Análise: Forza Horizon 6 mantém a excelência e pecados da franquia

O festival corrige a progressão ao abraçar a cultura automobilística oriental, embora ainda peque na personalização.

em 21/05/2026
A franquia Forza Horizon já nos levou em viagens memoráveis pelo México, Reino Unido, Austrália, França, Itália e Estados Unidos. Desde sua estreia, a Playground Games tem refinado a fórmula a ponto de se tornar o padrão e, para muitos, a experiência definitiva dos jogos de corrida em mundo aberto. No entanto, após cinco títulos, a sensação de "zona de conforto" começou a rondar o festival. Forza Horizon 6 parte para o outro lado do mundo para ajustar os problemas e, em seu sexto título, consegue beirar a perfeição.

O equilíbrio perfeito

O jogo começa com a tradicional sequência de introdução que alterna entre diversos estilos de eventos, finalizando a bordo do carro conceito 2025 GR GT Prototype. Logo em seguida, somos apresentados à nova abordagem narrativa: ao contrário dos títulos anteriores, onde você já iniciava como uma lenda do festival, aqui somos apenas um turista que entra no festival com os amigos para curtir e por puro amor ao automobilismo. A Playground Games entrega, assim, algo muito pedido pelos fãs: um retorno à fórmula inicial de progressão mais cadenciada dos dois primeiros títulos em uma versão muito bem adaptada aos conceitos que a franquia estabeleceu desde o Forza horizon 3, sendo este apenas um dos pequenos ajustes para aperfeiçoar o que já era quase perfeito.

Considerando que a progressão depende diretamente de um mapa bem elaborado — um ponto que segue mantendo o nível de excelência, mas que foi muito criticado na revelação do mapa pela turma da internet que achou o mapa pequeno demais e adora criticar algo sem jogar —, a Playground Games acertou em cheio aumentando a proporção e escala das ruas. Os caminhos são mais longos, as vias urbanas são imensas e a sensação de densidade é maior, com comércios, habitações e um trabalho de arvorismo impressionante que consegue cumprir bem o desafio de nos ambientar na terra do sol nascente.

Alinhado com a ideia de progressão gradual, pela primeira vez na série Forza, o mapa adota um sistema de névoa. O mundo não é mais revelado e poluído de ícones desde o primeiro minuto; ele vai se revelando organicamente conforme você explora e finaliza eventos. As corridas de rua, por exemplo, não são um evento clandestino ao festival como abordado anteriormente, agora são competições que encontramos no mapa à medida que vamos andando por aí.

Essa mudança de filosofia dialoga perfeitamente com a reestruturação das atividades. Houve uma redução do off-road que era muito presente no título anterior (o que fazia sentido no contexto, claro). Como a maioria do catálogo de veículos agora é composta por carros esportivos ou de rua — dos quais houve aumento dos modelos das fabricantes asiáticas —, fazia pouco sentido manter as corridas de terra em destaque. Agora, o Rally e o Cross Country assumiram parcelas menores (diria que voltaram ao seu normal), abrindo espaço para o que o Japão faz de melhor: as corridas de Touge e o refinamento do Drifting.

A física do jogo, ainda que o estúdio afirme ter sido refeita do zero, mantém exatamente o mesmo feeling de pilotagem. O que percebi, na verdade, foi um ajuste muito pequeno, mas de impacto enorme. Posso citar três pontos principais que notei: o primeiro deles é a frenagem dos carros que, mesmo vindo em altas velocidades, não os fazem virar um "sabonete molhado" ao tocar, ainda que levemente, a parte de fora do asfalto. O segundo seriam os trechos de estrada de terra ou cascalho, onde antes uma Lamborghini ao menor toque no acelerador saía rodopiando, e agora é possível passear com maior tranquilidade. Por último, mas não menos importante: antes, quando você modificava um carro com tudo no máximo, muitos ficavam quase impossíveis de pilotar sem fazer algum ajuste mais detalhado; agora isso foi ajustado e, salvo algum caso que eu não tenha testado, mesmo os modelos mais poderosos são perfeitamente domáveis.

