Lançado para PC há seis meses, Constance agora chegou aos consoles. Basicamente, temos o mesmo jogo: lindo de morrer, desafiador nos chefes e na ênfase em plataforma, e, no todo, uma experiência breve, em torno de 10 horas de duração. Apesar disso, há certas novidades.
A versão 1.1, também disponível no Steam, tem certas melhorias e adições, incluindo um novo modo mais difícil, desbloqueado ao finalizar a campanha, e até uma opção de morte permanente voltada para quem curte esse tipo de atrocidade.
O principal aprimoramento está no mapa. Criticado na época do lançamento inicial, agora ele está mais funcional em orientar a pessoa que joga, indicando a posição exata da protagonista e marcando os locais não visitados. Foi adicionado até um rastro de movimento para facilitar a se situar nas salas, uma vez que elas não são detalhadas, mostrando apenas o perímetro geral e as conexões.
De restante, é uma ótima produção e acerta em vários aspectos, mesmo que a execução de certas ideias seja limitada. Vejamos mais sobre ele.
“Artevania”
Constance é lindo e sabe disso, se empenhando em manter uma apresentação atraente o tempo todo. Mesmo usando o esquema de ter um primeiro plano escuro para demarcar pisos e paredes, em Constance predominam as cores vivas na área jogável, construindo cenários claros, luminosos e de boa visibilidade, o que ajuda a dar-lhe um ar mais distinto de outros títulos semelhantes, porém muito mais escuros — Hollow Knight, mais especificamente.
A escolha de cores é calma e cativante e, somada às animações fluidas e aos traços curvilíneos dos desenhos de fundo e detalhes, produz um resultado visual que é encantador e dá destaque à obra em seu meio.
O apelo visual se estende à convidativa abertura da exploração: em certo ponto, passamos a ter três objetivos simultâneos e podemos concluí-los em qualquer ordem. Isso é possível porque o Constance faz algo um pouquinho diferente de outros metroidvanias: em vez da habitual concessão de novas habilidades no final das áreas, este as dá logo no começo, permitindo dar meia-volta para tentar vasculhar outras paragens.
Com diversas habilidades de travessia, temos aqui grande ênfase na gameplay de plataforma, com muito desafio em sequências de movimentos. O mergulho de tinta, em que deslizamos na parede, é menos intuitivo do que eu gostaria, especialmente quando usado logo após um dash no ar, e parece uma habilidade imprecisa até que a pessoa se acostume com ele e entenda como usá-lo com desenvoltura.
Os chefes são encontrados pelo caminho em boa quantidade, sem demorar muito até que encontremos a próxima luta divertida. Como o repertório de ataques de Constance é básico, essas lutas compensam por serem voltadas ao movimento, aproveitando bem as técnicas da protagonista.
Ainda que alguns segmentos de plataforma tenham sido estressantes, os mais exigentes são opcionais, sem impedir que jogadores menos habilidosos cheguem ao final da campanha. Mesmo assim, senti que faltou uma opção de dificuldade de desacelerar o tempo, uma vez que o jogo disponibiliza outras de redução de dano e também recursos de acessibilidade audiovisual.
Uma moldura limitante
Vendo apenas a campanha principal, Constance anda sobre a linha tênue da duração: levei 8 horas para chegar ao final, ainda com 71% de completude. Ou seja: podemos ver que cerca de um terço do jogo é inteiramente opcional.
Joguei mais um tempo, chegando a 88% em 11 horas. Portanto, não se trata de um título particularmente curto para quem tentar completar o máximo, mas essa tarefa é para poucos, tendo em vista o quanto esse conteúdo opcional costuma ser complicado de descobrir. Eu mesmo duvido que seja capaz de concluir tudo sem o auxílio de guias.
No momento em que cheguei ao final, no entanto, estava com uma clara sensação de que o escopo parecia mais conciso do que realmente é. Um motivo para isso é que, desde o começo, temos acesso ao mapa geral do mundo inteiro, delineando as áreas. Dessa forma, já sabemos de antemão onde o mundo acaba, quantas áreas encontraremos, seus tamanhos e até o nome delas. Isso não elimina, porém reduz o fator surpresa, que é uma das satisfações da exploração em jogos.
Mesmo que Constance tenha o design de mundo bem construído de que já falei acima, sua estrutura de campanha é básica: vá a um lugar, receba um objetivo e “Oh!, agora é preciso ativar os dois geradores do elevador para chegar ao tal objetivo!” Essa dinâmica de encontrar as partes necessárias para progredir é uma redução gamificada que pouco contribui para o significado de um jogo que, na verdade, pretende tratar de temas complexos.
Mais especificamente, Constance aborda a saúde mental de uma artista sufocada pelo trabalho formal como designer em home office. A história acontece em dois mundos: o “real”, das cenas desenhadas com a coitada em burnout, e o interno, da gameplay de fantasia na qual ela tenta seguir em frente.
Só vemos a Constance real (apelidada Connie) nos interlúdios entre os objetivos principais. Os dois segmentos não se comunicam bem, parecendo pouco mais que trechos separados que não se complementam o bastante para formar um todo maior. Eu esperava mais em termos de escrita e imagens alegóricas, especialmente quando considero o quão bonita e caprichada é a apresentação visual.
Dessa forma, como uma proposta de jogo cuja narrativa almeja alguma reflexão e simbolismo psicológicos, Constance é morno e desconexo.
Como metroidvania, porém, é eficiente, bonito, divertido e instigante, mesmo que deslize em algumas paredes de seu caminho.
Uma obra de arte
Além da óbvia beleza, Constance se destaca como um metroidvania com ênfase em plataforma e chefes divertidos. Ainda que a apresentação do mundo o faça parecer menor do que realmente é, há bastante conteúdo para os mais empenhados em descobrir segredos e desafios em segmentos opcionais. No final, é um ótimo metroidvania que traz como ponto fraco não conseguir criar uma conexão sólida entre as duas linhas narrativas que formam sua história sobre saúde mental, tornando-se mais superficial do que o tema proposto requer.
Prós
- Lindo visual desenhado, com cores vivas e animação fluida;
- Desafiador tanto na gameplay de plataforma quanto nas lutas contra chefes;
- Recursos de acessibilidade e opções de dificuldade;
- O mapa, que era um ponto fraco do lançamento original, foi muito melhorado para ser eficiente;
- Textos em português brasileiro.
Contras
- Sensação de mundo pequeno, acentuado pela forma como o mapa é apresentado, o que tira parte da surpresa da exploração;
- As duas linhas narrativas da história não se complementam tão bem quanto a proposta faz supor que deveriam;
- A mecânica de mergulho na parede é imprecisa.
Constance — PC/PS5/XSX/Switch — Nota: 8.5Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pela btf













