“O futuro é show!”, diz o Demônio do Futuro de Chainsaw Man (na tradução oficial da obra). Já que o ser humano tem uma obsessão insaciável pelo conhecimento, é natural que o próprio conceito de algo que nunca vamos conhecer até termos chegado lá nos atraia. Gostamos tanto de imaginar o futuro que existe um gênero inteiro de ficção para tanto, entre as previsões mais ponderadas e a pura maluquice.
D-topia, do pequeno estúdio indie japonês Marumittu Games, apresenta uma proposta curiosa a ser considerada. O que qualificaria o ideal platônico de uma utopia, aquele futuro perfeito ao qual todos almejamos? Existe realmente um jeito de garantir felicidade duradoura? E, se sim, qual o lugar da agência humana nisso?
O GameBlast teve a oportunidade de testar antecipadamente uma demo de jogo de 20 minutos de duração, já disponível no Steam. O software que utilizamos pode não representar a versão final.
Tudo em seu devido lugar
D-topia é o nome de uma sociedade perfeita, parte de um experimento em larga escala curado por uma IA para “trazer a felicidade ao máximo de pessoas possível”. Para tanto, o papel de pessoas conhecidas como Facilitadores é fundamental. Nosso protagonista, No. 046 (ou “Shiro”, um trocadilho que só funciona em japonês), é o mais novo Facilitador, incumbido de ficar de olho nos moradores locais e atender qualquer necessidade que apareça.
Na prática, isso costuma se traduzir em resolver uma série de quebra-cabeças matemáticos, que compõem a maior parte da gameplay vista na demo. São puzzles concebidos para serem simples, sem deixar de desafiar os jogadores; a cada dia da vida de Shiro, uma nova sequência pode ser realizada na Fábrica, o local de trabalho obrigatório (mas sem muito propósito para a sobrevivência básica, visto que o Estado custeia a moradia e alimentação de todos).
Quem quiser trabalhar mais para conseguir comprar alguma coisa supérflua, como um console ou uma guloseima, também pode. Dentro do contexto da origem dos desenvolvedores, é uma referência bem-humorada à cultura do zangyo no Japão, ou seja, a prática de fazer hora extra menos por necessidade e mais por pressão social.
O texto de D-topia é, como um todo, bem japonês. Isso se faz presente em detalhes como o consumo de bentôs e bifes de hambúrguer, além da prosa em si. Meu conhecimento da língua é básico (estou no nível N4), o que já é suficiente para identificar algumas marcas de um texto traduzido do japonês para o inglês, como o uso constante do “por favor” no imperativo (tradução literal do “kudasai”) ou a tendência a repetir informações.Não é uma má localização; é apenas uma com uma voz cultural mais forte. A única grande falha vem dessa repetição, algo que já é parte do texto original. Nesse primeiro momento, os NPCs discutem os mesmos fatos básicos do mundo com pouca variação de linguagem, possivelmente pela vontade dos desenvolvedores de se certificar de que todos entenderam as regras. Acredito que seria possível atenuar esse ângulo um pouco mais, inclusive para a versão futura em português do Brasil, já confirmada.
Falando à imprensa sobre o mundo do game, a dupla de CEOs do Marumittu Studios, Akira Mitsuhashi (programador) e Hiroko Shiino (artista), fez várias afirmações a respeito da “tranquilidade” deste: “não é um mundo com inimigos assustadores”, disse Shiino, por exemplo.
De fato, nada na demo ou no trailer indica um jogo de terror. A tensão nasce exatamente da insistência constante no “tudo está bem”. Um dos personagens que encontramos diz desconfiar dos Facilitadores, sem fornecer um motivo. Outro destaca o fato de Shiro não ter “problemas ou defeitos” de forma que chega a ser preocupante. Mais uma série de elementos provoca a audiência a pensar que, talvez, essa utopia toda não funciona tão bem quanto os líderes do projeto dizem que funciona.Algo que a demo não tem espaço para mostrar é um sistema de escolhas; aliado às amizades que podemos fazer com alguns certos residentes de D-topia, o game promete um número ainda não divulgado de finais, nos quais Shiro guia as pessoas que ajuda “em direção à alegria ou ao desespero” de acordo com as decisões que toma. Mesmo ainda não implementado, o conceito é interessante.
Felicidade para todos?
Apesar de alguns problemas com o tom, D-topia promete uma história interessante e nuançada. Certamente vale a pena ver até onde vão as discussões promovidas pela demo.
O jogo será lançado em 14 de julho para PC (via Steam e Epic Games Store), PlayStation 5, Xbox Series X|S, Nintendo Switch e Nintendo Switch 2, e contará com localização completa para o português do Brasil.
Revisão: Johnnie Brian
Texto de impressões produzido com chave de acesso cedida pela Annapurna Interactive




