gamescom latam 2026: David Wise & Game Boys deram aula em um show verdadeiramente mágico

Colaboração entre lendário compositor e a banda nacional de game music rendeu duas apresentações basicamente irretocáveis e certamente inesquecíveis.

em 06/05/2026


Começando esta resenha um pouco de opinião particular, eu acho que o David Wise é tranquilamente um dos nomes mais subestimados pela importância que ele tem em toda a concepção do que é “game music” como uma espécie de gênero. Eu sempre defendi que o cara seria um baita de um nome em qualquer evento que fosse. Eis que, na gamescom latam 2026, o homem finalmente veio ao Brasil e se apresentou em duas noites ao lado dos Game Boys, uma banda nacional com quem o mestre toca um projeto musical. 

De cara, pensando na ideia de uma apresentação em um evento de games de grande porte, fica difícil não lembrar e comparar com as experiências anteriores que tive na BGS 2019, com a Video Game Orchestra do Shota Nakama e em 2022, com a Sonic Orchestra, ambos bem prejudicados pela própria infraestrutura de pavilhão, cuja acústica não ajudou nem um pouco a péssima decisão estrutural de colocar vários palcos próximos que competiam entre si no próprio barulho.

Daí, fico extremamente feliz que a gamescom latam deu uma aula em praticamente todos os problemas persistentes de ambos os shows no evento concorrente, que geralmente rola em outubro. Não só os vários palcos eram bem distantes entre si como também o Journey, o stage em que ocorreu o show do David Wise com os Game Boys contou com uma acústica realmente impressionante que definitivamente colaborou com a imersão da experiência como um todo. 

Outro ponto bastante interessante é que, embora o homem seja principalmente conhecido pelas trilhas de Donkey Kong Country, a progressão do concerto como um todo foi bastante equilibrada, com interpretações de músicas que iam além dos temas do macacão — e olha que praticamente todos os clássicos estavam lá, como Fear Factory, Snake Chantey, Stickerbrush Symphony, Life in the Mines e Aquatic Ambiance. 




Para complementar, o show mostrou uma pegada meio prog, sendo que todas essas composições eram apresentadas em blocos bem duradouros, mas com três ou quatro arranjos diferentes que eram concatenados de maneira muito fluida. Então, basicamente, em vez de serem interpretadas de uma única maneira, é como se fossem várias versões distintas de uma mesma melodia. Isso ficou bem evidente na hora do Hot Head Bop, do Donkey Kong Country 2.

Por fora de Donkey Kong Country, houve alguns momentos em que David Wise e os Game Boys se aventuraram por Super Mario Galaxy; Sonic e The Legend of Zelda, sendo que, dependendo do dia, podia ser alguma canção única de cada uma dessas marcas ou um pout-pourri com vários temas. Todas com uma acústica praticamente impecável. Eu só ficaria mais feliz se tivessem encaixado ainda um Mega Man ou Castlevania no meio, mas isso não diminui em nada o sólido e coerente setlist.




Na apresentação do dia 1, especificamente, e cheguei um pouco em cima da hora e já não tinha lugar para sentar, o que me fez ter que ficar agachado no chão do corredor, logo na frente do palco. Por conta disso, dava para sentir a vibração da música no chão — e o concerto, dessa maneira, tinha tanta potência que acredito ter sido melhor do que quando estive lá no segundo dia, quando assisti ao show normalmente da cadeira. Não que fosse ruim dessa forma, reforço. 

Aliás, é uma decisão tocar uma apresentação dessas em um palco com o público sentado, tudo bem formal e tal. Não é problemão, mas seria igualmente proveitoso se fosse um showzão desses de ver todo mundo em pé e pulando quase em cima do palco. Lembro, inclusive, de uma cosplayer de Princesa Zelda que estava em pé, na lateral da plateia, e com certeza estava curtindo um bocado enquanto dançava sem a restrição de um assento ou de gente atrás querendo simplesmente assistir em uma vibe que não é a da bagunça. 




A versatilidade não só do David Wise (que tocou uns três instrumentos diferentes no palco), mas dos próprio Game Boys também é um aspecto a se destacar. Embora houvesse um grande nome chamando atenção para o projeto e para a parceria, todos eles representaram demais, com cada um tendo seu momento de destaque na hora certa com solos dentro das músicas. 

Por fim, se for para pegar no pé, o maior incômodo foi estar em uma celebração musical e artística de tão alto nível, mas ter que acompanhá-la com um telão exibindo uns vídeos claramente produzidos por inteligência artificial, com uns cenários bem distorcidos quando se moviam, com engrenagens ovais que pareciam elásticas e bananas que ficam se misturando nos cachos suspensos, sem qualquer consistência. 




Adicionalmente, houve um problema técnico no segundo dia durante uma apresentação de Those Who Fight Further, do Final Fantasy VII, uma vez que o teclado sintetizador do David Wise parecia não estar conectado direito e, por consequência, o som não era reproduzido da maneira correta. A banda brincou com fato do teclado ter tomado silence e, durante a música em si, a banda estava tão na fúria que só deu para notar essa lacuna porque o compositor demonstrava estar um pouco incomodado enquanto tentava de todos os jeitos fazer o negócio funcionar.

Coisa menor, senti falta de Homecoming Hijinx (Donkey Kong Country: Tropical Freeze), de Mining Melancholy (Donkey Kong Country 2) e de qualquer tema de Battletoads, mas aí é mais coisa de preferência pessoal do que um problema efetivo. 




De resto, tudo ocorreu muito bem, especialmente no final apoteótico, que uniu, em uma única música, Bowser’s Castle do Super Mario World com Gangplank Galleon, que se encerrou com a plateia, cantando a melodia à capella enquanto era conduzida pelo próprio mestre. 

De um modo geral, foi uma aula. Não de música, mas como montar um concerto em um evento. Tudo pareceu tão bem conduzido que até um problema técnico maior, como o do sintetizador, pareceu pouca coisa diante do saldo positivo de uma noite que com certeza valeu para qualquer pessoa que se arriscou a ficar até os últimos momentos do dia 1 e 2 da gamescom latam. Verdadeiramente exemplar. 

Imagem retirada do Instagram do Game Boys



Para complementar, é muito bacana a notícia de que os Game Boys e o David Wise combinaram a gravação de um álbum em conjunto a fim de dar continuidade a essa baita parceria que, segundo o próprio Wise, já contava com pelo menos uns dez anos de conversa, segundo confidenciou em uma entrevista para o GameBlast e que será publicada nos próximos dias, então, fique de olho!

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João Pedro Boaventura
É jornalista formado pelo Mackenzie e pós-graduado em teoria da comunicação (como se isso significasse alguma coisa) pela Cásper Líbero. Tem um blog particular onde escreve um monte de groselha e também é autor de Comunicação Eletrônica, (mais um) livro que aborda história dos games, mas sob a perspectiva da cultura e da comunicação.
Este texto não representa a opinião do GameBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Você pode compartilhar este conteúdo creditando o autor e veículo original (BY-SA 4.0).