Um croqui familiar
A última vez que tive uma experiência parecida ao escrever uma análise foi com Kitsune Tails, lançado lá em agosto de 2024. Esse charmoso plataforma foi claramente inspirado em Super Mario Bros. 3, fazendo uso de muitas ideias tiradas diretamente desse clássico do NES. Paradoxalmente, o jogo conseguiu ser único o suficiente, adicionando vários elementos próprios numa produção caprichada.
Realm of Ink teve, felizmente, sucesso ao fazer o mesmo, só que aqui a “inspiração” é o também famoso Hades. Para quem não conhece, esse roguelike de ação no estilo hack and slash foi um verdadeiro sucesso de público e crítica, com combates dinâmicos e apresentação cheia de estilo. Seja no PC ou nos consoles, esse título mostrou a força dos jogos indie no mercado dos games.
Portanto, podemos dizer que a fonte de ideias para Realm of Ink foi muito boa. Ainda assim, vários elementos dão vida própria ao game. O estilo da produção é um deles: usando uma forte pegada oriental, temos visuais que parecem desenhos feitos à pincel com nanquim. Com cores vibrantes, personagens e cenários são muito bem-acabados, incluindo as animações dos modelos 3D durante a jogatina em si.
Confesso que algumas ilustrações mostradas durante diálogos foram prejudicadas por usarem um estilo de animação que “deforma” o desenho. Nada, entretanto, que comprometa a bela apresentação do jogo, que também conta com uma boa dublagem, bem como ótima trilha e efeitos sonoros. Eventualmente, o som parece falhar e deixa o jogo mudo por alguns instantes, situação que fica geralmente restrita aos momentos de obtermos novos itens e habilidades (mais sobre isso em breve).
Pintando sem parar
O jogo está em acesso antecipado no PC desde 2024, trabalho longo que pode ser percebido pela grande quantidade de conteúdo que ele tem. São muitos ambientes, personagens, itens, habilidades e animações diferentes. Vale lembrar que este roguelike, assim como sua inspiração, coloca o jogador para enfrentar desafios – divididos em salas – progressivamente mais difíceis. Conforme a campanha avança, novas habilidades e itens são obtidos para melhorar as chances de avançar; em caso de derrota, é preciso recomeçar desde o primeiro nível.
Essa variedade torna cada nova tentativa suficientemente única, proporcionando cenários e poderes que ainda são inéditos. Considerando que esse tipo de jogo pode render muitas tentativas em sequência, é fundamental termos uma abundância de opções. Aliás, num primeiro momento, parecia que Realm of Ink seria um jogo fácil, pois avancei muito rapidamente na minha primeira experiência no game.
Terminar o jogo num nível de dificuldade libera outro um pouco mais exigente. Somente subindo os níveis de dificuldade podemos realmente aproveitar adequadamente os desafios do título. Mesmo assim, acredito que o game precise de algum balanceamento, visto que algumas habilidades e melhorias me pareceram ser fortes demais. Inclusive, acredito que essa seja a razão de o jogo parecer fácil nas primeiras horas, sem subir o nível de dificuldade.
Isso também afeta a tomada de decisões importantes, tais como escolher qual a próxima sala: eu sempre vou na que tiver melhor recompensa, pois em geral o desafio não é tão mais complexo do que a outra opção. Como vamos conferir logo mais, o game tem uma quantidade grande de opções e é importante que cada uma delas tenha o devido peso e individualidade.
Arte abstrata
Infelizmente, existe um ponto de Realm of Ink que não é fácil de ajustar e que prejudica bastante a experiência: a história. Mais especificamente, a forma como ela é introduzida e desenvolvida ao longo da experiência. Ainda que cenários e personagens sejam interessantes, o contexto do mundo em que nos aventuramos é subdesenvolvido. Somente com várias tentativas e muita leitura (de preferência, uma pesquisa na internet também), é possível entender o que acontece.
Aqui mais uma crítica leve: a localização dos textos para o português brasileiro tem várias falhas, como se a tradução tivesse sido feita automaticamente, sem alguém nativo ou entendedor da língua supervisionando. Seja como for, jogamos no controle da espadachim chamada Escarlate, começamos nossa jornada para obter vingança contra uma raposa demoníaca. Conforme avança, ela descobre que está “presa” dentro uma coleção de histórias, teoricamente todas já escritas pelo autor do livro.
