Quando Batman: Arkham Asylum foi lançado em 2009, um de seus principais pontos de destaque era o seu sistema de combate, que foi descrito como sendo rítmico, com intuito de manter um fluxo fluido de ações diante de vários oponentes. Dead as Disco eleva esse conceito à literalidade, uma vez que, no papel de Charlie Disco, o jogador precisa utilizar o exato mesmo conjunto de ações contra as hordas de oponentes que surgem ao longo das fases temáticas, mas de acordo com a batida da música reproduzida pelo jogo.
Solta o som, DJ!
Essa comparação inicial pode parecer forçada de barra, mas qualquer jogador que tenha se aventurado por algum dos jogos de Arkham vai perceber que ela acaba sendo inevitável. A estrutura inicial segue a exata mesma lógica de alternar entre os botões de ataque básico, esquivas e contra-ataques para enfrentar os oponentes, sendo que Dead as Disco fez questão de incluir até mesmo um equivalente ao batrangue — aqui sendo a baquetarangue — que acerta os inimigos à distância e colabora na manutenção de combos cada vez mais longos.
Tudo isso, entretanto, é dependente do fluxo da trilha sonora que está sendo reproduzida pelo título, sendo que o jogador precisa acompanhar o número de bpm (batidas por minuto) para que o jogo identifique a sequência com precisão e que isso acarrete em pontuações progressivamente mais altas. Essa mecânica parece ser um pouco forçada no começo, embora, logo se torne natural, especialmente quando estamos refazendo algum estágio e já conhecemos o fluxo de cada música que o embala.
Assim, Dead as Disco consegue construir sua jogabilidade em cima dessa premissa simples, já que cada ataque parece apenas seguir o ritmo da música, como uma coreografia. Além dos movimentos já mencionados, é possível também realizar passos de dança adicionais como o taunt, o que também bonifica a pontuação e conta para o combo de movimentos, além de executar golpes finalizadores ou, além disso, certos ataques especiais.
Essas técnicas estão diretamente relacionadas aos chefões disponíveis, sendo que cada um deles corresponde a um estilo musical distinto. Uma vez que eles são derrotados, Charlie Disco pode incorporar sua essência em seu próprio arsenal, possibilitando-o a utilização de movimentos que envolvem o riff de guitarra paralisante ou o golpe de contrabaixo.
Aliás, Dead as Disco estrutura praticamente toda sua campanha ao redor deles. Cada fase temática funciona como uma preparação para enfrentar esses inimigos com quem o protagonista já tinha uma história pregressa. A formatação, inclusive, remete bastante à estrutura clássica de Mega Man, tanto pela seleção de personagens quanto pelo progresso baseado em adquirir habilidades dos chefes derrotados. Essa influência fica bem explícita logo na tela de seleção de fases.
Ao mesmo tempo, existe também certa proximidade com Lollipop Chainsaw na maneira com a qual o jogo organiza seus níveis. Cada chefe possui uma estética muito específica e transforma completamente a atmosfera do estágio em torno de si. A diferença, contudo, é que Dead as Disco integra a música de forma muito mais direta à jogabilidade, indo além da simples temática.
A versão atual disponível em acesso antecipado conta com quatro chefes distintos: Dex, um androide guitarrista do metal pesado — cuja trilha remete muito às de Metal Gear Rising, inclusive —; Hemlock, um caveirão baixista do punk; Arora, a vocalista do K-pop; e Prophet, o um rapper porradeiro.
Quando derrotados pela primeira vez, a influência que uma força maligna chamada Harmonia exercia sobre eles é dissipada e Charlie pode conversar com eles no Encore, um bar administrado por um senhor chamado Stix, que é responsável por vender certos itens que revitalizam o hub em questão. Esses ainda podem ser usados para fortalecer os laços de relacionamento do personagem principal com os ex-adversários.
Agora desça, pegue no compasso
Tendo em vista sua estrutura fragmentada, o enredo de Dead as Disco acaba funcionando mais como uma justificativa um tanto simplória para conectar as várias fases do que uma experiência narrativa elaborada. Assim, tudo gira em volta da premissa básica de que Charlie Disco é um baterista que, dez anos após sua morte, retorna a fim de reunir a banda para mais um show e para descobrir quem foi o responsável por seu destino trágico.
