Análise: Wax Heads — uma loja de discos que contém muito mais do que música

Ajude clientes a escolher um álbum entre novos lançamentos e produtos com desconto, enquanto é chefiado por uma lenda escondida do rock.

em 15/05/2026
A música deixou de ser apenas uma forma de expressão artística e pode ser considerada uma ferramenta de conexão social e emocional. Não importa se você gosta de rock, sertanejo, samba ou rap, é fato de que sempre haverá aquela canção que vai te servir como moradia e esquentará seu peito, como se fosse um abraço, te transportando para um momento, lugar ou até ao lado de alguém especial.

Wax Heads foi desenvolvido pela Patattie Games, com a intenção de ser uma mistura de cozy game e simulador de gerenciamento de uma loja de discos que não está tão bem financeiramente. Entretanto, o jogo entrega uma forte experiência emocional que consegue atingir cada jogador de uma forma particular.

“Ainda posso te ouvir dizendo que nunca quebraria a corrente”

Becoming Violet era uma das sensações dos anos 1980, formada pelas irmãs Morgan e Willow MacIntyre, James Grenth (namorado da Morgan) e Pat Brennan. Claro que, como todo grupo musical daquela faixa temporal, o sucesso deu lugar a desentendimentos, brigas e seu lastimável fim, após James largar Morgan e ficar com Willow, que era a melhor compositora.

Após o fim da Becoming Violet, Morgan sumiu da mídia e criou seu refúgio na loja de discos que abriu, a Repeater Records. Nosso avatar, chamado por todos de “jovem” é o novo funcionário do local e deve recomendar álbuns para os clientes, com base no que eles pedem, ou pelo menos tentam. Alguns irão direto ao ponto, pedindo o trabalho mais recente de uma diva pop, outros tentarão puxar pela memória como era a capa, ou o nome de algum integrante. 

A narrativa é dividida em cinco “lados”, cada uma com quatro faixas, representando a maneira como são chamados as faces e canções dos discos de vinil. A cada dia que abrimos e fechamos a loja, conhecemos mais um trecho da história da dona da loja, seus funcionários e todo o caos e drama que envolveu a ruptura da Becoming Violet, incluindo o fato de Morgan e Willow não se falarem por décadas.

O que torna o enredo a parte mais poderosa de Wax Heads é que, ao atender os clientes, várias outras tramas menores vão se desenrolando, como uma garota que achou outra bonita e comprou o mesmo disco da camisa dela para impressioná-la, ou o senhor de idade que perdeu o marido e ao tentar lembrar de um disco que lembra-se do seu amado, acabou fazendo amizade com uma moça que estava com a mesma missão: se consolar da perda do pai ao comprar um dos primeiros álbuns da banda favorita dele, que antes ela detestava mas agora vê como uma das lembranças mais tenras que ficaram.

A música tem essa força e é impossível não se conectar a qualquer uma dessas linhas. Me dando a licença de sair da parte crítica e citar uma experiência pessoal: todo meu conhecimento de rock veio da minha mãe, Eliana, e seus irmãos, Beto e Alexandre: ela me mostrou os clássicos, como Led Zeppelin e Bob Dylan; o tio Alê me apresentou ao Heavy Metal, do qual adotei bandas como Metallica, Judas Priest e Iron Maiden; o Beto foi o responsável por Pink Floyd, Deep Purple e outros nomes pesados do hard rock e progressivo. 

Hoje, infelizmente não tenho mais o tio Beto ao meu lado, então é inevitável não me emocionar ao instintivamente ouvir Comfortably Numb do Pink Floyd, ou Time do Alan Parsons Project. A sensação é de ter ele ao meu lado e acredito que, independente do gênero favorito ou a mídia preferida para consumir música (CD, vinil, streaming e afins), todo mundo sem exceção tem uma banda ou artista que cause esse efeito.

Bom, o que quis dizer com isso é que, alguns dos personagens secundários vão chamar sua atenção, seja pelo peso de uma memória, ou comicidade das suas motivações, como comprar a maior pechincha da vitrine ou o que for mais barulhento. Sempre haverá um motivo para ler todas as linhas de diálogo possíveis, e isso é um mérito que não é para muitos.

“Um de nós”

O “jovem” que nós personificamos parece ser uma pessoa mais calma e na sua, dando respostas curtas e até um pouco ácidas. Ele acaba criando laços com os demais funcionários da Repeater Records graças a sua grande habilidade de indicar discos e resolver problemas. É aí que nossa perspicácia de detetive é posta à prova, mas de maneira bem tranquila.

Há dois níveis de “dificuldade”: Sem Reembolso, no qual só podemos dar uma indicação e o comprador é obrigado a ficar com o produto que indicamos; e O Cliente tem Sempre Razão; na qual ele vai demonstrar insatisfação se errarmos o pedido e nos dará infinitas chances até acertar o que ele quer.

