Análise: Infinitevania é uma divertida aventura brasileira inspirada no clássico de Alucard

Apesar do começo apático, a gameplay melhora consideravelmente no decorrer da jornada.

em 24/07/2026

Infinitevania
é um metroidvania brasileiro, criado pela capixaba JHT Games. O projeto, que começou com apenas um desenvolvedor solo que queria fazer uma homenagem a Castlevania: Symphony of the Night, com o tempo angariou um time e conseguiu formar uma produção sólida no gênero metroidvania, contando até com dublagem profissional em nosso idioma, algo raro de se ver nesse meio.

A experiência oscila entre altos e baixos, mas fica melhor à medida que se progride na campanha e alcança um resultado geral positivo, principalmente para quem gosta de mecânicas de plataforma.



Sinfonia do cavaleiro vazio

Infinitevania recorre a uma estrutura típica de metroidvanias: começamos com o protagonista anônimo, o Garoto, mais forte e capacitado com algumas habilidades importantes, como o dash, pronto para uma luta introdutória contra um chefe.

Além de a cena toda ser construída como uma referência diretamente vinda do Castlevania mais famoso, ela também é um vislumbre do futuro, uma vez que, após esse prelúdio, nos vemos no controle do herói sem poder algum. Mesmo acertando por ter deixado claro de antemão como será a evolução da jogatina adiante, a JHT Games cai no erro de conduzir em seguida um começo fraco, com movimentação limitada e um design de níveis apático, maculado por zigue-zagues de corredores longos e simplistas.



Felizmente, os caminhos não ficam assim por muito tempo e melhoram significativamente a partir da segunda área. Os longos corredores, ainda presentes, deixaram de me incomodar assim que desbloqueei o recurso de viagem rápida, o que agilizou a aventura e me incentivou a vasculhar as ramificações que antes havia deixado passar, mitigando a sensação de pura linearidade.

Quando finalmente nos vemos em posse das habilidades mais clássicas de metroidvania — o pulo duplo e o dash —, o movimento se torna ágil, preciso e dinâmico, prazeroso de controlar. Semelhantemente, a arquitetura fica mais ousada e investe mais em segmentos de plataforma, guardando alguns bons desafios opcionais para os momentos finais do jogo.

É bom deixar claro, portanto, que as várias referências a Symphony of the Night estão longe de tornar Infinitevania um clone daquele jogo, sendo perceptível como a gameplay em si se aproxima mais de outro título crucial dos MV: Hollow Knight.

Em resumo, a experiência evolui de um início preocupante para algo que, ainda que não inove ou se destaque acima de seus pares, entrega o principal do gênero com competência.



Não é infinito (e não precisa ser, é claro)

É bem válido notar que, apesar de o nome conter a palavra “infinito”, na realidade se trata de um jogo razoavelmente curto e não demora muito para vermos seus desdobramentos e alcançarmos o final. Levei sete horas e meia para completar 100% e desbloquear todas as conquistas do Steam.

Nesse ponto, fica clara uma limitação da produção: há apenas quatro áreas diferentes, sendo uma delas o pequeno hub central que se conecta às outras três, muito maiores. É uma variedade baixa até para um metroidvania dessa duração.



Para compensar com um pouco de variedade, cada local tem seus próprios perigos ambientais, elenco de inimigos, desafios de plataforma, objetivo extra para revisitar antes do zeramento e, por fim, dois chefões. Contando com o confronto final, temos um total de sete lutas contra chefes, o que dá um ritmo a esses combates condizente com a duração da aventura.

O sistema de lutas é simples e tem poucos golpes. No entanto, o que é oferecido já é o bastante para um certo erro de design: alguns inimigos mais fortes são trivializados por ataques de pogo, pois eles não têm como se defender desses golpes de espada vindos de cima, quicando sobre suas cabeças até matá-los.



Há ainda acessórios equipáveis para modificar o combate e deixar o Garoto bem mais forte, o que é muito bom para recompensar quem gosta de explorar cada cantinho, mas isso reforça um ponto que vai desagradar à porção do público que busca maiores desafios: a dificuldade é relativamente baixa.

Morri em alguns chefes e alguns trechos de plataforma de precisão me fizeram suar, mas, na maior parte do tempo, a jornada não apresentou riscos significativos. Até esses trechos exigentes de plataforma podem ser completamente banalizados pela habilidade final do Garoto, caso o jogador queira.