Pelo menos por enquanto, na versão antecipada, o tema guarda-chuva do game acaba prevalecendo sobre a tentativa de contar uma história de verdade, focando mais nessa questão estilística e trazendo um pouco mais de variedade na jogabilidade prática, uma vez que cada ritmo exige uma atenção distinta por parte do jogador, com a percussão ditando cada jogatina, algo que remete também a Hi-Fi Rush e Crypt of the NecroDancer.
Apesar de premiar um acompanhamento preciso do ritmo da percussão, Dead as Disco acaba sendo bem permissivo e trazendo bastante margem de adaptação diante dos oponentes. Ainda assim, senti falta de um recurso semelhante ao metrônomo visual utilizado em Crypt of the NecroDancer. Mesmo que opcional, um indicador de batida poderia funcionar bem como ferramenta de acessibilidade, pelo menos no modo mais fácil. Em alguns momentos mais caóticos, especialmente durante lutas contra chefes, essa ajuda visual faria diferença sem comprometer a proposta central do combate.
Falando em visual, aliás, é bacana ver como a identidade estética mais ampla do título como um todo consegue se adaptar para combinar com cada gênero musical. Sem perder muito tempo com exposição verbal, a caracterização dos chefes vai depender dessa direção artística, trazendo cenários dinâmicos que contribuem para a construção da personalidade de cada um.
Um comeback de respeito para todos os seus .mp3
Embora conte com uma trilha sonora bacana e com algumas trilhas licenciadas dançantes e icônicas, como Maniac e Final Countdown, é fora da campanha principal que Dead as Disco realmente conquista de vez o jogador ao permitir o suporte para músicas personalizadas.
A possibilidade de importar arquivos externos contribui absurdamente para estender o fator replay do título, fazendo-o ir muito além de uma campanha linear dependente da trilha sonora própria. Completamente nativo e sem depender de mods externos, o sistema permite ajustar BPM, sincronizar trechos específicos das músicas e adaptar o ritmo dos combates às faixas escolhidas pelo jogador.
A graça é que, mesmo que ainda exista algum trabalho manual envolvido nesse processo, a base geral é bem simples de configurar, sendo que o sistema faz um bom trabalho na hora de alterar a dinâmica de cada desafio. Uma faixa mais intensa, como foi o caso do teste que conduzi com American Jesus, do Bad Religion, contribuiu para tornar o sistema mais agressivo e impulsivo, enquanto os dez minutos de Don’t Let Me Be Misunderstood (a versão do Santa Esmeralda) recompensaram a minha cadência.
Nesse aspecto, é muito bom que Dead as Disco tenha conseguido implementar um sistema para segurar as pontas enquanto o conteúdo nativo, embora muito atrativo por si só, segue incompleto. É um tapa-buraco que abre margem para um leque considerável de possibilidades — especialmente por permitir também a personalização de uma lista de tarefas secundárias a serem cumpridas, como derrotar um número determinado de inimigos.
Além disso, se me for permitido o comentário particular, o título trouxe uma nova funcionalidade para a minha gigantesca pasta de arquivos mp3 cujo hábito de catalogar eu me recusei a largar em detrimento dos serviços de streaming.
Menos um álbum completo, mais um extended play
Apesar do recurso de importação de músicas, o fato de o jogo estar em acesso antecipado é algo a se considerar. A variedade de inimigos comuns é limitada, alguns dos sistemas poderiam ser melhor explicados e a campanha disponível atualmente pode ser concluída relativamente rápido dependendo do perfil do jogador. Também existe espaço para ajustes de balanceamento, precisão e otimização, sem falar da localização para português brasileiro que precisa de uma revisão sincera, e preferencialmente feita por humanos, se entende onde quero chegar.
Mesmo assim, o jogo já demonstra uma identidade bastante clara no estado atual, mesmo que corresponda apenas a uma fração da experiência completa, prevista só para o ano que vem, segundo o roadmap divulgado. É uma mistura de beat ‘em up com rhythm game muito interessante em que a música faz um excelente trabalho na hora de definir o ritmo da experiência sem tirar o jogador do epicentro da ação.
Ironicamente, a discoteca de Dead as Disco parece muito mais viva do que a nostalgia juvenil vendida por certos jogos por aí que se utilizam música licenciada do passado apenas como ferramenta estética ou referência superficial.
Revisão: Juliana Piombo dos Santos












