Dez anos atrás a FromSoftware lançava Dark Souls III, o último jogo da trilogia principal do universo Souls. O título tinha a dura tarefa de suceder Dark Souls II e superar Bloodborne, além de encerrar de forma satisfatória uma das sagas que provaria seu valor ao longo do tempo.
O game otimizou as características que definiram o subgênero souls/soulslike; RPG de ação/aventura com dificuldade acima da média onde morrer e tentar novamente faz parte da jornada e a resiliência é proporcionalmente recompensada.
Dark Souls III pode ser encarado como o ponto de maturidade do estúdio. A prova de que a FromSoftware havia aperfeiçoado sua própria fórmula antes de partir para algo maior, o que Elden Ring confirmou, conquistando o jogo do ano em 2022 pelo The Game Awards.
Idealização e desenvolvimento
Dark Souls III foi encomendado estrategicamente pelo então presidente da FromSoftware, Naotoshi Zin, em meados de 2013, nesse período o estúdio estava trabalhando simultaneamente em Dark Souls II e Bloodborne, ambos em etapas distintas de desenvolvimento. A ideia inicial era que a terceira entrada da série fosse um plano alternativo para garantir a saúde financeira do estúdio independentemente do desempenho de Bloodborne, que gerava preocupação por ser um título inédito e nichado desde sua concepção.A princípio, a sequência seria desenvolvida pelo mesmo time responsável por Dark Souls II, liderado pelos diretores Tomohiro Shibuya e Yui Tanimura, mas, já na etapa de idealização, o presidente do estúdio notou que o projeto não seguia uma direção criativa clara e já estava se tornando custoso e superficial demais, foi quando convidou Miyazaki ─ que estava focado em Bloodborne ─ para retornar à série principal, como diretor criativo.
Miyazaki, que já confessou não imaginar que Dark Souls seria um game com sequências diretas, viu em Dark Souls III uma oportunidade de criar um jogo de fantasia grandioso em todos os aspectos (lê-se Dark Souls definitivo), especialmente no que diz respeito às possibilidades de diferentes builds, com diversidade de estilos de combate, armas, armaduras, magias etc, isso somado ao potencial técnico dos consoles de nova geração.Por conta da proximidade do desenvolvimento, Miyazaki pôde experimentar em Dark Souls III recursos técnicos e mecânicas de gameplay usadas em Bloodborne, que eventualmente não seriam idealizadas e/ou otimizadas se não fosse pela nova IP, como, por exemplo, o novo motor gráfico, o ritmo de jogabilidade mais dinâmico, além das batalhas dos chefes com múltiplas fases.
Dark Souls II - de novo?
Sempre que indico Dark Souls para alguém, faço minhas considerações pessoais sobre cada título, porém reforço: em termos de narrativa, comece por onde você quiser, não faz diferença. Bem, isso não é inteiramente verdade, confesso, existe sim uma certa cronologia na história da trilogia, mas do ponto de vista da experiência de jogo e na forma que Dark Souls escolhe contar sua história (através de descrições de itens, diálogos, design de personagens, ambientação etc), não é relevante por onde começar, o impacto de ligar os pontos e entender as conexões dos games é sentido independentemente da ordem escolhida. Experimentar as produções de forma isolada também é uma opção viável na série, que surpreende até os jogadores mais imersos e detalhistas.Apesar dessa escolha criativa, as obras possuem conexões fortes, e Dark Souls III recompensa aqueles que jogaram os anteriores, seja como evidência de evolução da jogabilidade ou trazendo de volta locais conhecidos, armas, nomes e mais, especialmente do primeiro título. A conexão com o primeiro é tão evidente que, em certos aspectos, parece tentar tomar o lugar do segundo jogo, como uma sequência direta.
Dark Souls II é uma produção que se destaca de seu antecessor e sucessor, isso normalmente é atribuído ao fato de ser o único dos três que não foi dirigido diretamente por Miyazaki, que atuou apenas como supervisor e, nesse papel, ele encorajou o time responsável a experimentar novas abordagens. O resultado foi controverso; apesar de ser a maior nota da crítica especializada em toda série, é também a menor nota do público, sempre polarizando a base de fãs, há quem ame e há quem odeie, mas poucos são indiferentes.Como estamos falando do terceiro jogo, vou me limitar a dizer que Dark Souls II arrisca em diversos aspectos, é certamente uma aventura singular, você goste ou não, muitas vezes citado como a entrada da série com mais personalidade. Os pontos positivos são muito positivos e os negativos, muito negativos.
Dark Souls III conversa diretamente com a trama do primeiro, porém sem descartar completamente a história do segundo jogo, que funciona, afinal, como um apoio filosófico da história em geral; como o conceito da eterna maldição, do ciclo dos reinos que surgem e caem ─ repetindo os mesmos erros ─, e do colapso da realidade e inutilidade de prolongar o fogo. O argumento dos jogos se passarem com uma diferença substancial de tempo dentro do mesmo universo, ajudam a contar essas histórias com um pouco mais de liberdade criativa, tornando as (eventuais) conexões mais valiosas.