Longe de mim dizer que todo jogo tem que ser um carrasco punitivo, mas, da mesma maneira que defendo que os títulos mais difíceis ofereçam opções para torná-los mais convidativos a quem precisa de ajuda, penso que Infinitevania se beneficiaria de ter uma opção de dificuldade mais elevada para agradar a outra metade dos jogadores, mesmo que fosse desbloqueada apenas ao terminar a campanha pela primeira vez. Fica aqui a recomendação.



Ressoando vozes nacionais

Um dos grandes destaques da produção é que ela conta com dublagem brasileira, trazendo até algumas vozes conhecidas, como Ricardo Juarez (Kratos, em God of War) e Luiza Caspary (Ellie, em The Last of Us). O protagonista anônimo é personificado por Lucas Almeida, que trabalhou como Eren, em Attack on Titan, e Hinata, em Haikyu!.

A falta de costume com jogos dublados em nosso idioma me causou um certo estranhamento no começo e levou um tempinho até me acostumar com as vozes e entonações — o dublador do vendedor Nilbog claramente se divertiu muito fazendo seu papel.

O trabalho do protagonista, porém, não funcionou bem para mim. Quando ele fala sério, a voz combina com o momento, mas, quando a intenção é ser informal ou debochado, soa forçado, com uma voz afetada que é agravada pelas falas cafonas de personagem de anime shonen, com várias bravatas e comentários deslocados do restante.



Há uma diferença muito nítida no texto entre as falas do protagonista e, por exemplo, os diários escondidos, que transmitem bem suas histórias. Portanto, tomando a escrita como um todo, temos mais uma questão de inconsistência do que de texto ruim generalizado.

O enredo em si não é grande coisa: rapaz do nosso mundo é tragado por um portal que o leva a Infinitevania, uma encruzilhada entre todos os mundos (sim, é um isekai). Tirando o cabelão azul, o herói é apenas um nerd normal brasileiro: mora no Espírito Santo, joga videogame, sua mãe está internada em um hospital público e ele fez aulas de… esgrima? OK, vou considerar que o moço já estudou em colégio militar, onde esse esporte pode ser praticado. É a desculpa necessária para o rapaz virar protagonista de um metroidvania e sair brandindo uma espada contra criaturas gigantes.



O clima todo alterna entre querer ser espirituoso e transmitir importância à narrativa, aproveitando cada oportunidade para incluir easter eggs de Symphony of the Night e da família Belmont. No final das contas, a proposta funciona bem o bastante, cumprindo apenas o seu papel de dar um pano de fundo, um objetivo e um clímax à campanha, mas sem deixar sua marca.

A campanha eficaz o salva de um começo fraco

Com seus altos e baixos, Infinitevania consegue cumprir o esperado de um metroidvania e não fica abaixo da média do gênero — tampouco fica acima dela. O começo parece pouco promissor, mas a jornada como um todo logo melhora consideravelmente em aspectos importantes, como o movimento ágil, a exploração de caminhos e os segmentos de plataforma divertidos, levando-me a gostar da experiência ao ponto de fazer questão de completar 100%, concluindo tudo em sete horas. Para quem gosta de produções nacionais, a cereja do bolo é a dublagem em nosso idioma, um atrativo raro de ser encontrado em jogos desse tipo.



Prós

  • Após obter o dash e o pulo duplo, o protagonista fica bastante ágil, preciso e agradável de controlar;
  • Há bons segmentos de plataforma, incluindo instigantes desafios opcionais;
  • A viagem rápida é eficaz, incentivando a completar 100% e atenuando o design de longos corredores;
  • Dublagem em português brasileiro.

Contras

  • Em várias partes o design de níveis consiste em um insípido vai e vem por longos corredores, especialmente na primeira metade da campanha;
  • Há apenas quatro biomas, resultando em baixa variedade visual;
  • A dificuldade não oferece muito desafio;
  • O protagonista tem muitas falas cafonas, agravadas pela dublagem.
Infinitevania — PC — Nota: 7.5

Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela JHT Games
OpenCritic
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Victor Vitório
Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies. Veja minhas análises no OpenCritic.
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