo sem graça, Aggelos 2 mostra que sabe conduzir uma exploração de metroidvania dinâmica e envolvente, optando por oferecer caminhos possíveis para a pessoa que joga se perder e descobrir por conta própria em vez de depender de direções claras. A ideia de alternar entre duas dimensões funciona bem e marca uma aventura que, mesmo que não tenha uma história bem desenvolvida por trás, faz a jornada valer a pena.
Prós
- A exploração por dois mundos paralelos faz ótimo uso da estrutura de metroidvania, com boa abertura e progressão de habilidades de movimento;
- Há muitos colecionáveis e melhorias a encontrar, o que proporciona densidade de recompensas e a satisfação da descoberta;
- As duas formas alternáveis do protagonista possuem poderes distintos;
- Textos em português brasileiro.
Contras
- O começo da aventura é insosso e passa uma impressão errada que não representa o bom desenvolvimento da gameplay;
- A falta de direções pode ser motivo de frustração em alguns momentos;
- A narrativa superficial não incentiva o envolvimento com o mundo que se pretende salvar;
- Os muitos projéteis lançados pelos chefões não combinam com as capacidades do protagonista, de maneira que é mais fácil encarar essas lutas como disputas de sobrevivência.
Aggelos 2 — PC/PS5/PS4/XSX/XBO/Switch — Nota: 8.0Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Camila Sales
Análise produzida com cópia digital cedida pela PQUBE












