Análise: Call of the Elder Gods apresenta mistérios e puzzles com uma inspiração lovecraftiana amena

Resolva puzzles sem pressão enquanto curte um mistério cósmico de leve.

em 11/05/2026

Call of the Elder Gods
vem como uma sequência para um jogo de 2020, Call of the Sea. Mesmo se você não tiver jogado o anterior, não se preocupe: eu também não o joguei e posso afirmar que a sequência é inteiramente aproveitável tanto para conhecedores quanto para novatos na história, como eu. Esta análise, portanto, se debruça no jogo em si mesmo, não como sucessor em uma série.

Aventura acessível para novatos e conhecedores

Além de servir de sequência a Call of the Sea, a aventura também faz o mesmo à novela “A Sombra Vinda do Tempo”, publicada por H. P. Lovecraft em 1936. Como a obra do escritor é de domínio público, as referências a ela são numerosas e diretas, como a própria Universidade Miskatonic e alguns personagens que povoam as histórias do patrono do horror moderno.

Enquanto as referências servem ao efeito positivo do reconhecimento de quem já se deparou com elas antes, quem não leu a novela ou nem mesmo conhece o material de Lovecraft — como minha esposa, que jogou comigo — não se sentirá impedido de compreender a trama.



Diferentemente de outros jogos que também bebem em grandes goles da fonte lovecraftiana, Call of the Elder Gods não segue a linha do terror. É uma obra de mistério cósmico sobrenatural, é claro, mas pintada em cores vivas e personagens animados — às vezes até um pouco demais —, com certo tom familiar de aventura que esperaríamos de Indiana Jones e As Aventuras de Tintim.

A abordagem é uma faca de dois gumes: torna a história mais acessível a quem prefere evitar o medo enlouquecedor vindo dos abismos siderais, mas não satisfará a quem espera justamente esse traço tão próprio do horror cósmico típico de Lovecraft. Sinceramente, o estilo da capa já deve servir de indicação suficiente do tom ameno que devemos esperar do jogo.



Outro ponto que suaviza é a grande frequência de falas, uma vez que os personagens, que são totalmente dublados em inglês, comentam sobre cada item com o qual interagimos, às vezes até com graça e ironia. Vejo certa ambivalência nisso. Por um lado, nos dá contexto e nos conecta aos protagonistas. Por outro, muitas vezes eles apenas descrevem o que está diante de nós, caindo na redundância de uma maneira que faz parecer que certas falas estão ali apenas para evitar o silêncio, o que pode ser uma distração desnecessária que quebra a atmosfera.

Na história em si, alternamos o controle de uma dupla de protagonistas. Enquanto o professor Everhart é figura importante na trama do antecessor Call of the Sea, a jovem universitária Evangeline vem suprir a conexão com os jogadores novatos, pois ela também é estreante na série e, assim como alguns de nós, ignora o que aconteceu antes.



Não senti que precisava de mais conhecimento do primeiro jogo para compreender e apreciar Call of the Elder Gods, mas é bastante claro que as referências são numerosas e quem traz essas lembranças na bagagem provavelmente terá muito a curtir, incluindo até a participação frequente de uma narradora onisciente e bem-humorada: Norah, a protagonista da aventura pregressa.

Ressignificando Lovecraft

Em se tratando de Lovecraft, é interessante mencionar a questão de representação, pois Evangeline condensa em si um elemento que o autor negligenciou e outro que sempre retratou com aversão: é uma mulher negra, algo impensável em uma obra que deu nome a apenas um punhado de personagens femininas e exprimia desconfiança e antipatia a qualquer um que não fosse anglo-saxão.

Se o escritor tinha visão de alteridade muito limitada e reiteradamente racista, outros criadores da posteridade encontraram uma solução razoável para expandir esse conflito interno e apropriaram-se da obra dele, aplicando um pouco da diversidade humana que, ironicamente, tanto apavorava Lovecraft, como podemos ver nos livros de ficção Território Lovecraft e A Balada de Black Tom, e agora, em forma de jogo em Call of the Elder Gods.

Pode não parecer muito, mas são pequenos passos importantes para criticar e ressignificar uma obra literária que é ao mesmo tempo socialmente obtusa e culturalmente valiosa.



Um diário contra os puzzles

Como eu disse antes, joguei Call of the Elder Gods com minha esposa. Não entenda errado, esse é um título para um jogador apenas, mas temos o hábito de imergir juntos em narrativas de puzzles, seguindo a lógica do velho ditado que diz que duas cabeças pensam melhor do que uma.

Na maioria das vezes, uma cabeça só é o bastante, pois os puzzles são, em geral, intuitivos e autocontidos. Isto é, eles não se estendem por áreas grandes nem misturam seus passos com outros desafios. Assim, são resolvidos um por vez, linearmente, e as informações pertinentes são todas anotadas automaticamente em um diário muito prático e, para o bem ou para o mal, didático. Quem quiser um desafio maior pode escolher no menu a opção de desativar o diário, mas o próprio jogo deixa claro que o formato padrão é o recomendado.



Dessa forma, entramos no loop de vasculhar ambientes, sempre procurando por pequenos círculos brancos da interface, que indicam pontos de interação, o que torna a coisa toda mais gamificada e menos dependente de nossa interpretação sobre o que faz parte do puzzle em si. Assim, precisamos encontrar chaves, fazer associações, inferir sequências, interpretar símbolos, ativar aparelhos e outras mecânicas comuns do gênero.

O diário torna a experiência investigativa razoavelmente acessível na maior parte do tempo, mas houve momentos em que precisamos testar mais de uma lógica. Um puzzle em especial, bem na metade da campanha, requereu definir tantas informações que nos demandou mais tempo tentando desfazer os nós em nossas mentes, até que optamos por usar papel e caneta para anotar os detalhes, rabiscamos os erros e, finalmente, deciframos o enigma para poder continuar na campanha.



Foi nesse puzzle que testamos o sistema de dicas, acessível pelo menu de jogo. Funciona como uma apresentação de slides de passo a passo que indica a lógica necessária em cada etapa e pode até entregar parte da resposta. É útil e didático para quem precisa, sem ser invasivo para quem prefere evitá-lo.

No fim das contas, é uma experiência que busca unir narrativas e puzzles de forma agradável, acessível e despretensiosa.

Sem medo de chamar os deuses antigos

Com igual ênfase em narrativa e puzzles ordenados, Call of the Elder Gods faz boa apropriação do legado lovecraftiano para ressignificá-lo com uma apresentação que dispensa o terror e prefere o mistério da aventura. Despretensioso e sem muitas surpresas, é um jogo que busca ser agradável, sem a pressão do medo, do tempo ou de quebra-cabeças complexos demais, sendo desafiador apenas na medida de nos fazer pensar um pouco, ainda que seus recursos e personagens tagarelas possam ser didáticos demais.



Prós

  • Bons puzzles, geralmente nem fáceis, nem difíceis demais;
  • Todas as pistas são reunidas em um diário de consulta prática;
  • A dublagem em inglês contribui para o envolvimento;
  • Textos em português brasileiro.

Contras

  • A tagarelice dos personagens pode quebrar a atmosfera e exagerar no aspecto didático;
  • A ausência de terror pode desapontar quem espera isso de uma história lovecraftiana.
Call of the Elder Gods — PC/PS5/XSX/Switch 2 — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela Kwalee
OpenCritic
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Victor Vitório
Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies. Veja minhas análises no OpenCritic.
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