Para dar vida a esse ecossistema, novas atividades foram introduzidas, sendo a principal novidade (na franquia Forza Horizon) o serviço de delivery da Raku Raku Express, onde, pilotando um Honda Acty, realizamos entregas com modificadores que variam entre pontuar fazendo drift, realizando determinado número de habilidades ou simplesmente percorrendo determinada distância sem encher uma barra de dano. Além disso, os tradicionais Clubes foram repaginados para o contexto japonês, ganhando o reforço dos "Rolês", que são basicamente passeios e/ou corridas amigáveis para conhecer mais sobre a história e a cultura automotiva nipônica.

O mapa ainda é preenchido com circuitos de voltas contra o relógio e as corridas de arrancada, que agora são em tempo real contra outros jogadores. Fechando as novidades de exploração, a Playground espalhou mascotes colecionáveis diferentes por cada região do mapa e introduziu os carros usados, permitindo encontrar e comprar carros já modificados estacionados pelo mapa por valores menores, sendo uma adição alinhada com o objetivo de recompensar a exploração. 

Temos o retorno dos carros abandonados em celeiros, sendo 15 até o momento, espalhados pelo mapa com a tradicional caça ao tesouro para encontrá-los, e os "carros tesouro", que são modelos que ainda funcionam mas estão parados por algum motivo que nos é contado por uma breve historinha, os quais encontraremos através de fotos com dicas da localização. Este último, como dediquei muitas horas de minha vida (talvez até demais) assistindo ao seriado Dupla do Barulho (Fast N' Loud) do Discovery Turbo, particularmente adorei. Pena que não precisamos oferecer metade da diferença para negociar a compra com um Sr. Aposentado do Texas cheio de carangas enferrujadas e com ninhos de ratos nos assentos.

Nerfaram meu Impala e curadoria musical primorosa

Desde Forza Horizon 3 e a icônica "I Follow Rivers", eu não curtia tanto uma trilha sonora de jogo de corrida. “Ah, mas Need for Speed…” Sim, Need for Speed tem sua playlist de maravilhas, mas enquanto a franquia vizinha tenta se encontrar na gaveta da EA, a Playground entrega, e como entrega. Músicas como "Friendshipping", "new way out", "Up From the Bottom", "Dracula" e praticamente qualquer uma da nova rádio Gacha City Radio enquanto você faz drift por aí são sensacionais. Ainda que eu tenha passado a maior parte do tempo com o rock da Horizon XS, todas as estações entregam faixas incríveis e integraram artistas japoneses para enriquecer seu catálogo de músicas, que você pode curtir através das playlists oficiais.

Porém, se nessa parte a curadoria musical mantém o nível de excelência sonora, o mesmo não se pode dizer totalmente do design do som dos carros. O ronco do motor parece um tanto baixo e abafado demais em qualquer uma das opções de câmera escolhidas, problema que se destaca principalmente nos clássicos modelos americanos. Um Impala modificado com um motor V12 deveria soar como se o chão estivesse se abrindo para o capeta em pessoa sair e te desafiar para um duelo de guitarra (sim, é uma referência a Tenacious D in The Pick of Destiny e, se você não entendeu, tenho pena de sua alma), mas infelizmente acaba entregando um barulho bem menos intimidador do que deveria.

Licenciamento que sai caro

Se a trilha sonora, a ambientação e o design do mapa mostram o tamanho do refinamento que a Playground Games alcançou, o sistema de personalização infelizmente expõe um problema crônico da série. Existe um paradoxo em Forza Horizon 6: ao mesmo tempo em que o jogo ostenta uma parceria com o genial time de artistas da Liberty Walk — entregando conjuntos de bodykits impressionantes —, a estrutura de customização base é, mecanicamente, a mais pobre desde Forza Horizon 3, tornando os conjuntos belíssimos em uma máscara para a falta de variedade geral. 

O problema fica evidente logo nas primeiras horas. Devido a uma aparente limitação nas opções de peças disponíveis para a grande quantidade de carros do catálogo, a inteligência artificial do jogo frequentemente coloca o jogador para correr contra adversários que pilotam carros esteticamente idênticos, ainda que o catálogo inicial seja o maior de todos os jogos, com mais de 550 carros sem considerar DLCs.

