Anime em mundo aberto
Neverness to Everness (NTE) é ambientado na cidade fictícia de Hethereau, que é essencialmente a representação de uma metrópole asiática — seja pelas lojinhas, decorações, becos ou prédios com design característico. A produção traz escolhas estéticas claramente inspiradas pela famosa série Persona e o cenário está longe de ser apenas um pano de fundo; o objetivo do estúdio era criar uma ambientação de anime viva, conseguindo equilibrar com maestria o real e o bizarro. Isso se manifesta de forma visual ao interagirmos com as anomalias (que falaremos mais adiante): o ambiente reage com fenômenos estranhos, mudanças repentinas no clima e distorções no cenário.
A cidade incentiva a exploração constante. Além de correr pelas ruas, podemos escalar prédios, fazer parkour sobre eles ou utilizar veículos para se deslocar para uma missão mais longe ou só dar uma volta por aí. Há, ainda, ambientes internos e externos muito bem elaborados, com atividades voltadas para a interação social, como cafés e cinemas, além das tradicionais lojinhas de consumíveis e cosméticos — elementos clássicos de RPGs e Gachas.
Porém o que realmente diferencia o mundo de NTE é a fluidez entre a exploração urbana e os eventos sobrenaturais. A transição para situações inesperadas, como portais para dimensões paralelas, é orgânica. Essa imprevisibilidade, somada ao uso de mecânicas únicas — como quebra-cabeças que exigem alternar entre diferentes períodos de tempo —, garantem que o mapa seja uma peça fundamental da narrativa, mantendo o jogador totalmente imerso no cenário.
Enredo interessante mas arrastado
A narrativa nos coloca no papel de Zero — que pode ser homem ou mulher —, cuja chegada à cidade de Hethereau coincide com o despertar de uma anomalia gigantesca. A jornada começa com uma animação impactante, cheia de ação e mistério, estabelecendo rapidamente o tom do jogo. Somos introduzidos também à SKIA, um grupo de elite pertencente ao Bureau of Anomaly Control (BAC), organização responsável por conter essas ameaças sobrenaturais. Como novo integrante desse time de Appraisers (indivíduos com habilidades especiais), nosso objetivo principal é investigar as anomalias e entender a origem dos eventos que devastaram parte da cidade.
A estrutura narrativa adota um formato interessante de investigação: enquanto avançamos na campanha principal, resolvemos pequenos casos isolados de anomalias espalhados pela cidade. Essas missões funcionam como arcos menores que servem para introduzir novos personagens e apresentar elementos que compõem a ambientação. Na prática, é como se o jogo fosse um grande manhwa ou mangá, dividindo-se em episódios para permitir que o jogador se conecte gradualmente com o elenco enquanto desvenda o mistério central de Hethereau.
Contudo, cabe aqui um ponto de atenção. Mesmo que o começo frenético instigue o jogador, o desenrolar da história é marcado por diálogos densos e longas cenas de animação. Em muitos momentos, esse excesso faz com que certas missões pareçam episódios "filler" de um anime, o que pode causar cansaço, já que o prólogo estabelece um tom de urgência que nem sempre se mantém.
Além disso, a falta de localização para o nosso idioma prejudica a experiência, dada a enorme quantidade de textos e documentos fundamentais para a imersão. Mesmo para quem domina outra língua, o esforço extra de leitura, somado ao ritmo arrastado (o que é irônico considerando o tamanho desta análise), pode ser um fator decisivo para o abandono do título — especialmente considerando a forte concorrência de jogos Gacha já consagrados no mercado.
Gacha de cabo a rabo
No quesito combate, Neverness to Everness segue a cartilha do gênero Gacha de A a Z, apresentando um RPG de ação muito próximo de um Hack n’ Slash. O sistema se concentra em um time de até quatro integrantes, onde controlamos um personagem por vez enquanto os demais aguardam em tempo de recarga.
O grande diferencial aqui é a fluidez com que cada troca acontece: ao alternar de herói durante um combo, o ataque não é interrompido; ambos permanecem na tela durante alguns instantes para finalizar a sequência juntos, o que abre um leque imenso de possibilidades para combinações. Cada personagem possui estilos de luta únicos — variando entre armas de fogo, lâminas, combate corpo a corpo, magias e habilidades sobrenaturais —, além de contarem com habilidades passivas e um golpe "Ultimate" com animações incríveis, carregado através de ataques básicos e esquivas.
Com um sistema de sinergia de elementos e funções específicas, o combate exige que o jogador equilibre o suporte com o dano concentrado ou em área, considerando as fraquezas dos inimigos na hora da montagem da equipe. Embora essa configuração seja intuitiva em sua base, ela permite um aprofundamento considerável para quem deseja otimizar o desempenho. Já fora dos confrontos, a jogabilidade se amplia para a exploração vertical de Hethereau; o uso de parkour para escalar prédios em busca de colecionáveis, somado às missões secundárias, complementa o ciclo de jogo e garante que sempre haja atividade entre os capítulos da campanha principal.
A progressão, assim como o combate, também segue a cartilha do gênero trabalhando com sistema níveis, mas brilha e se destaca nos detalhes de customização. Além do aumento natural de atributos e da árvore de habilidades, o jogo introduz o sistema de "console", um dos mecanismos mais criativos do título. Há um sistema que funciona como o clássico jogo Tetris, o jogador deve encaixar peças de diferentes formatos que conferem bônus de status.
Essa camada a mais na construção dos personagens, transforma o simples escolher um personagem em um “algo a mais”, exigindo atenção e organização para conseguir tirar o máximo de poder dos itens. Esse cuidado torna a evolução dos personagens algo satisfatório e recompensa o tempo investido pelo jogador.
