Bem-vindo, Primeiro Cidadão — nós precisamos de você
1886. O mundo como o conhecemos acabou, imerso em gelo graças a um imprevisível apocalipse climático. Como tantas outras localidades europeias, Nova Edimburgo foi evacuada às pressas, com alguns dos sobreviventes dos seus milhares de habitantes decidindo se assentar junto a um vulcão adormecido para aproveitar seu calor natural.
Assim nasceu a colônia Aurora. Como a vida sempre encontra um jeito, em 1888, a colheita abundante das plantações realizadas no distrito se tornou uma importante fonte de sustento para seus habitantes, mas essa mesma fartura não foi bem-vista por aqueles que optaram por permanecer na capital, dando origem a uma intensa rivalidade que foi se aprofundando com as décadas (e governos) seguintes.
Em 1927, é possível sentir a tensão no ar. Enquanto Aurora declara oficialmente sua independência, os habitantes de Nova Edimburgo passam fome, com os pesados geradores de calor, outrora símbolos de esperança, causando abalos sísmicos cada vez mais difíceis de ignorar.
Em meio ao desespero e à incerteza, alguém dá um passo à frente no Conselho de Edimburgo: você, o único disposto a fazer um juramento como Primeiro Cidadão e resolver os crescentes conflitos com a colônia rebelde. Mas cuidado: em um cenário em que alguns clamam por guerra direta e outros preferem a diplomacia, será praticamente impossível agradar todo mundo enquanto garante a sobrevivência do seu povo.
Uma questão de confiança
Há cerca de dois anos, tive a honra de escrever a análise de Frostpunk 2 para o GameBlast e lembro que fiquei encantado com a premissa do título de gerenciar uma sociedade à beira do colapso. Afinal, tempos difíceis exigem decisões difíceis, e nem sempre há soluções belas e morais para problemas como a fome, o frio e a insalubridade, principalmente quando os recursos são escassos ou inexistentes, como é o caso aqui.
Quando um simples clique do mouse é capaz de construir ou destruir distritos que afetam milhares de pessoas virtuais (e a chance de um game over), a jogabilidade naturalmente ganha uma camada estratégica muito interessante, mesmo para um simulador. Todos esses diferenciais continuam presentes em Breach of Trust, com a grande mudança do DLC sendo o novo mapa/campanha (Nova Edimburgo) e a obrigatória relação com a antiga colônia Aurora.
Começando pela localidade, a capital da Escócia sofre com ameaças ambientais constantes e letais. Sua proximidade com o vulcão, por exemplo, introduz no jogo as mecânicas de Tremores e da Noite Vulcânica.
Com isso, antes símbolos de esperança, os geradores e outras atividades de exploração geotérmica passam a produzir estresses sísmicos. Uma vez que esses abalos atinjam níveis elevados, tremores ocorrem, levando à destruição de distritos e estruturas e ceifando milhares de vidas no processo.
Além disso, há o crescente risco de erupção. E, considerando que até mesmo as cinzas do vulcão são nocivas, está claro que os perigos naturais neste conteúdo adicional vão muito além do gelo que atormenta a civilização, apesar de também ser necessário lidar com as camadas glaciais de forma contínua.
Para piorar a situação, Aurora cortou as costumeiras entregas de alimento, levando à desnutrição generalizada. Lidar com a ex-colônia é uma prioridade, e a escolha de fazer isso por meio do comércio, da extorsão ou da guerra, está nas mãos do jogador, já que felizmente todas são viáveis. Mas, com cada facção da capital defendendo uma abordagem própria e prazos rigorosos, o tempo joga contra, levando à constante, mas divertida, pressão que define um bom simulador.
Um DLC muito interessante, com um único problema
Como Primeiro Cidadão, sua missão é garantir um futuro para Nova Edimburgo. Se os fins justificam os meios, cabe a você dizer, mas as novas facções — Quatro-Dedos, Negociantes, Fundadores e Presos Políticos — estarão de olho em cada movimento com demandas inéditas. Aprofundando a camada política vista no jogo base, a tarefa de progredir entre promessas e concessões é mais difícil do que parece, e há um risco crescente de rasgar o tecido social a cada situação que aparece na tela precisando de solução.
Para determinar o progresso do jogador, também foi introduzida a mecânica “Voto de Confiança”, com a qual, de tempos em tempos, a população avalia a gestão. Além de interessante, esse recurso enfatiza a veia política de Breach of Trust, e deve agradar quem aprecia a combinação de sobrevivência e dilemas morais.
Mas, feitos os elogios, o novo DLC não é perfeito. O principal problema é a sua duração: com as transições entre capítulos sendo marcadas por objetivos e não por tempo corrido, é possível concluir a nova campanha em torno de cinco anos in-game (de seis a oito horas de jogo), o que dá a sensação de que a história precisava de mais alguns capítulos ou arcos para aprofundar seus vários desafios.
Pelo menos, foram introduzidos dois novos mapas para o Modo Utopia, assim como a opção de ativar eventos vulcânicos na modalidade. Como boa parte da longevidade do game está ligada ao modo sandbox, este é, sem dúvidas, um aceno positivo à comunidade, apesar de não resolver a curta duração do novo conteúdo adicional.
Por fim, também vale destacar novamente o belo trabalho audiovisual do 11 bit studios. Frostpunk 2 continua acima da média do gênero em quesitos como a qualidade da apresentação, interface, trilha sonora e sonoplastia, e Breach of Trust serve como um lembrete constante desse fato. No fim, são aqueles pequenos detalhes que, juntos, fazem a diferença em como percebemos a experiência — ponto positivo para os desenvolvedores.
Um novo desafio muito bem-vindo
Frostpunk 2: Breach of Trust cumpre seu papel de adicionar novo conteúdo de qualidade a um dos melhores simuladores da última década. Embora peque por sua duração relativamente curta, esta é uma expansão recomendada para todo jogador que aprecia a interessante combinação de política, sobrevivência e dilemas morais e deseja novos desafios além do jogo base.
No mais, Nova Edimburgo está à beira do apocalipse e precisa de você — pronto para atender o chamado?
Prós
- A nova campanha traz divertidos desafios próprios, como a gestão dos perigos ambientais decorrentes da proximidade de um vulcão;
- A necessidade de lidar com a ex-colônia Aurora adiciona interessantes camadas estratégicas ao DLC ao mesmo tempo em que mantém nas mãos do jogador a decisão de como proceder;
- Cumpre o propósito de adicionar mais conteúdo de qualidade a um dos melhores jogos recentes do gênero, com adições também para o Modo Utopia;
- A atmosfera e a apresentação seguem o elevado padrão do jogo base;
- Localizado em português brasileiro.
Contras
- A campanha é curta para os padrões da franquia;
- Devido à duração do DLC, fica a sensação de que alguns capítulos a mais seriam necessários para aprofundar parte dos dilemas vistos na campanha.
Frostpunk 2: Breach of Trust — PC/PS5/XSX — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela 11 bit studios











