Análise: Starfield transforma o sonho da exploração espacial em um RPG massivo

A odisseia de Todd Howard finalmente passará pelo PlayStation 5.

em 22/04/2026

Starfield chega ao PlayStation 5 dois anos após sua estreia no console da Microsoft e no PC. Na época, foi o primeiro grande título da Bethesda após a aquisição bilionária pela dona do Xbox, carregando não apenas a expectativa de mais um jogo do estúdio, mas também o peso de ser o carro-chefe de um console que precisava de uma vitória.


Agora, antes de todos os olhares se voltarem para o inevitável The Elder Scrolls VI, esta aventura espacial recebe sua última oportunidade de validação.

Os mundos de Todd Howard

Não é difícil imaginar que, na mente de um dos criadores de mundos mais famosos da indústria, sempre existiu o desejo de explorar outros — no sentido literal. A geração de Todd Howard cresceu acompanhando as histórias da vitória dos Estados Unidos na corrida espacial, alimentando o imaginário coletivo sobre o que existia além das estrelas.

Esse sonho, no entanto, nunca se concretizou. Décadas se passaram sem grandes avanços palpáveis para o público geral, e as gerações seguintes foram, aos poucos, perdendo esse encanto. Mais recentemente, a ideia de colonizar Marte acabou sendo tratada quase como sátira, impulsionada pela insistência de figuras como Elon Musk.

Confesso que, com o passar dos anos, também me vi aceitando que não farei parte da geração que realmente desbravará o espaço. Esse tipo de experiência parece reservado ao cinema, algo para se observar, não viver. Apesar disso, o lançamento de Starfield no PlayStation 5 coincidiu com um momento curioso.

O voo da Artemis II, realizado pela NASA em abril de 2026, reacendeu parte desse espírito. Em meio a tantas incertezas, ainda somos capazes de avançar. Olhar para o espaço continua sendo um exercício inevitável de questionamento: o que existe além? Há outras formas de vida? Quando faremos contato?

Todd Howard, no entanto, escolhe olhar para esse cenário de outra forma.

Starfield segue uma direção diferente do comum dentro da ficção científica. Em vez de explorar o desconhecido através do contato com civilizações alienígenas, o jogo parte de uma premissa mais contida: a humanidade chegou às estrelas, no entanto, encontrou apenas a si mesma.

Não há sociedades alienígenas complexas como em Mass Effect. O universo de Starfield é povoado por humanos espalhados por diferentes planetas, lidando com seus próprios conflitos, enquanto formas de vida alienígena existem apenas como criaturas.

Essa abordagem torna o projeto uma peça peculiar dentro do catálogo da Bethesda. Apesar do cenário espacial, Starfield é, em muitos sentidos, menos fantasioso do que Fallout. É um universo que troca o desconhecido pelo familiar, levando para o espaço tudo aquilo que já define a humanidade — para o bem e para o mal. 

Um integrante da Constelação 

O começo do jogo é peça fundamental para entender suas ideias. Iniciamos a jornada interestelar em uma caverna, minerando materiais, até encontrarmos um artefato misterioso que nos faz desmaiar e vivenciar uma experiência surreal. Logo depois, Barrett, membro da organização Constelação, chega ao planeta e nos recruta. Ali, já assumimos o controle de nossa nave e ganhamos o primeiro companheiro de viagem, o robô Vasco.

Sem a preparação mais elaborada de Fallout 3 ou a grandiosidade de Skyrim, um título que promete entregar o universo começa oferecendo o mínimo. Ainda assim, a progressão, especialmente durante a campanha principal, é bem calibrada. Mesmo com um começo contido, a jornada cresce de forma consistente, sempre levando o jogador além. Isso ajuda a entender por que muitos que testaram o game no lançamento, via GamePass, acabaram abandonando cedo, pois ele não entrega gratificação instantânea, mas sim uma experiência que ganha corpo e relevância conforme o público se aprofunda em seus sistemas.

É comum dizer que a história principal nunca foi o ponto mais forte das produções da Bethesda, porém, o mistério dos Artefatos consegue conduzir o jogador pelo universo de forma satisfatória e intrigante. Ao mesmo tempo, o jogo falha em apresentar bem seus sistemas mais complexos. Mecânicas como a criação e gerenciamento de outposts (bases) e a modificação de espaçonaves recebem pouco direcionamento durante a campanha, o que faz com que muitos jogadores simplesmente não interajam com elas ao focar apenas na história principal.

Por outro lado, a convivência entre os personagens e suas interações é excelente. Esse sempre foi um ponto forte do estúdio, e aqui não é diferente. As relações são diversas, com possibilidade até de romance e casamento, criando vínculos mais fortes ao longo da jornada. Tudo isso culmina em um momento específico no meio da história (que não será detalhado aqui a fim de evitar spoilers) quando o título assume mais liberdade com seus temas interestelares. A partir daí, a narrativa ganha força e caminha para um clímax que eleva a experiência nos momentos finais.

