Análise: Mixtape é uma viagem musical interativa sobre viver a adolescência

Título dos mesmos criadores de The Artful Escape é praticamente uma playlist musical jogável.

em 13/05/2026
Desde que os videogames se desenvolveram o bastante para oferecer experiências semelhantes às do cinema, existe um debate sobre qual é a melhor forma de contar uma história. Tudo depende de a narrativa se adaptar ao estilo passivo dos filmes ou ao ativo dos jogos. No entanto, a mídia de videogame certamente possibilita experiências alegóricas mais profundas, permitindo o controle do que acontece na tela.


Concebido pela Beethoven & Dinosaur (do divisivo The Artful Escape), Mixtape apresenta uma breve aventura que ilustra como era ser adolescente nos anos 1990 no interior dos Estados Unidos. Acompanhado da mídia mais presente na história da humanidade, a música, temos um jogo que mal se classifica como “videogame”, mas que utiliza o controle nas mãos para nos imergir em mentes férteis.

Com a cabeça nas nuvens

Em Mixtape, seguimos a trajetória de Stacey Rockford e seus dois amigos, Slater e Cassandra, no último dia em que estão juntos, já que Stacey se mudará para Nova York para seguir seus sonhos na música ao terminar o colegial. A garota é uma verdadeira apaixonada por música, a ponto de carregar um discman e fones de ouvido para onde quer que vá, e elaborou sua trilha sonora ideal para o dia final.

Durante uma campanha de aproximadamente quatro horas, vamos relembrar os momentos de amizade desse grupo de amigos ao longo do dia, utilizando fotos, objetos, fitas VHS ou visitas a locais importantes. Simultaneamente, os três desejam um último dia memorável, e muitos acontecimentos ocorrem em um curto período, incluindo a dinâmica entre eles e a força da amizade que os une.

Como um verdadeiro trio rebelde e imprudente, várias das situações envolvem comportamentos arriscados, como descer uma ladeira de skate, consumir álcool em uma casa abandonada, descer de carrinho de compras fugindo da polícia ou simplesmente passear em um parque desativado.

Em suma, Mixtape narra uma trajetória em busca da identidade, do amadurecimento e do senso de pertencimento. A história não se torna excessivamente sentimental ao abordar esses temas, e o texto retrata de forma convincente a "bobice" dos adolescentes que dialogam e desejam ser punks em qualquer situação, sem que isso pareça forçado. 

Como adultos, podemos encarar algumas situações com certa preguiça, mas já fomos jovens e sabemos como nossa mente operava. Certamente, não é uma trama para todos devido a essa proposta; no entanto, a viagem nostálgica pode acabar derretendo o coração mais endurecido. 

É importante destacar que o jogo possui a localização dos textos para o português, e houve um esforço notável para adaptar o dialeto e as gírias americanas para a nossa língua. Notei apenas um erro em que a legenda não incluiu toda a fala de um personagem, tornando a resposta ao diálogo um tanto sem sentido. No entanto, o trabalho como um todo é excelente.

A batida perfeita

Embora as comparações com Life is Strange e Lost Records: Bloom & Rage sejam inevitáveis devido ao estilo de jogo, Mixtape é um jogo linear, sem possibilidades de escolhas. Estamos lá para acompanhar uma narrativa concluída, com poucas oportunidades de exploração de ambientes. Apesar disso, a gameplay tende a ser mais contemplativa do que voltada para a resolução de quebra-cabeças ou Quick Time Events.

A campanha é segmentada em capítulos, e cada um deles traz uma música tema. Stacey quebra a quarta parede e explica por que escolheu cada trilha sonora para cada contexto. É nesses momentos que aparecem as diversas maneiras de jogar, como as mencionadas partes de andar de skate ou empurrar um carrinho de compras com uma Cassandra embriagada dentro, escapando da polícia.

As ocasiões mais “vibes” são os momentos em que Mixtape brilha, sem se preocupar com o realismo e abrindo espaço para a imaginação. Correr em um campo de grama sem se preocupar com a gravidade, flutuar melancolicamente pela cidade e correr por aí no estilo de jogo de plataforma são algumas das situações que retratam com precisão a personalidade e os sentimentos de Stacey.