Ver um grid composto por dez ou doze modelos idênticos, onde a única variação real entre eles é a cor da pintura, quebra muito a imersão. Em um festival que nasceu para celebrar a cultura da modificação e a individualidade do piloto, a sensação de "copia e cola" visual incomoda. É um detalhe que afeta o capricho técnico do título e que, idealmente, deve receber um ajuste fino por meio de atualizações pós-lançamento nas primeiras semanas de vida do jogo.

Aqui vale ressaltar um ponto que, não me achando o Sr. Analista de Jogos, pessoalmente nunca vi em nenhuma análise, seja da franquia da Microsoft ou de qualquer outra de carros que tenha modificação como mecânica: o problema que o licenciamento das marcas traz. Imagine que você é Enzo Ferrari e cria um dos mais icônicos veículos da história da humanidade; você gostaria de ver seu carro socado no chão, com luz saindo até do para-brisa, ou ainda ligado diretamente a corridas ilegais? Ou você é Ferruccio Lamborghini e vê seu icônico Lamborghini Diablo tomar um cacete de um Focus todo mexido? Acredito que não. Esse é um problema que quem se propõe a desenvolver jogos de corrida fatidicamente vai ter que enfrentar.

E se você acha que tirei isso do nada, há alguns anos a própria Toyota ficou de fora de vários títulos de peso chegando a comunicar em suas redes que seria para não ter a marca associada a títulos que supostamente promoviam corridas ilegais (ainda que oficialmente seja por conta de um contrato de exclusividade com Gran Turismo, da Sony). Temos também o exemplo da Ferrari, que na vida real é tão rígida com seus contratos que chegou a banir o cantor Justin Bieber de comprar novos modelos após ele customizar uma 458 Italia com cor azul-escura fosca e para-lamas alargados. 

Nos videogames não é diferente: durante um bom tempo, a marca italiana barrou os desenvolvedores de permitirem grandes mudanças estéticas, impedindo o jogador de trocar sequer as rodas. É por isso que a personalização limitada, ainda que seja uma frustração para nós jogadores, não deve contar como um ponto de crítica negativa para a desenvolvedora em si.

Ainda assim, a Playground Games conseguiu encontrar uma forma de compensar essa lacuna dando ao jogador o controle quase total na personalização das garagens. Através da customização delas, é possível decorar o ambiente onde você pode exibir suas máquinas para que outros jogadores e amigos as visitem. É um acréscimo divertido que dialoga com o senso de comunidade que a franquia possui, permitindo criar desde oficinas mais tradicionais até cenários completamente inusitados ou ainda usar presets da comunidade assim como é possível fazer com as pinturas.

Conhecimento acumulado

É fascinante observar como Forza Horizon 6 funciona como um apanhado de tudo o que a Playground Games aprendeu nos últimos quatorze anos. Em vez de tentar reinventar a roda, a desenvolvedora olhou para o próprio passado e integrou as melhores qualidades de cada título anterior.

Temos aqui o retorno da progressão mais cadenciada inspirada diretamente nos dois primeiros títulos da série, que tanto os jogadores pediam. Do terceiro jogo, veio a inspiração para os trechos de neve pesada que remetem à expansão Blizzard Mountain. Do quarto título, herdamos a alternância de estações e o clima dinâmico, com destaque para as chuvas pesadas como as que víamos na DLC Fortune Island, enquanto a base gráfica soberba e a comunicação inteligente do Forza Link foram importadas e aprimoradas diretamente de Forza Horizon 5. Até o catálogo de veículos recebeu um tratamento especial, com seus 550 carros já disponíveis no lançamento padrão, incluindo muitos modelos que anteriormente eram parte de DLCs pagos.

A maior vitória desse conjunto de acertos, no entanto, está na resolução do maior problema recente da franquia: a progressão rápida demais e as recompensas exageradas. Nos títulos anteriores, o jogador era bombardeado com supercarros e prêmios nos primeiros vinte minutos, o que esvaziava o sentimento de conquista. No sexto título, a Playground acertou em cheio ao criar uma estrutura de progresso dupla e independente: de um lado, temos o Festival Horizon tradicional, onde progredimos participando de eventos, interagindo com placas de bônus e pontuando em áreas de habilidade; do outro, a aba Discover Japan, com foco em tarefas paralelas como o colecionismo de carros, exploração do mapa e encontros automotivos, entre outros.

