Análise: Motorslice entrega combate dinâmico e parkour intenso em um mundo pós-apocalíptico brutalista

Esse jogo brasileiro consegue surpreender com suas sequências de parkour e batalhas épicas contra chefes colossais.

em 22/05/2026
Jogos de plataforma que resgatem a sensação de títulos como Mirror's Edge e Prince of Persia são um pouco raros atualmente. Mas ainda são lançados, e um deles é Motorslice. O título foi desenvolvido pela desenvolvedora brasileira Regular Studios. O game surpreende com seus trechos ágeis de parkour, ambientação brutalista e confrontos épicos contra chefes gigantes.

Era para ser um trabalho fácil 

Motorslice nos ambienta em um mundo pós-apocalíptico, em que máquinas chamadas de Motores foram infestadas com algum vírus, tornando-se ameaças para a humanidade. Nessa situação, entra a protagonista, uma jovem chamada apenas de P, que atua como uma Slicer, uma espécie de mercenário.

Ela acaba aceitando um trabalho de destruir todas as ameaças metálicas de uma cidade antiga abandonada, mas a tarefa se revela mais desafiadora do que o esperado quando o local apresenta uma quantidade incomum de Motores anciãs, seres colossais como caminhões, trens e helicópteros.

A Slicer não se aventurará sozinha; ela conta com um drone chamado Orbe para auxiliá-la durante essa jornada e servir de companhia. A trama lembra bastante obras como Nier: Automata, principalmente pela história estar fragmentada e ser apresentada ao jogador gradualmente nos momentos conhecidos como “vagabundagem”, que são intervalos em que ela descansa.


Nessas horas de intervalo, ela mostra mais da sua personalidade, pensamentos e desenvolve sua relação com Orbe. Durante eles, o drone pode responder às indagações feitas pela heroína; entretanto, só estão disponíveis duas opções de respostas, e elas, na maioria das vezes, são cafonas, não desenvolvendo bem a relação entre os dois, ou parecem que foram feitas com uma mentalidade voltada para um simulador de namoro.

Achei essa escolha questionável, pois são somente nesses momentos de descanso que migalhas de informação desse universo são apresentadas. Então seria mais interessante ver diálogos mais interessantes que realmente aprofundassem a amizade entre a Slicer e o robô e dessem mais detalhes desse universo pós-apocalítico do que ver uma esfera metálica jogando charme na protagonista.


Mesmo assim, fiquei surpreso com a narrativa, a ponto de, com o passar do tempo, ir me apegando à P e sua jornada. Fiquei curioso para saber mais sobre o universo apresentado. Para sanar essas respostas, senti falta de alguns colecionáveis contando um pouco mais sobre a história.

Entre parkours frenéticos e combates violentos 

Motorslice é uma obra de ação e aventura com sequências de parkour. Como características do gênero, podemos dividir sua jogabilidade em duas partes: os combates frenéticos contra os inimigos e os percursos cheios de obstáculos que exigem reflexos afiados para serem superados. 


Os embates contra os Motores são rápidos e brutais; eles são destruídos com praticamente um único ataque da motosserra, porém o mesmo vale para a heroína, que, com apenas um golpe, perece. Além disso, P também é capaz de refletir alguns ataques à distância e dar parry em ofensivas físicas.

Mas essa fragilidade pode ser contornada coletando drones que ficam espalhados pelas fases. Ao serem coletados, eles funcionam como um escudo, impedindo um ataque fatal. Porém, embora úteis, os próprios inimigos se demonstram incapazes de conseguir proporcionar um desafio que faça valer a pena ficar coletando tais objetos.


As máquinas comuns atacam de forma muito previsível ou lenta. Essa questão conflita com a proposta de um combate em que praticamente qualquer golpe é fatal. Caso houvesse uma opção de dificuldade, talvez ajudasse, ou simplesmente um conjunto de movimentos melhores.

No entanto, os já comentados Motores anciãos foram uma grande surpresa. Além de fazerem jus à alcunha de colossais, suas lutas me lembraram muito Shadow of Colossus, em que o objetivo não é fazer uma disputa de força com o chefe, mas sim achar uma forma de escalar a criatura e atacar diretamente seus pontos fracos. Isso faz com que cada batalha seja única e igualmente requeira estratégias únicas para serem derrotadas.


Os trechos de parkour são frenéticos, lembrando títulos como Prince of Persia e Mirror's Edge, apostando em corridas nas paredes, seguidas de muitos saltos precisos e armadilhas mortais para desviar. Criando, assim, algumas das passagens mais desafiadoras da obra e nas quais eu mais faleci, mas também as que mais achei divertidas.

O diferencial do título para as sequências de plataforma é a presença do motorslice, que são trechos nos quais P utiliza sua motosserra para cortar paredes tanto na horizontal quanto na vertical, que são marcadas pela sua coloração laranja. Criando instantes que passam uma sensação de alta velocidade e que são divertidos.

Um mundo devastado, feito de concreto

A ambientação de Motorslice é outro destaque que me surpreendeu. Temos uma arquitetura brutalista como inspiração. Ou seja, muito concreto em todo o lugar, com prédios imensos, pontes que parecem infinitas e, graças a isso, a obra consegue criar uma atmosfera de solidão com ruas vazias, cobertas de poeira, e opressão com as construções enormes que fazem P parecer ainda menor do que realmente é.


Essa sensação casa muito bem com a temática pós-apocalíptica e ainda desperta curiosidade para saber mais sobre o que aconteceu com esse local. O design das fases também brilha; elas são amplas e, embora sejam lineares, tendo apenas um caminho certo, contam com muitos drones escondidos para serem encontrados, muitos trechos de velocidade e ocasionais confrontos com inimigos.

O jogo de ação e aventura acima da média


Motorslice
é mais uma obra que prova como o mercado brasileiro de games vem evoluindo; o jogo entrega chefes épicos, uma ambientação brutalista ótima e momentos de parkour rápidos e desafiadores. Além dessas qualidades, ainda tem uma heroína carismática. No entanto, ainda é preciso melhorar em questões como seus inimigos comuns, que não conseguem apresentar um desafio, e alguns diálogos que não agregam à narrativa.

Prós:

  • Gráficos cartunescos, os bonitos, criando ambientações e protagonistas muito bem feitos;
  • P e orbe conseguem se tornar personagens carismáticos;
  • Os chefes são colossais e épicos, exigindo que se escale para conseguir derrotá-los;
  • Ambientação brutalista que passa sensação de solidão e de grandeza, reforçando a ideia da temática pós-apocalíptica;
  • Trechos de parkour são divertidos e desafiadores na medida certa, ainda oferecem opções de caminhos alternativos.

Contras:

  • Os adversários comuns deixam a desejar, não conseguindo ser um bom desafio, o que torna o combate contra eles monótono;
  • Alguns diálogos entre a Slicer e seu companheiro não agregam muito para o desenvolvimento de ambos, o que os torna desinteressantes.
Motorslice — PS5/XSX/PC — Nota: 7.5
Versão usada para análise: PlayStation 5
Revisão: Johnnie Brian
Análise produzida com cópia digital cedida pela Top Had Studios
OpenCritic
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Thiago da Silva e Silva
É um universitário se formando em engenharia na UFRRJ,apaixonado por jogos desde a infância, principalmente RPGs.
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