A loja é composta por várias salas, cada uma com sua porção de produtos expostos. Podemos checar o encarte dos álbuns, o que a mídia especializada falou dele em seu lançamento e até o vinil de fato. Nessa hora conseguimos algumas dicas importantes, como o fato de ser uma edição rara e especial, ou se algum crítico específico deu seus “dois dedões para cima” em sinal de aprovação.

Como expliquei acima, o foco é a narrativa em si, logo a jogabilidade pode acabar se tornando um pouco repetitiva do meio para o final do game. Essa sensação é quebrada por momentos pontuais, nos quais temos alguns quebra-cabeças para resolver, como montar pôsteres para bandas locais e organizar os itens de colecionador de uma encomenda dentro da caixa, sem deixar um sobrepôr o outro.

Além disso, vez ou outra aparecerão membros de um grupo seleto de colecionadores, identificados por um broche escrito “Wax Pack”. Eles sempre farão perguntas enigmáticas e seus pedidos contém códigos, que se descobertos e passados corretamente, nos revelam surpresas em uma sala escondida no fundo da loja.

A única falha que identifiquei nesse aspecto é a de não permitir voltar a um lado ou faixa específica para tentar refazer um desses enigmas. Se errarmos e não dermos um reload antes do próximo cliente, já era. Só será possível tentar de novo recomeçando tudo do início. Seria uma boa se essa opção ficasse disponível pelo menos após a conclusão da história.

“Apenas uma garota”

Já é marca registrada cozy games investirem em visuais leves e coloridos, para transmitir mais tranquilidade do que urgência e construir um conjunto harmonioso com a jogabilidade. Wax Heads também excede as expectativas nesse quesito, ao ponto que a loja é um personagem tão importante quanto os clientes, os funcionários e até mesmo o “jovem”.

Temos a disposição um celular, no qual podemos conferir o Phonegram, a rede social na qual os clientes da loja postam suas opiniões sobre o que está na moda e até sobre algum cantor ou diva em evidência, além de textos de críticos do universo do jogo, contando o porque tal disco é bom ou ruim, o que nos leva a ficar atento para o que os consumidores irão pedir.

Por falar nos discos, eles trazem um misto visual de originalidade e referências à artistas icônicos e bandas lendárias. Sem contar que as histórias que descobrimos sobre elas também nos levam a pensar “onde que já vi isso mesmo? ah é…” Agora, quanto às músicas, elas são totalmente autorais e com a assinatura genial de Gina Loughlin. Desde os sucessos oitentistas da Becoming Violet, passando pela porradaria metal do Jarhead e chegando aos holofotes da diva pop Mimi, ela consegue dar personalidade única a cada grupo ficcional de Wax Heads.

À medida que progredimos, podemos desbloquear novas músicas para a jukebox da loja, só que ela fica restrita apenas ao jogo, algo que eu considero uma mancada aqui. Com uma trilha sonora original tão diversa e criativa, sem exagero nenhum, seria bacana que essa jukebox ficasse acessível livremente no menu, nem que fosse após concluir toda a história pelo menos uma vez.

Para quem ficou curioso, deixarei abaixo a playlist com a trilha sonora completa de Wax Heads no YouTube, que está na página de Gina. Também é possível encontrá-la em outras redes sociais, como Bluesky e Band Camp. Confira:

"Bom demais!"

Wax Heads leva o conceito de ser acolhedor com maestria, utilizando uma narrativa leve e jogabilidade simples para criar elementos de conexão que alcançam qualquer tipo de pessoa de maneira bastante particular. É impossível não se sentir tocado, seja pela narrativa das irmãs MacIntyre ou pela experiência particular de cada cliente, do mais engraçado até o mais emocional.

(Esse texto é dedicado à memória de Carlos Alberto Rescigno, meu tio Beto.)

Prós

  • O enredo principal conta a ascensão, queda e resolução de uma banda, usando de maneira criativa a loja de discos como pano de fundo;
  • Os personagens secundários e clientes desenvolvem subtramas menores, mas igualmente interessantes;
  • É divertido ficar fuçando os diferente tipos de discos e conhecer seus singles;
  • Excelente trabalho de Gina Loughlin na trilha sonora.

Contras

  • Seria bom ter uma seleção de capítulos para revisitar puzzles específicos após finalizar o jogo;
  • A jukebox também merecia ser desbloqueada no menu principal após a conclusão.
Wax Heads — PC/PS5/Switch/XSX — Nota: 9.0
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Ives Boitano
Análise feita com cópia digital cedida pela Curve Games
OpenCritic
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Carlos França Jr.
é amante de joguinhos de luta, corrida, plataforma e "navinha". Também não resiste se pintar um indie de gosto duvidoso ou proposta estranha. Pode ser encontrado falando groselhas no @carlos_duskman
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