Qualquer semelhança não é mera coincidência - a lore
Em Dark Souls III, o jogador assume o controle de um Inaceso, um morto-vivo qualquer que já tentou reacender a Primeira Chama no passado, mas falhou e foi consumido por ela. De tempos em tempos, por conta de uma maldição, Inacesos são ressuscitados com o propósito de desafiar e derrotar os Lordes das Cinzas, heróis de outrora que conseguiram acender a Primeira Chama e foram designados a mantê-la acesa, contudo, abandonaram seus tronos para buscarem seus próprios interesses, deixando o mundo se aproximar de seu fim, a chamada Era da Escuridão.O extinguir da Primeira Chama sempre foi o curso natural do universo, no entanto, a fim de manterem seus poderes e reinados, os lordes buscaram formas questionáveis de mantê-la acesa por gerações, o que trouxe desgraça ao mundo que conheceram. Ao longo do tempo, sempre houveram heróis “escolhidos” destinados a apagar a Primeira Chama e encerrar a Era do Fogo, entretanto, todos sucumbiram e perpetuaram a prática.
Para quem conhece o primeiro jogo, fica evidente que a narrativa do terceiro game é extremamente parecida com o primeiro ─ em essência, é a mesma! ─, porém o contexto histórico no qual Dark Souls III se passa, entrega uma jornada familiar e, ainda assim, inédita, em especial quando avaliamos a sua ambientação melancólica e trágica.
Essa melancolia não é apenas atmosférica, ela está em cada canto do jogo. Até os mapas mais bonitos de Dark Souls III funcionam como restos de um mundo que não existe mais — Lothric, o reino que serve de cenário principal, é um lugar que claramente já teve sua glória, mas insiste em existir além do que deveria. Um bom exemplo disso é Anor Londo (imagem acima), que no primeiro jogo evoca a glória dos deuses com uma arquitetura impecável, já no terceiro é um lugar arruinado e sem vida. Os próprios Lordes das Cinzas refletem isso; são figuras trágicas, cada uma com sua própria razão para ter abandonado o trono, e enfrentá-los carrega um peso diferente de qualquer outro título da franquia. Aldrich, que consumiu os deuses. Yhorm, que carrega sua própria maldição em silêncio. Não é difícil entender porque eles falharam, e é exatamente isso que torna o jogo perturbador de uma forma que o primeiro nunca foi.O mesmo acontece com os NPC’s e seus diálogos, que não transmitem entusiasmo pelo seu papel naquele universo, enquanto no primeiro você é tido como resposta de uma profecia, no segundo você é mais um, junto com tantos outros que não obtiveram sucesso na mesma jornada. Esses elementos refletem o peso de um mundo em ruínas que espera seu fatídico fim, sem esperança de que alguém seria capaz de acabar com esse ciclo eterno.Em Dark Souls III você é um morto-vivo que já falhou, conforme você avança, cresce a sensação de que o fim está próximo e, que o fim, não será glorioso. É o perfeito reflexo do que o público pode sentir com o final da saga, ainda que exista êxito na jornada, tudo acaba, seja perpetuando o fogo ou deixando o mundo ─ finalmente ─ acabar.Lançamento e recepção
Dark Souls III foi lançado em 24 de março de 2016 no Japão e 12 de abril globalmente, para PlayStation 4, Xbox One e PC. O jogo contou com uma campanha de marketing maior que seus antecessores e foi recebido com expectativa pela base de fãs da franquia e jogadores que a conheceram através de Bloodborne, lançado no ano anterior. A obra vendeu cerca de três milhões de cópias no primeiro mês em todas as plataformas e, apesar de não ser divulgado o número exato, a Bandai Namco anunciou que o jogo bateu recorde de vendas da publicadora nos Estados Unidos.Alguns dias após o lançamento global, a FromSoftware revelou que o jogo receberia posteriormente duas expansões; Ashes of Ariandel e The Ringed City, lançadas em outubro de 2016 e janeiro de 2017, respectivamente. Em abril de 2017 foi lançado Dark Souls III: The Fire Fades Edition (como edição comemorativa de jogo do ano) que inclui o jogo base e as duas expansões.
A produção teve recepção majoritariamente positiva, alcançando nota 89/100 no Metacritic e é muitas vezes apontado como o melhor da trilogia, aclamado pela grande variedade de conteúdo, combate fluído, personagens memoráveis etc. As críticas geralmente são direcionadas ao material reutilizado dos anteriores, a campanha linear ─ quando comparado a seus predecessores ─ e excesso de fanservice, em alguns casos, superficial.Durante o desenvolvimento de Dark Souls III, Miyazaki se tornou presidente da FromSoftware, em um movimento inédito e tempo recorde para o mercado corporativo japonês. O jogo começou como um plano B estritamente comercial e chegou ao fim como uma obra concebida por alguém que havia acabado de ganhar a liberdade de fazê-la do jeito que queria, e dá pra sentir isso jogando.
Para muitos, Dark Souls III pode não ser o melhor da trilogia, nem o mais inovador, mas é o mais consciente de seu papel. Um jogo que mostra que está encerrando algo, que carrega esse peso em cada área, cada diálogo, cada chefe. Dez anos depois, ainda se apresenta como um fim épico de uma das mais relevantes sagas do gênero.Dark Souls III está disponível para PlayStation 4, Xbox Series e PC (via Steam).
Revisão: Thomaz Farias