O “GTA de anime”
Para o jogo que ficou conhecido como o “GTA de anime”, as atividades secundárias certamente importam tanto quanto a campanha principal e a beleza da ambientação. Um dos elementos que mais chamou a atenção na revelação do título foi o uso de veículos: motos e carros são o centro de atividades que incluem desde corridas até missões de entrega.
Eles podem ser encontrados nos mais diversos modelos, estando à disposição para compra ou para serem 'solicitados' aos seus donos na rua. O detalhe curioso é que a solicitação pode ser recusada caso o dono alegue ter, por exemplo, “uma reunião importante na qual não pode se atrasar” — uma alternativa inteligente e bem-humorada para a mecânica de "roubo" de GTA, já que em NTE somos, de certa forma, agentes da lei e claro o fato de ser um público mais jovem.
O game também possui um grande foco no aspecto social. É possível interagir com os membros do seu grupo para fortalecer laços, participando de atividades de lazer como idas ao cinema, visitas a cafés ou simplesmente dando uma volta pela cidade. Essas interações dão vida ao elenco e tornam a experiência mais pessoal.
A criatividade se estende ao design das missões: em certas áreas, encontramos quebra-cabeças que exigem que o grupo se separe em duplas, operando entre passado e presente, forçando uma troca constante para progredir. Essa inventividade também está presente nos eventos aleatórios que ocorrem naturalmente enquanto exploramos Hethereau: uma inocente volta de motoneta pode se transformar em um encontro inesperado com inimigos ou em uma viagem súbita para áreas distorcidas por anomalias.
Em termos gráficos, Neverness to Everness é fortemente inspirado em animes e tem escolhas estéticas tanto no letramento e elementos artísticos quanto no visual dos personagens que fica impossível não perceber a influência da série Persona e manhwas atuais, o que garante personalidade. O cuidado artístico aparece em todos os aspectos, desde a arquitetura da cidade e seus becos detalhados até o design dos inimigos e o elenco de personagens. Tudo possui uma identidade visual bem definida, com cores vibrantes e uma direção de arte que reforça a sensação de estarmos jogando uma animação de alto nível.
Mas, assim como quase todo game desenvolvido na Unreal Engine 5, o jogo enfrenta problemas de stuttering (pequenas travadas toda vez que algo aparece na tela pela primeira vez), ghosting (quando, devido ao upscaling, há uma sombra no movimento do personagem e de objetos) e pequenos atrasos na exibição de botões de ação (pressionar o botão de entrar no carro não aparece na distância correta, por exemplo, precisando que o jogador fique movendo a câmera para achar o ponto correto).
A trilha sonora, por sua vez, é diretamente inspirada nas trilhas de animes atuais. Embora as composições não sejam tão marcantes, elas são competentes em preencher o ambiente. A música cumpre um papel fundamental no jogo ditando o ritmo da imersão, seja acelerando enquanto você dirige pela cidade ou ficando tensa em confrontos contra chefes.
A combinação entre a direção de arte marcante e a trilha sonora competente é o que dá o "tempero" final ao mundo de NTE. Hethereau consegue ter alma própria, com muitas atividades diferentes em cada esquina que contribuem para uma experiência envolvente. Tudo isso junto, transforma o título em algo mais do que apenas mais um Gacha no mercado, consolidando-o como uma experiência imersiva e visualmente única dentro do universo dos jogos de mundo aberto.
Equilibrado como tudo deve ser
Em resumo, Neverness to Everness se apresenta como um projeto ambicioso que entende perfeitamente o espírito do seu tempo. Além de replicar fórmulas bem-sucedidas do gênero Gacha ou do mundo aberto "sandbox", consegue aplicar isso em uma estética que hoje é o pilar central da cultura pop jovem. Hethereau é um palco vibrante que, apesar dos desafios técnicos comuns à Unreal Engine 5 e de um ritmo narrativo que exige paciência, entrega uma experiência de imersão raramente vista em títulos gratuitos.
Acredito que este jogo tem o potencial de ser, para a geração atual — guardadas as devidas proporções —, o que GTA San Andreas foi para a minha. Existe hoje uma mudança cultural clara: enquanto na minha juventude o consumo de animes, mangás e manhwas era muitas vezes motivo de piada ou algo restrito a nichos, hoje esses elementos são consumidos de forma natural e massiva.
NTE abraça essa realidade, oferecendo uma metrópole onde a liberdade de um "GTA" se encontra com o visual que define os jovens de hoje. Se o estúdio conseguir refinar o polimento técnico (e a localização para nós, brasileiros) e conseguir equilibrar os elementos de Gacha para não se tornar Pay-to Win, estaremos diante de um título que se tornará a principal referência de mundo aberto para uma nova leva de jogadores.
Prós:
- Hethereau equilibra o ambiente urbano com elementos sobrenaturais criando uma ambientação imersiva;
- O sistema de combate com troca de personagens sem interrupção consegue entregar uma fluidez digna de um Hack n’ Slash;
- NTE aplica com perfeição a estética de animes e manhwas, ao gênero mundo aberto;
- A exploração, condução de veículos, interações sociais e a imensidão de atividades conseguem envolver o jogador sem a sensação de repetição.
Contras:
- O excesso de longos trechos de diálogo podem tornar a experiência arrastada;
- Stuttering, ghosting e falhas na detecção de comandos prejudicam a experiência;
- A falta de localização para o português cansa e prejudica a imersão em um jogo rico em textos e documentos.
Neverness to Everness — PC/PS5/Android/iOS/Mac — Nota: 8.5Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Thomaz Farias



