Análise: Strange Antiquities tem ótimos puzzles de pesquisa e objetos arcanos para dar e vender

Algo sinistro está acontecendo em Undermere e muitos clientes batem à porta da nossa loja de artigos sobrenaturais.

em 18/05/2026

Mesmo que o século XIX tenha visto uma crescente de racionalismo científico no Ocidente, também foi perceptível um movimento contrário na busca por transcendentalidade mística, especialmente manifestado no orientalismo, religiões e no gosto pelo exótico e o antigo.

Strange Antiquities parte desse imaginário criativo para entregar uma experiência de enigmas investigativos, no qual entramos na pele de um atendente em uma loja de artigos sobrenaturais.



Preâmbulo

Antes de iniciarmos o jogo, permitam-me algumas indicações de leitura. O tema de antiquários entusiastas encontrando objetos sinistros em ambientação vitoriana me faz pensar na obra do autor de histórias de fantasma M. R. James, especialmente contos como “Assovie que virei” e “O álbum de recortes do cônego Alberic”, ambos de 1904.

Outro conto marcante dessa época é “A pata do macaco” (W. W. Jacobs, 1902) e, no assunto da loja ocultista, logo pensei em “O Bureau d’Exchange de Maux” (1916), de Lord Dunsany. Em um formato mais recente, o mangá xxxHolic (CLAMP, 2003) casa muito bem com o contexto de Strange Antiquities. Recomendo a leitura de todos esses.



Aprendiz de taumaturgo

Neste game, somos apenas o atendente anônimo da Strange Antiquities, o que faz de nós meros aprendizes das forças que regem o mundo por trás do véu. Mesmo assim, quando o chefe precisa viajar, a responsabilidade é nossa.

Felizmente, os habitantes da cidade de Undermere parecem bem familiarizados com certos artefatos arcanos e é comum que já cheguem até nós sabendo do que precisam. Pode ser algo para iluminar caminhos escuros, um amuleto para se proteger dos estranhos acontecimentos que vêm se abatendo sobre a região ou até um recipiente para guardar o sono e ficar acordado direto por uma semana enquanto se pesquisa algo importante. Nosso trabalho é identificar qual dos muitos itens do estoque atende ao pedido.



Como fazemos isso, você pergunta? Como bons pesquisadores de livros, é claro. Podemos consultar os volumes à disposição e, normalmente, a investigação começa procurando pelo nome do pedido no glossário. A descrição costuma ser esclarecedora, permitindo-nos analisar os objetos da loja em detalhes, como materiais usados, formatos, cores e até o peso, para o qual usamos uma balança.

É preciso olhar atento às ilustrações do livro para comparar com o que temos à mão e, com o tempo, as coisas ficam mais complexas, com dicas que envolvem significados de pedras preciosas, sinais místicos e conceitos esotéricos — existem livros para esses também. Há até alguns complicados mecanismos secretos no balcão para conferirmos certas qualidades mágicas dos artigos.



Tudo isso acontece sem pressa ou limite de tempo, atendendo a um cliente por vez. Quando temos confiança de que encontramos o item correto, nós o entregamos. Se estivermos errados, perdemos pontos em um medidor que, quando fica no vermelho, nos leva a um minigame de dados, apenas para podermos voltar e tentar acertar a venda.

Isto é, Strange Antiquities não consegue tirar de quem joga a opção de recorrer a alguma medida de tentativa e erro, mas não incorre no demérito de nos induzir a isso.

Alguns enigmas do terço final acabam sendo mais obscuros e requerendo revisar as muitas informações disponíveis. A complexidade crescente não é constante, porém, pois para vários deles eu sabia de imediato qual item deveria dar.



Houve vezes, no entanto, que eu nem mesmo tinha o item necessário, o que exigia solucionar algumas charadas que havia deixado para trás e me levou a usar o sistema de dicas — felizmente, ele não entrega nada de cara e apenas dá direcionamento à busca.

Nenhum puzzle em Strange Antiquities é opcional, e a maioria deles é apresentado em sequência, o que faz com que nossas pesquisas sejam muito reativas, respondendo apenas ao que é pedido, dando pouco espaço para iniciativa de quem joga que não seja etiquetar os itens com uma miríade de símbolos.



Uma vida atrás do balcão

Outras mecânicas ajudam a dar uma variada: recebemos pistas sobre novos itens pela cidade e precisamos deduzir o local correto de cada um. Isso ocorre por meio de mapas, o que também envolve raciocínio e observação, mas com uma sensação diferente e recompensadora, descrevendo os desdobramentos do passeio em prosa.

Mesmo assim, esse sistema que, em teoria, nos permite sair um pouco do confinamento da loja não nos dá mais do que pequenos desenhos e um pouco de texto. Como eu gostei dessas partes, preferiria que houvesse mais delas também para a história central, com mais narração e ilustrações para representar Undermere e seus recantos, algo que nos ajudasse a apreender e aprofundar a atmosfera do todo que existe além das paredes da Strange Antiquities.



Penso algo semelhante sobre os personagens: não reclamo da simplicidade de alguns deles, porém sinto que poderiam ser menos prosaicos e ter expressões que demarcariam melhor suas personalidades, pois a maioria parece fazer uma “cara de nada” que os torna menos interessantes do que poderiam ser.

Mesmo que a elevada quantidade de erros gramaticais de gênero seja uma distração desagradável, as falas dos personagens são breves e vão direto ao ponto, construindo o mistério do que se passa na cidade aos poucos ao mesmo tempo que falam de seus pedidos. Dessa maneira, a narrativa se mantém sempre próxima às mecânicas de dedução, sem sentir a necessidade de separar os momentos de trama e os de gameplay. Isso resulta em uma experiência que, apesar da clausura, é leve, agradável e coesa.



Quem quer um talismã sinistro?

Strange Antiquities nos coloca do lado de trás do balcão da loja, pesquisando, descobrindo, identificando e vendendo artigos místicos em uma engenhosa e agradável experiência de puzzles. Sem pressa, podemos consultar os diversos recursos à mão, envoltos na atmosfera de um mistério central, o que faz da experiência especialmente ideal para quem gosta de enigmas e ficção de ocultismo.

Prós

  • A investigação baseada em pesquisa, atenção e raciocínio é leve, divertida e dá satisfação;
  • A trama misteriosa de fundo provê uma atmosfera intrigante;
  • O sistema de dicas oferece ajuda gradual para não ficar travado em um puzzle;
  • Traduzido para português brasileiro.

Contras

  • Apesar das boas ideias para mascarar a sensação de confinamento na loja, não há como evitá-la;
  • Alguns enigmas mais obscuros podem levar a longas pesquisas a esmo;
  • A frequência de erros textuais de gênero é uma distração indesejada.
Strange Antiquities — PC/PS5/PS4/XSX/Switch — Nota: 8.5
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Alessandra Ribeiro
Análise produzida com cópia digital cedida pela Iceberg Interactive
OpenCritic
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Victor Vitório
Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies. Veja minhas análises no OpenCritic.
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