A partir daí os mistérios desse reino de tinta começam a ser desvendados, ainda que de forma mal apresentada e superficial. O que já comentei sobre o nível de dificuldade também vale para o enredo: ele só é devidamente desenvolvido quando se termina o jogo várias vezes (novamente, tal como Hades, mas aqui exigindo menos do jogador para isso). Nesse sentido, os personagens prestam um papel importante, tais como Momo, a mascotinta, e Senhorita Ching, uma humana/raposa sobrenatural.
Inclusive, a mascotinta, uma pequena criatura que conhecemos logo no começo da campanha, é bastante importante para Realm of Ink. Ela acompanha Escarlate não somente no desenrolar da aventura, mas principalmente durante as batalhas. Inclusive, sua forma e poderes dependem de quais Relíquias de Tinta estamos usando: duas podem ser equipadas por vezes, garantindo poderes únicos para a dupla.
Essas relíquias aludem a elementos como terra, água, fogo e madeira. Caso uma nova opção apareça ao final das lutas, Realm of Ink permite ao jogador testá-la antes da troca definitiva. Gostei desse recurso, que permite comparar o efeito do item – seja fortalecimento, rajada, disparo, invocação, entre outros – para saber se vale a pena. As relíquias possuem níveis de raridade, podendo evoluir para versões ainda mais poderosas.
Muitas cores para escolher
Complementando o arsenal, o jogador pode obter itens que garantem todo tipo de vantagem, como mais vida, dano extra, capacidade de causar envenenamento, redução do tempo de recarga das relíquias e da habilidade da mascotinta, entre outras. Escarlate, apesar de ser a protagonista, pode ser “trocada” por outras heroínas, cada uma com habilidades e visuais próprios. À nível de história continuamos com ela, mas na prática é como jogar com outro personagem.
Dessa forma, temos acesso a espadas, bastão, foices, leques, magias e muitas outras opções para a heroína. Somando essas habilidades básicas (que podem ser melhoradas) com as relíquias, os itens de vantagem e as variações da mascotinta, temos um jogo repleto de combinações. Uma tentativa de terminar Realm of Ink nunca é igual a outra, seja pelos itens diferentes disponíveis nas lojas, seja pelos personagens encontrados e suas ofertas entre as salas, ou quaisquer outras razões.
Preciso frisar esse ponto, pois é difícil ver uma variedade tão saudável e grande num jogo relativamente modesto. As personagens e a mascotinta também contam com skins diferentes, aumentando ainda mais as possibilidades. Ao final de cada tentativa, temos um HUB central que permite interagir com outros personagens, bem como mais recursos como uma “creche” para melhorar a mascotinta, uma árvore de melhorias permanentes, entre outras opções.
A contrapartida dessa grande quantidade de recursos são muitas descrições longas e detalhadas para cada opção. É preciso ler muitos textos bem carregados de informação para compreender as mecânicas do jogo. O investimento, entretanto, vale a pena, pois a jogabilidade rápida e ágil compensa esse esforço mais “teórico”. Destaque para as lutas contra os chefes, que são numerosos e oferecem desafios únicos, embora geralmente com eles é que surgem quedas na taxa de quadros, provavelmente pela quantidade de elementos na tela.
(Quase) Uma obra prima
Para apreciar Realm of Ink, é preciso ter paciência para ir além dos seus traços iniciais, que parecem uma mera cópia barata. Conforme conhecemos as suas formas e cores únicas, encontramos um roguelike divertido, ágil e com desafios interessantes. Seu estilo visual único e a invejável quantidade de customizações torna o título viciante. Alguns borrões aqui e ali prejudicam um pouco a qualidade geral, mas a obra final é mais do que digna da sua galeria.
Prós
- Roguelite de ação consegue oferecer uma experiência ao mesmo tempo muito familiar, mas também com características próprias;
- Jogabilidade viciante traz combates ágeis e radicais;
- Muitas mecânicas de jogo diferentes fazem as lutas ainda mais divertidas;
- A variedade geral do game é respeitável, com muitos personagens, itens, habilidades, etc.;
- Produção audiovisual única e agradável no geral;
- Nível de dificuldade parece fácil no início, mas com o tempo pode oferecer bons desafios.
Contras
- História não é devidamente apresentada e explorada, exigindo muita leitura e horas de jogo para ser minimamente compreendida;
- O jogo tem alguns pontos que ficaram devendo, como equilíbrio geral do nível de dificuldade, localização, eventuais quedas de quadro e trabalho de som.
Realm of Ink — PS5/XSX — Nota: 8.0Console utilizado para avaliação: PS5
Revisão: Juliana Piombo dos Santos
Análise produzida com cópia digital cedida pela 4Divinity
















