Devil May Cry, da Netflix, recebeu, nesta semana, sua mais nova temporada. Infelizmente, diferente da série da Lara Croft, que me surpreendeu positivamente com um segundo volume sólido, o mesmo não ocorreu com DMC, que, embora tenha apresentado melhorias consideráveis, mantém, principalmente, problemas já vistos anteriormente na primeira temporada.
Uma trama que continua tropeçando em suas próprias ideias
A segunda temporada de Devil May Cry traz novamente o retorno do lendário caçador de demônios Dante, que deve se unir à sua “amiga” Lady para deter seu irmão Vergil, que chega à Terra sob as ordens de Mundus para recuperar um artefato chamado Arkana. Mas a situação sai do controle quando o antagonista Arius revela ter outros planos para a relíquia.Diferente da primeira sequência, que seguia um caminho mais original, colocando como vilão principal o Coelho Branco, nesta segunda o foco está em Arius e em sua organização chamada Ouroboros. Ambos foram apresentados pela primeira vez no polêmico jogo Devil May Cry 2. Graças a essa escolha, senti que a série, entre seus oito episódios, teve um ritmo melhor na narrativa, tornando-a um pouco mais interessante.
Entretanto, Arius é um vilão menos interessante que o Coelho, apesar dos esforços do enredo para conferir-lhe maior imponência. Assim como nos jogos, ele acaba sendo uma figura esquecível e nem um pouco ameaçadora.
Junto a isso, ainda se mantêm outros problemas, como a insistente inserção de pautas políticas e religiosas que fazem críticas diretas a situações atuais; os demônios como figuras vitimizadas, mesmo que esses tenham sido reduzidos em comparação ao primeiro volume; e o excesso de palavrões e sangue para fazer a série parecer “adulta”, o que, na prática, causa o efeito oposto.
Mas nem tudo são pontos negativos. Fiquei surpreso com Vergil, que acabou sendo uma figura bem adaptada, considerando principalmente o que fizeram com Dante, mas logo me aprofundo nisso. Ele mantém sua personalidade orgulhosa e arrogante, seu comportamento calmo, que o permite se adaptar rapidamente às situações; sua rivalidade com ele também foi retratada de forma divertida. Tudo isso o aproxima da sua versão dos jogos, e a explicação para ele se aliar a Mundus é “convincente” dentro do universo do seriado.
Lady passou, milagrosamente, por uma ótima mudança em sua personalidade, deixando de ser uma adulta que fala palavrões como uma adolescente que acabou de descobri-los, para uma versão mais madura e menos arrogante, que trata muito melhor o protagonista da série. Embora isso ainda não a salve totalmente de alguns diálogos muito mal escritos.
Um último ponto positivo da história foi o aprofundamento, por meio de flashbacks, do passado dos filhos de Sparda. Desde o primeiro volume, esse sempre foi um aspecto que considerei forte, por ser algo ausente no material original. Aqui, temos mais momentos de ambos ainda crianças brincando e, além disso, figuras centrais como Mundus também recebem um desenvolvimento de personalidade interessante.
Dante, o palhaço de circo
Queria reservar um tópico apenas para falar sobre o protagonista, Dante. Semelhante à primeira temporada, ele continua sendo um personagem adaptado de forma que incomoda. É basicamente um palhaço: ridicularizado por inimigos, tratado como um idiota pelo roteiro e repleto de inconsistências nas cenas de luta.Essas características são muito diferentes das vistas em sua contrapartida digital ou em matérias extras, como light novels, às quais o diretor Adi Shankar faz referência. Em vez de um personagem com passado trágico, que utiliza muito de seu humor como máscara para lidar com seus traumas, temos apenas a comédia sem filtro.
Isso torna o personagem raso, e a falta de tempo de tela, destinada a dar espaço a outras figuras, como Vergil, acaba deixando o protagonista carente de um desenvolvimento decente, servindo mais como um alívio cômico ambulante, com diálogos mal escritos e piadas que nem são tão boas.
Cenas de ação divertidas, mas sem criatividade
Já que comentei brevemente sobre as lutas, vamos nos aprofundar. A animação não é feia; os modelos dos personagens e os cenários são realmente bonitos, tudo isso graças ao Studio Mir, o mesmo que fez a animação de Avatar: A Lenda de Korra e Voltron. Infelizmente, embora visualmente seja muito bonita, a produção deixa a desejar em momentos de ação intensa.Há inconsistências, como inimigos em 3D de baixa qualidade, fazendo-os parecer que saíram do PlayStation 2. Os embates carecem de criatividade nas coreografias, o que impede que se tornem marcantes, o que é irônico, tendo em vista que o estúdio é conhecido pela diversificação de movimentos presentes no game, que poderiam ter sido utilizados. Exemplo: o herói da franquia ganhou suas icônicas pistolas, mas mal as utiliza durante os episódios.
Esse tipo de escolha acaba sendo um desperdício e ajuda a tornar cada embate monótono. Outro ponto decepcionante é a aparência do Devil Trigger, que, além de ser feita em 3D, possuía uma direção de arte que o faz parecer mais um morcego gigante do que uma forma híbrida. Nesse caso, era melhor terem copiado algum dos vários visuais existentes nos jogos.
Uma série medíocre vinda direto da mente de um “visionário”
Devil May Cry traz uma segunda leva de episódios que melhora alguns pontos, como a personalidade de Lady, desenvolve melhor o passado dos irmãos por meio de flashbacks e faz uma boa apresentação de Vergil ao seriado. Em contrapartida, limitações como a animação com coreografias fracas e o 3D malfeito permanecem.
O filho de Sparda ainda continua sendo resumido apenas a um alívio cômico ambulante, com pouco tempo de tela, em vez de ser devidamente desenvolvido, já que é o protagonista. Arius também não se garante como um antagonista ameaçador, e os demais pontos, como a exaltação americana e as críticas políticas vazias, permanecem. Muitas dessas falhas talvez fossem resolvidas caso o criador simplesmente conseguisse aceitar as críticas da comunidade.
Revisão: Mariana Marçal