Nas beiradas das estrelas 

É de se esperar que, em um jogo, ainda mais da Bethesda, com diversos mundos, a quantidade de side quests e atividades seja avassaladora. E sim, é. A todo momento em que pisava em um planeta, novas quests e atividades complementares surgiam em grande volume. Elas seguem o padrão de qualidade do estúdio e ajudam a moldar o universo além da busca central pelos artefatos misteriosos.

Destaque para as facções, que recebem cadeias de missões mais detalhadas e profundas, expandindo e explicando o mosaico de conflitos galácticos.

Realmente é possível assumir diferentes papéis, seja como pirata espacial, com mecânicas de contrabando complexas, caçador de recompensas ou membro da Vanguarda, atuando como protetor da lei.

A variedade é grande, e as atividades envolvem o jogador com diálogos, escolhas e boas recompensas. Durante minha campanha, precisei me segurar diversas vezes para não me perder em missões secundárias, caso contrário nunca veria os créditos finais.

Um bom exemplo disso acontece ao chegar em Neon, conhecida como a cidade mais infame do universo. Fui até lá inicialmente por conta de uma missão principal, entretanto rapidamente me vi envolvido na produção de Aurora, uma substância alucinógena permitida apenas dentro da cidade. Ao experimentá-la, adquiri o status de “viciado em narcóticos”. Situações como essa acontecem com frequência e mostram a força do conteúdo paralelo do game.

Jogabilidade nível estelar?

O padrão do estúdio é mantido, com retorno da possibilidade de alternar entre câmera em primeira e terceira pessoa. Aqui, o combate com armas de fogo está no melhor nível que a Bethesda já entregou, com uma sensação mais fluida e responsiva.

A adição do jetpack para locomoção, muitas vezes combinada com variações de gravidade, é um acerto importante. As distâncias são longas, e o uso constante desse recurso torna a movimentação mais dinâmica e divertida, tornando-se difícil imaginar o jogo sem ele.

A maior parte dos inimigos é composta por humanos, com algumas variações envolvendo robôs e criaturas alienígenas insetoides. O desafio se mantém consistente, pontualmente variando de acordo com o nível do jogador e os equipamentos utilizados. 

A jogabilidade espacial, no controle das naves, foi uma surpresa positiva. É possível redistribuir energia entre diferentes sistemas em tempo real, criando uma camada estratégica durante os combates. Em situações de confronto, por exemplo, podemos reduzir a potência do grav drive (responsável pelo salto em velocidade da luz, equivalente ao fast travel) e alocar essa energia para armas ou escudos. Essa gestão adiciona profundidade e torna os combates mais interessantes.

Menus e telas mais numerosos que as estrelas

Como a viagem espacial segue uma cartilha mais "realista", viajar manualmente entre planetas não é viável dentro de um tempo razoável. Tentei, por exemplo, alcançar os anéis de Saturno, porém a demora foi tão grande que acabei desistindo.

Isso torna o uso de fast travel, menus e telas de loading constantes. No início, isso quebra a imersão, pois aterrissar em um planeta ou acoplar em outra nave, acontece por meio de cenas pré-estabelecidas. Com o tempo, no entanto, o jogador se adapta ao ritmo imposto. A exploração espacial passa a ser mais uma etapa funcional da jornada — bonita, sim, sobretudo ainda uma etapa entre um ponto e outro, já que a locomoção entre sistemas acontece basicamente via fast travel e telas de loading. Batalhas e interações com outras naves ajudam a dar ritmo a esse processo.

Em Fallout 3, os menus priorizavam a estética em detrimento da usabilidade. Aqui, o título não se destaca em nenhum dos dois aspectos. Os menus são funcionais, porém numerosos, e ações simples acabam se tornando mais demoradas do que deveriam.

Felizmente, o DualSense é utilizado de forma inteligente. Ao deslizar o dedo para baixo no touchpad, o jogo abre diretamente o menu de missões, o que ajuda na navegação. Ainda assim, esse menu é limitado, oferecendo apenas informações básicas como objetivo atual e uma breve descrição. Considerando o grande volume de missões e atividades, um compêndio mais detalhado, com textos mais completos e até imagens, faria diferença para a organização do jogador.

Mundos e mundos 

Como mencionado anteriormente, o game segue com rigor a proposta de um universo construído exclusivamente por humanos. Fora da campanha principal não há tecnologias que soem verdadeiramente alienígenas ou incompreensíveis. Isso pode gerar uma sensação de falta de novidade em alguns momentos, no entanto está alinhado com a proposta “NASA-punk” idealizada por Todd Howard. Ainda assim, existe beleza nesse conceito, principalmente nos interiores de naves e estações, que são detalhados e bem construídos.

