Normalmente, um filme sobre jogos tem a tendência de enfatizar a parte mais palatável de uma obra, por mais que seja difícil mesclar a décima e a sétima artes, suas mídias podem se complementar, e o filme consegue, de uma forma bem leve, transmitir essa sensação de que um se encaixa bem no outro.
O gênio do videogame (The Wizard)
A trama gira em torno dos irmãos Corey (Fred Savage) e Jimmy (Luke Edwards), que correm o risco de serem separados devido a um acordo de divórcio de seus pais. Jimmy é um garoto que sofre de traumas desde que sua irmã faleceu afogada e devido a essa perda, ele se tornou muito retraído e instável, a ponto de sua família planejar interná-lo em uma instituição especializada chamada na dublagem de “asilo”.
| Na cena, as crianças almoçam em um restaurante que tinha uma versão do Nintendo Cocktail Table. Um gabinete cuja tela do videogame era na horizontal e servia de mesa. |
Decidido a impedir que o irmão seja trancado em uma instituição, Corey foge de casa, convence o irmão a ir com ele às pressas e juntos partem em uma jornada rumo à Costa Oeste dos Estados Unidos. Logo no início da aventura, o irmão deixa Jimmy se distraindo com Double Dragon de NES em uma máquina Playchoice -10, que continha clássicos da plataforma no formato arcade. Ali, já percebe que o pequeno tem uma habilidade superior.
Logo em seguida, eles conhecem Haley (Jenny Lewis), uma garota esperta que observa Jimmy e percebe que ele é um prodígio nos videogames. Nasce aí o grande objetivo da aventura. O destino do trio é o "Vídeo Armageddon", um grandioso campeonato de jogos realizado no parque da Universal, em Los Angeles, que oferece um prêmio de US$50 mil.
O grupo é perseguido de perto por um caçador de recompensas contratado pelo padrasto dos meninos, além do próprio irmão mais velho (Nick) deles e o pai, todos empenhados em encontrá-los.
Embora a trama tenha uma motivação simples e se enquadre em uma momento vespertino de uma terça-feira qualquer, seu objetivo é claro: as conexões que os personagens começam a desenvolver têm ligação direta com o videogame, o que não quer dizer que o aparelho eletrônico ou cartuchos de plástico alterem o curso do desenvolvimento deles, mas sua influência como software é nítida, os jogos apresentados têm um papel importante para os personagens, seja para o campeonato ou para aproximação deles.
Uma ode à Nintendo
O Gênio do Videogame funciona também como uma verdadeira vitrine para a Nintendo. Os títulos apresentados em destaque na trama são todos do catálogo da empresa e é praticamente uma seleção de sucessos.
Diversos títulos aparecem ao longo da aventura, incluindo Ninja Gaiden, Teenage Mutant Ninja Turtles, Mega Man 2, Super Mario Bros. 2, Metroid, Contra e R.C. Pro-Am. Alguns deles possuem participação direta na trama, enquanto outros aparecem como referências para os jogadores mais atentos.
Outro destaque é a presença da Power Glove, acessório lançado pela Nintendo que prometia controlar os jogos através dos movimentos das mãos. O antagonista Lucas apresenta a luva conectada ao videogame. Para usá-la, era necessário predefinir vários comandos e programar ações com antecedência para que o acessório funcionasse “corretamente”. O kit vinha com um sistema de captação de ultrassom que saía da luva para realizar tal façanha. Embora tenha ficado conhecida por suas limitações técnicas, a luva se tornou um dos símbolos mais lembrados da cultura gamer dos anos 1980.
À medida que Jimmy e seus amigos se aproximam do local do campeonato, eles se preparam para a competição. Nesse momento, o filme também apresenta a Power Line, serviço telefônico oficial da Nintendo onde jogadores podiam receber dicas e orientações para superar desafios nos jogos. Em uma época sem internet, vídeos ou fóruns especializados, essa central funcionava como uma espécie de "disque-detonado", tornando-se parte importante da experiência de muitos jogadores. Na cena, o funcionário da Nintendo tem em sua mesa várias pastas com descrições de fases e truques, respostas rápidas para as dúvidas mais frequentes. Pôsteres com ótimas referências são um toque especial.
Vídeo Armageddon
O clímax da história acontece durante o Video Armageddon, torneio fictício que reúne jovens competidores de todo o país. Embora o campeonato em si não tenha grande profundidade dentro da narrativa, serviu como palco para um dos momentos mais marcantes da história dos videogames.
É durante a competição que o público vê pela primeira vez Super Mario Bros. 3, jogo que se tornaria um dos maiores clássicos da indústria. Embora o título já tivesse sido lançado no Japão em 1988, sua chegada ao mercado norte-americano só aconteceria em 1990. Dessa forma, o filme serviu como uma poderosa ferramenta de divulgação para a Nintendo, despertando curiosidade e expectativa entre milhões de jogadores.
| Durante seu preparo para o campeonato, Jimmy aparece jogando vários titulos sem saber que o desafio final era um jogo totalmente novo. |
Dessa forma, o filme serviu para alimentar com informações o fã e criar um burburinho em volta do jogo. Em um momento que não existia a troca e as conexões como hoje, a ideia de que a obra servia como uma imensa propaganda ficou muito marcada.
Para além disso, a ideia do evento posterior da própria Nintendo (Nintendo world championship) nasceu diretamente do impacto cultural do filme, que mostrava uma competição fictícia. Aproveitando a febre da "Nintendo Mania", a Nintendo de América transformou a ficção em realidade, criando uma turnê que passou por 29 cidades americanas a partir de março de 1990, culminando nas finais no Universal Studios em Hollywood em dezembro do mesmo ano.
As conexões que nascem
Mesmo parecendo propaganda e realmente usando a Nintendo como empresa protagonista, o filme é mais do que esses rótulos. Acabou se tornando um registro de uma época, pois captura um momento em que jogar ainda era visto apenas como um passatempo infantil, mas já começava a revelar algo maior.
Ao longo da jornada de Corey, Jimmy e Haley, os videogames deixam de ser apenas elementos de cenário e passam a funcionar como ferramenta de aproximação entre os personagens. Para nós, telespectadores, aquela noção de que o videogame é só um entretenimento, dá lugar a algo que traz muitas surpresas e alegrias.
Décadas depois, quando campeonatos internacionais, criadores de conteúdo e esportes eletrônicos fazem parte do cotidiano, é curioso olhar para O Gênio do Videogame e perceber que muitas dessas ideias já estavam ali. Talvez seja por isso que o filme continue sendo lembrado com carinho, não apenas pelos jogos que exibe, mas pelo retrato sincero de uma geração que descobria, pouco a pouco, que videogames também poderiam unir pessoas.
No fim das contas, não foi uma caixa de plástico cinza cheia de circuitos que mudou a vida daqueles personagens. Foram as conexões que nasceram ao redor dela.
Revisão: Beatriz Castro


