Diferente de outras franquias esportivas da EA, que têm publicação anual, como EA FC (antigo FIFA), F1 e Madden NFL, a série UFC precisou de um tempo maior para aprimorar seu conteúdo e voltar com força total ao octógono.
Agora chegou a hora de EA Sports UFC 6 mostrar que o maior torneio de MMA do mundo ainda pode render bons jogos, tanto para os fãs de artes marciais quanto para os de games.
Pé na porta e soco na cara
Diferente de jogos de luta mais “fantasiosos”, UFC tem compromisso com o esporte real desde seu primeiro título, lá nos anos 2000, quando só era possível ter imagens dos primeiros torneios por pay-per-views inacessíveis ou fitas cassete (lembram delas?). Logo, já é de se esperar uma maior fidelidade em socos, chutes e agarrões.
UFC 6 não faz feio nesse quesito e mostra uma dedicação à fidelidade de cada estilo marcial representado no jogo. Os jabs, por exemplo, de um boxeador têm uma postura diferenciada da de um wrestler ou kickboxer, desde a execução até a postura que precede o golpe. Nomes mais famosos, como Jon Jones e Alex Pereira, este um dos atletas da capa, tiveram seus trejeitos muito bem reproduzidos, como cotoveladas e chutes potentes.
A luta em pé é bastante dinâmica, e os socos e chutes desferidos são influenciados pela distância e pelo ângulo em relação ao oponente. A trocação franca é uma coisa linda, sem exagero. Acertar um chute no corpo do oponente, depois de dois socos bloqueados, para assim abrir a guarda dele para uma combinação avassaladora que levará ao nocaute, é algo intuitivo e fácil de aprender, apesar das particularidades de cada atleta.
Também há os comandos de clinch, para dar aquela “amarrada” em uma ofensiva adversária, e a queda, para colocar o adversário no chão e tentar finalizá-lo na base do ground and pound (sequência forte de socos por cima do oponente) ou com alguma finalização, como mata-leão, chave de braço, triângulo, guilhotina e por aí vai.
Ao acertarmos uma série de golpes contundentes, podemos ativar o foco, que nos dá uma breve vantagem de velocidade e pode decidir a partida a nosso favor. Entretanto, não adianta sair apertando todos os botões a esmo até algum acertar, pois isso vai minando o fôlego do lutador. Dessa maneira, ele fica mais lento e com reflexos mais baixos, virando uma presa fácil para um nocaute em pé ou uma submissão.
Agora, quando a luta vai para o chão, a coisa muda um pouco de figura e fica menos divertida. Independente da posição, podemos realizar uma série de decisões com base no movimento dos analógicos. Com eles, decidimos se vamos para a finalização, se montamos para uma sequência de socos ou se apenas levantaremos para voltar à luta em pé.
Tentar a finalização se torna uma guerra de quem segura o direcional por mais tempo na direção indicada na tela, o que torna tudo anticlimático e até um pouco mais chato. Para quem está começando, sempre será mais fácil, e mais empolgante, conseguir a vitória pelo nocaute, seja ele técnico (com a intervenção do juiz) ou não.
Isto posto, há um ponto bastante específico no qual a plasticidade dos movimentos dá lugar a algo mais esdrúxulo: quando a luta acaba em nocaute. Dependendo de como seu oponente se move e vai de encontro ao seu golpe, ele pode acabar beijando a lona da maneira mais bizarra possível, caindo em posições humanamente questionáveis, como no exemplo abaixo.
Outro ponto estranho é o tanto de vezes que o juíz some e reaparece pelo espaço. Entendo que a ideia é tê-lo apenas ao fundo, tomando destaque apenas para iniciar os rounds e parar o combate quando necessário, mas ele realmente se torna um espectro, surgindo na frente da câmera quando menos se espera, para depois voltar ao seu lugar.
CHAMA!
No que se refere aos modos de jogo, UFC 6 traz uma boa gama de opções, tanto para quem quer só cair na porrada quanto para quem quer algo mais detalhado. As lutas locais oferecem uma série de regras, que podem variar de uma luta do card preliminar, com três rounds, até uma disputa de cinturão, com direito a público lotado. Também tem a luta de Fundo de Quintal, no melhor estilo Kimbo Slice (R.I.P.) e o Kumite, que tem apenas um assalto de 25 minutos, em uma arena digna de filmes do Jean-Claude Van Damme.
Para quem gosta do trabalho de criar um personagem do zero, há duas linhas a serem seguidas. A primeira é a minihistória O Legado: nela, encarnamos o personagem Chris Carter, filho de uma lenda do wrestling que vai tentar a sorte nas artes marciais mistas. A segunda é a Carreira no UFC, na qual criamos nosso avatar do zero e escolhemos desde sua vestimenta até a lista de golpes e música de entrada.
Apesar de seu ponto inicial diferente, o Legado e a Carreira funcionam de maneira idêntica. A cada luta que marcamos, temos uma quantidade determinada de semanas para nos preparar; nelas, realizamos treinos no saco de areia ou com algum sparring especializado em wrestling, boxe, muay thai, jiu jitsu ou apenas batendo em um saco de areia para manter o condicionamento físico. Também é possível fazer postagens e provocações nas redes sociais para aumentar a base de fãs e, consequentemente, os ganhos nos eventos seguintes.
O O funcionamento de ambos é bacana, mas seria melhor se tivessem algumas particularidades que os diferenciassem entre si. Como funcionam da mesma maneira, torna-se cansativo trocar de modo para continuar fazendo a mesma coisa, diferenciando-se apenas por um pequeno enredo de fundo.