No entanto, talvez a maior decepção esteja na construção de alguns ambientes. Os planetas seguem arquétipos bastante reconhecíveis: há o cenário de faroeste, a cidade com estética cyberpunk e outras variações já esperadas. O problema é que poucos desses locais realmente se destacam de forma memorável.

O exemplo mais claro é Paradiso: apresentado pelos próprios personagens como o “lugar mais bonito do universo”, ideal para férias e casamentos, o local se resume a um hotel em uma praia. Quando a estética limita a criatividade a esse ponto, surge um problema claro, pois eu, na vida real, já encontrei lugares mais bonitos do que o principal ponto turístico de todo o universo do jogo. Em um videogame, no qual as possibilidades são praticamente infinitas, essa quebra de expectativa pesa ainda mais.

Essa sensação também aparece em Jemison. Na superfície, temos um centro urbano limpo e organizado, quase como o coração da civilização. Já em The Well, o submundo da cidade, encontramos uma proposta interessante, porém que não foge muito do que já foi visto em outras produções. Falta, em vários momentos, aquele impacto que se espera de um universo dessa escala.

Performance e conjunto da obra

É difícil não mencionar a performance ao analisar um jogo da Bethesda. Após dois anos desde o lançamento original, era esperado que a versão de PlayStation 5 chegasse em sua melhor forma, entretanto, ainda há problemas perceptíveis.

Durante minhas mais de 40 horas com o jogo, enfrentei seis travamentos que exigiram o fechamento completo do aplicativo. Felizmente, o sistema de salvamento ameniza bastante essa frustração. Os saves são praticamente ilimitados, e é possível configurar autosaves frequentes (a cada cinco minutos ao entrar em menus), o que reduz o impacto dessas falhas.

Além disso, há quedas ocasionais de frame rate. Nada que comprometa seriamente o combate ou a progressão, mas o suficiente para lembrar constantemente que o jogo ainda carece de maior polimento técnico.

No contexto de Starfield, esses problemas acabam sendo parcialmente “aceitos” devido à ambição do projeto. O tradicional sistema da Bethesda, quando praticamente todos os objetos são interativos e múltiplas quests coexistem simultaneamente, cobra seu preço em estabilidade.

Ainda assim, o conjunto da obra entrega momentos marcantes. Mesmo com uma estética inconsistente em alguns pontos, há cenas que capturam perfeitamente a proposta do jogo. Pilotar sua nave diante da imensidão de um planeta ou encarar o vazio do espaço são experiências que resgatam aquela sensação inicial de curiosidade e contemplação, tudo embalado por uma trilha sonora magistral e grandiosa.

Talvez o maior indicativo da força do game seja que mesmo após dezenas de horas e com a campanha finalizada, me permanece a vontade de continuar explorando, descobrindo novas histórias e completando atividades. 

Última fronteira

Starfield é um RPG que cresce com o tempo, exige paciência nas primeiras horas e recompensa quem permanece com uma experiência rica em sistemas, histórias paralelas e liberdade de construção de identidade. Ao mesmo tempo, a dependência excessiva de menus, a exploração fragmentada e a falta de impacto em alguns cenários impedem que ele alcance plenamente o encantamento que sua proposta sugere. Apesar disso, quando tudo se alinha, o jogo entrega a sensação de estar vivendo uma jornada própria em meio à imensidão do espaço.

Prós

  • Vasta liberdade para o roleplay e para a construção da identidade do personagem;
  • Campanha principal, de facções e side quests numerosas e envolventes;
  • Combate com armas de fogo responsivo e satisfatório;
  • Controle de naves com camada estratégica interessante;
  • Momentos de contemplação visual que capturam com perfeição a grandiosidade do espaço;
  • Companheiros carismáticos com romances e vínculos emocionais bem desenvolvidos.

Contras

  • Dependência excessiva de menus e fast travel que fragmenta a experiência de exploração;
  • Ausência de introduções claras para sistemas complexos como a construção de bases e a modificação de naves;
  • Direção de arte inconsistente em locais que deveriam ser visualmente memoráveis;
  • Interface de usuário pouco prática para a gestão do alto volume de informações, principalmente no menu de quests;
  • Instabilidade técnica evidenciada por fechamentos inesperados e quedas de framerate. 
Starfield — PS5/XSX/PC — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Thomaz Farias
Análise feita com cópia digital cedida pela Bethesda
OpenCritic
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Matheus Oliveira
Entusiasta de games e cinema, sempre explorando novos gêneros e estilos enquanto acumula um backlog infinito. X e Instagram
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