Não é exagero afirmar que Mixtape é um álbum jogável semelhante a Sayonara Wild Hearts, uma vez que as partes jogáveis são praticamente videoclipes. Nada é complicado e não há senso de risco, pois o objetivo é simplesmente narrar a história e fazer o jogador mergulhar na situação daquele capítulo.

A propósito, a trilha sonora é bastante variada, com músicas que vão da década de 1960 à de 1990. As opções variam desde artistas e grupos menos famosos, como Mondo Rock e Mitch Murder, até os mais renomados, como The Smashing Pumpkins e Roxy Music. A playlist é incrível e, por si só, conquistará pessoas apaixonadas por música como Stacey.

A beleza da existência

Confirmando que Mixtape se mantém firme no audiovisual, estamos diante de um dos jogos mais bonitos lançados em 2026. Mantendo um estilo cartunesco semelhante ao do primeiro Life is Strange, a obra se inspira na técnica de stop motion para o visual dos personagens, que apresentam estruturas irregulares e anatomias desengonçadas, mas estilizadas e com muita personalidade.

A animação dos personagens, em particular, utiliza quadros de animação inferiores ao que está sendo processado internamente, cerca de 15 fps, semelhante ao que ocorre em Homem-Aranha no Aranhaverso. Entendo a escolha criativa, mas o jogo não explora tanto assim a construção das cenas, o que pode causar enjoo em jogadores mais sensíveis.

No entanto, o jogo se destaca em momentos de imaginação livre, que foi a parte que mais gostei da experiência. Prefiro não entrar em detalhes para não dar spoilers, mas a obra é audaciosa tanto no estilo artístico quanto na representação da vastidão do mundo sob a perspectiva de jovens prestes a se tornarem adultos.

A parte técnica contribui para transmitir emoções por meio de impressionantes efeitos de iluminação e sombra, partículas, detalhamento adequado de cada cenário e enquadramento da câmera das melhores maneiras possíveis. O arco final é um dos momentos mais memoráveis que já vivi com videogames em termos visuais, e felizmente a experiência no PC é fluida do começo ao fim, com poucas interrupções durante as transições de cenas.

O que é a vida

Mixtape é uma breve aventura que retrata a loucura da adolescência, transmitindo essa mensagem por meio de uma experiência que explora a imaginação dessa fase da vida, especialmente em uma época sem internet. Os personagens são bestas e as situações são absurdas, mas a maioria de nós já se meteu em encrenca por besteira, e vamos compreender o problema — e questionar, assim como o "adulto chato" retratado pelo pai da Cassandra.

Esse enredo é elevado pelo que torna os videogames uma mídia única: a interatividade, as cenas deslumbrantes e a integração da trilha sonora, que narra sentimentos de forma sutil. Mixtape é uma obra leve que pode não agradar a todos, mas conquista aqueles que procuram uma experiência mais aconchegante.

Prós:

  • Direção de arte lindíssima, puxando o estilo stop motion e acompanhada de uma ótima entrega técnica;
  • Trilha sonora não só é composta por ótimas músicas licenciadas, como também as integra à narrativa com naturalidade;
  • Cada capítulo conta com estilos distintos de gameplay, sempre orientados a passar o sentimento dos personagens através do controle;
  • Enredo que captura bem a proposta da vida de adolescentes prestes a virarem adultos, incluindo situações de vergonha alheia que encaixam com a personalidade dos personagens;
  • Legendas em português que conseguem captar o texto original e adaptar para nosso linguajar, com raros erros.

Contras:

  • A jogabilidade em si não é nada complexa, o que pode afastar quem espera uma experiência mais tradicional;
  • A taxa de quadros limitada para os personagens não serve tanto para o visual quanto poderia e pode incomodar pessoas mais sensíveis;
  • Adolescentes são irritantes, e o jogo não vai tentar mudar essa percepção de ninguém — e está tudo bem.
Mixtape — PC/PS5/XSX/Switch 2 — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut
Texto produzido com cópia digital cedida pela Annapurna Interactive
OpenCritic
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Alecsander "Alec" Oliveira
Um ser que está nesse mundo dos joguinhos desde criança. Fã de games com vibe mais arcade e arqueólogo de velharias, mas não abandona experiências mais atuais. Acompanha a mídia de podcasts, dublagem e ouvinte assíduo de VGM. Pode ser encontrado como @AlecFull e semelhantes por aí.
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