Agora, para quem gosta de história, o Hall das Lendas é um prato cheio. Trazendo os astros da capa Alex “Poatan” Pereira (versão standard) e Max Holloway (versão ultimate), e contando também com Weili Zhang na categoria feminina, esse modo é uma viagem por três combates simbólicos dos atletas, acompanhados de um rico memorial sobre suas origens e carreiras. Poderiam haver mais lutas? Sim, mas o intuito aqui é apenas colocar sob os holofotes alguns dos principais nomes da categoria, e esse museu interativo realiza essa tarefa de maneira bastante rica e competente.
Além das lutas, podemos acessar totens de informação interativos para assistir a vídeos que formam um minidocumentário. Cada atleta ganhou uma área temática que também ressalta seus trunfos. Não querendo ser puxa-saco, mas a do Poatan, toda inspirada em suas raízes indígenas, foi a que mais me chamou a atenção, com um detalhamento não só da origem dele, mas também da cultura da tribo Pataxó.
Por fim, há a Academia. É uma maneira de liberar os itens cosméticos de cada lutador enquanto jogamos, e funciona bem, mas fatalmente nos leva a priorizar uns no lugar de outros. À medida que utilizamos algum atleta em qualquer modo, ele vai ganhando níveis de experiência e, dependendo de quem for, ganha novos acessórios, como bermudas, bonés e, em alguns casos, até um cinturão de campeão.
A Academia está atrelada ao nosso perfil e também recebe pontos de experiência por qualquer coisa que fizermos em qualquer modo de luta. Quanto mais aprimorada estiver, mais lutadores podemos recrutar e, consequentemente, mais cosméticos serão liberados ao longo do tempo. Não é algo que ficará no radar da maioria dos jogadores, mas também não deixa de ser uma parte interessante.
Unindo as lendas de antes com as lendas de agora
Lutadores de renome sobram ao longo da história do UFC, e o elenco de mais de 270 personagens no jogo comprova isso. Desde lendas como Royce Gracie, Randy Couture, Dan Severn, Mark Kerr, Anderson Silva, Tito Ortiz e Chuck Lidell até nomes mais recentes, como Amanda Nunes, Rose Namajunas, Israel Adesanya, Ilia Topuria e Sean O’Malley, muita gente boa foi incluída no game, mas senti falta de alguns nomes importantes, como Cain Velásquez, Kevin Randleman, Frank Mir e nosso Fabrício Werdum.
Fora isso, a fidelidade com a qual os avatares virtuais de cada lutador foram reproduzidos é bastante satisfatória, não só nas poses estáticas, mas também durante a luta, com expressões faciais e movimentos característicos — e, sim, o Anderson Silva tem aquele chute que chocou o mundo e derrubou Vitor Belfort, e você pode até ensiná-lo ao seu personagem lá no modo Carreira.
UFC 6 é quase impecável no aspecto visual, mas desliza em um aspecto importante: alguns dos atletas da década passada ficaram sem tatuagens, ganhando um corpo que, embora proporcional, é liso e sem nenhum de seus desenhos chamativos. É comum, atualmente, que os lutadores sejam cheios de tatuagens e marcas únicas, e elas foram fielmente reproduzidas apenas nos integrantes mais jovens.
Destaco um exemplo bem fácil: Rodrigo “Minotauro” Nogueira, famoso peso pesado brasileiro não só no UFC, mas também no Pride, sempre teve tatuagens, uma delas, inclusive, com o logo da sua equipe, replicado por vários amigos e discípulos. Na tela de seleção, ele aparece sem nenhum de seus desenhos e com um corpo relativamente menor se comparado à época em que lutava.
Fora esse detalhe, que pode ser muito para os fãs da modalidade, mas é algo ignorável para quem não é tão detalhista ou devoto do esporte. Por falar em detalhes, é normal que cada lutador tenha sua música de entrada, e elas não foram incluídas em UFC 6 por questões de direitos autorais. Em alguns casos bem específicos, os narradores comentam sobre isso, o melhor caso é com a chegada de Wanderlei Silva, que usou por anos o hit eletrônico do DJ finlandês Darude.
A dupla de comentaristas, composta por Jon Anik e Daniel Cormier, ao notar a entrada do lutador, começa a cantar o início do ritmo da música, mas logo param, dizendo que, se continuarem, serão processados pelos direitos autorais. Uma boa saída para quem gosta de ver o entrosamento de quem está na cabine de transmissão.
Merecendo o title shot
UFC 6 coloca a franquia nos eixos oferecendo ótima jogabilidade e uma boa gama de modos para quem gosta do esporte. Só cairia bem uma reformulada na parte da luta no chão, algo que tornasse a finalização mais dinâmica e precisa em vez de ficar empurrando o analógico para lá e para cá.
O vasto elenco também é um ótimo chamariz para quem é da velha guarda, apesar da mancada de alguns lutadores mais antigos não serem retratados 100% de maneira fiel ao seu físico. Mas ainda assim, a precisão gráfica e plasticidade dos golpes compensa essa falha, criando uma sensação quase similar a de assistir a um grande evento.
Prós
- Excelente jogabilidade geral, com golpes bem reproduzidos e variações de estilos;
- Mais de 250 nomes famosos do passado e do presente da modalidade;
- Grande número de lutadores, desde lendas do começo da categoria até os maiores nomes da atualidade;
- Bons modos de jogo, com destaque para o Hall das Lendas;
- Gráficos praticamente impecáveis.
Contras
- A parte da luta no chão poderia ser mais elaborada e intuitiva, em vez de ser apenas uma “briga de analógico”;
- Os modos Legado e Carreira são idênticos, apesar da diferença narrativa;
- Alguns lutadores mais antigos ganharam corpos genéricos, sem a reprodução de tatuagens características.
EA Sports UFC 6 — PC/PS5/XSX — Nota: 8.5Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Mariana Marçal
Análise feita com cópia digital cedida pela EA
















