Em um Japão antigo feito de pinceladas mágicas, um sombrio monstro de oito cabeças exigia sacrifícios regulares de um vilarejo. Orochi marcava as residências de mulheres que deveriam ser executadas para acalmar sua terrível fúria. Certo dia, a escolhida foi Nami, a amada do guerreiro Nagi. Então, o espadachim se aliou a um misterioso lobo branco chamado Shiranui para derrotar o tirano das trevas. Após uma batalha brutal, os heróis saíram vitoriosos, e a terra foi libertada da crueldade da entidade, selada com uma espada encantada.
Cem anos se passaram, e a epopeia de Nagi e Shiranui tornou-se um mito. A fé das pessoas naquela aliança abençoada pelos deuses se enfraqueceu profundamente. Com isso, um irresponsável habitante removeu a espada que selava Orochi, e sua maldição se alastrou pelas terras nipônicas novamente. A guardiã do vilarejo rapidamente invocou Amaterasu, a divina mãe de todos, em uma reencarnação de Shiranui. Tal protagonista se aliou a um minúsculo artista chamado Issun, o companheiro ao longo de toda a jornada, e partiu em uma épica aventura para purificar a natureza amaldiçoada e derrotar a entidade maligna mais uma vez.
No visual e no gameplay, o pincel
Toda essa temática mitológica, apesar de muito importante, não é o que primeiro chama a atenção de quem bate os olhos em Okami. Não, essa honra fica com outro aspecto do jogo: o estilo de arte de tinta pincelada, fortemente inspirado em pinturas tradicionais japonesas. De fato, o visual da obra é único e marcante, dando o tom da vibe geral da obra de uma maneira que não se resume à beleza. Não me entenda errado, o visual é lindo; mas também é culturalmente autêntico, e garante uma coesão temática a toda a aventura. A mitologia, a religião e a arte se unem e se sintonizam em todas as dimensões de Okami.
Uma das mais importantes delas certamente é o gameplay, e o pincel também não se ausenta aqui. A ferramenta batizada de Pincel Celestial permite ao jogador desenhar ataques, itens e objetos importantes no progresso da aventura. Na verdade, as novas habilidades de desenho mágico cumprem a função de novos itens ou de power-ups a serem desbloqueados ao longo da jornada. A cada nova constelação traçada, desbloqueia-se um novo potencial de desenho a ser materializado. Assim, o pincel ocupa um papel central tanto no combate quanto na resolução de puzzles e exploração do mapa, sendo um eixo importantíssimo do fluxo de gameplay.
Os habitantes desse Japão mágico
Outra característica importante de Okami são os seus personagens. Desde o design das pessoas até as suas personalidades, passando por seus diálogos, pequenas missões dadas e funções na narrativa, praticamente todos os habitantes desse Japão fantástico foram criados com muita inspiração. Isso torna a ambientação do jogo um mundo vivo, crível e habitado por seres convincentes, e auxilia na força do desenrolar da trama.
Alguns personagens merecem destaque, por um motivo ou por outro. Um deles é o mestre dos Dojos, que ensina novas habilidades de combate para Amaterasu. Sua aparência é simplesmente genial: sua face pode se virar de cabeça para baixo e continuar sendo um rosto! Quando o conhecemos pela primeira vez, ele aparenta ser um curioso idoso indefeso. Mas quando suas feições se invertem, ele se revela o poderoso guerreiro que realmente é. Além dele, é impossível não destacar o desenvolvimento do personagem de Susano, que vai de farsante do vilarejo a um autêntico herói da lenda.
Um ritmo inconstante
Cabe examinar mais de perto o ritmo do desenrolar do jogo. Por um lado, o desbloqueio gradual de novas habilidades do Pincel Celestial confere à aventura um fluxo que poderia ser bastante envolvente. Infelizmente, alguns problemas impedem a realização desse potencial. De início, o começo do título contém muito diálogo, de modo que pode ser maçante. Ademais, a mecânica de alimentar os animais força o público a assistir a uma cutscene francamente chata, o que prejudica o ritmo do game. No final das contas, o ritmo consegue prender o jogador, porém não é nem de perto tão engajante quanto poderia ser.
Ao fim e ao cabo, Okami não é um clássico moderno sem motivo. O estilo de arte impactante, os personagens criativíssimos e o gameplay único constituem uma aventura digna de homenagens. As questões de ritmo não chegam a afetar a grandiosidade do conjunto da obra, que deixou sua marca na história dos videogames com o poder divino da arte.
Revisão: Thomaz Farias