Essa separação é um tremendo respiro para o ritmo do jogo. Se você quer focar no lado estritamente competitivo e técnico, o braço do festival entrega isso de forma organizada. Se prefere apenas relaxar, o lado da exploração recompensa o seu tempo gasto conhecendo o Japão. Por serem caminhos autônomos, o jogo consegue estender significativamente a sua vida útil e ampliar o endgame, eliminando aquela sensação de saturação que costumava tomar conta do mapa após algumas dezenas de horas.

Técnicamente impecável (novamente)

No aspecto técnico, Forza Horizon 6 consolida o amadurecimento da Playground Games na atual geração. O trabalho de otimização realizado aqui merece fortes elogios. Durante toda a minha experiência desde o período de acesso antecipado com a versão Premium, a experiência entregue foi de extrema estabilidade. O título está perfeitamente polido, registrando apenas um único e isolado bug visual — onde o modelo de um chassi adversário estava desalinhado —, algo que não afetou minha sessão de gameplay e é irrelevante diante da escala do projeto.

O grande espetáculo, contudo, fica por conta do sistema de iluminação. Em seu padrão básico, o jogo já entrega cenários impressionantes, mas é com o Ray Tracing ativado que a mágica realmente acontece. Diferente de outros títulos onde o recurso serve apenas para pesar o desempenho ou enfeitar o Modo Foto, aqui a tecnologia se mostra otimizada e agrega muito ao visual geral do mundo. Andar em Tóquio durante uma noite chuvosa, vendo os letreiros refletidos de forma dinâmica nas poças d'água e na lataria molhada dos carros, é a definição visual do que se espera da atual geração de hardware.

Outro ponto muito positivo que pude usufruir é a redução considerável da famigerada tela de “Otimizando para seu PC” e compilação de shaders, que ocorre graças a uma nova tecnologia da Microsoft disponível em placas AMD chamada Advanced Shader Delivery, que em alguns casos reduziu o tempo de 1,5 minuto para 4 segundos. No meu PC não cheguei a contar, mas foi uma mudança enorme, visto que o Forza Horizon 5 às vezes crashava durante esse processo.

A consagração de uma franquia

Forza Horizon 6 é a consagração de uma fórmula e de um estúdio que soube ouvir o seu público alvo para evoluir e equilibrando a progressão e o ganho de recompensas, estende a vida útil do festival enquanto a trilha sonora entrega uma das melhores curadorias musicais recente do gênero. 

Embora a franquia ainda carregue o fantasma de uma customização visual limitada (muitas vezes por contratos rígidos de licenciamento), tenha grids repetitivos e motores que carecem do impacto dos sons realistas, a genialidade artística dos bodykits da Lyberty Walk, a iluminação impecável com ou sem Ray tracing e à atmosfera automotiva do Japão fazem deste título uma obra de arte obrigatória para qualquer fã de velocidade. O Festival Horizon encontrou o seu lar definitivo, ao menos até o próximo título.

Prós

  • Mapa impecável que equilibra uma metrópole enorme em escala e conteúdo com o charme das montanhas e trechos de “interior” bem ambientados no Japão;
  • Equilibra a variedade dos eventos para integrar o Touge e ampliar o Drift;
  • Sistema de progressão dividido em Festival e Discover Japan amplia a variedade das atividades disponíveis além do festival;
  • Com integração de artistas locais e uma nova estação focada em músicas japonesas, a trilha sonora é excelente;
  • Otimização técnica segue mantendo a excelência da franquia;
  • As inclusões dos carros usados, carros-tesouro e atividades ligadas à cultura local são divertidas e contribuem para a imersão na nova localização do Horion Festival.

Contras

  • A customização ainda continua limitada na parte estética;
  • Problemas pontuais de IA gera corridas com muitos carros idênticos;
  • O som dos carros parece ter volume menor e é abafados, tirando o impacto e a “graça” dos motores modificados.
Forza Horizon 6 - PC/XSX - Nota: 9.5
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital adquirida pelo próprio redator
OpenCritic
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Windsor Santos
Jogadorino desde os áureos anos 90, geralmente surpreende amigos com a quantidade de títulos que já finalizou. Divide o amor por games com seus mangás, Hq's e filhotes. Agora seu objetivo é registar seus conhecimentos para as novas gerações de jogadores.
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