Fullmetal Alchemist 3: Kami o Tsugu Shoujo é o último jogo da trilogia e nunca chegou ao Ocidente

Lançado apenas no Japão, o terceiro jogo da franquia traz os irmãos Elric em uma história original ambientada no universo do anime.

em 04/04/2026

Lançado em 2005 para PlayStation 2, Fullmetal Alchemist 3: Kami o Tsugu Shoujo é um RPG de ação desenvolvido pela Racjin e publicado pela Square Enix que dá continuidade à trilogia baseada no anime de 2003. Apesar de expandir o universo da série com narrativa e personagens originais, o jogo foi lançado exclusivamente no Japão, tornando-se, portanto, um dos títulos menos conhecidos da franquia entre os fãs do ocidente. 

Uma nova história no universo de Fullmetal Alchemist

Ao invés de simplesmente adaptar os eventos do anime, o jogo apresenta uma história totalmente nova e ambientada na cidade de Valdora, um local cercado por montanhas nevadas. É lá que Edward e Alphonse conhecem Sophie Bergmann, uma jovem misteriosa que carrega um estranho poder que tem ligações com a alquimia.

A narrativa, no entanto, não chega a ser um dos pontos mais marcantes do jogo. Embora traga elementos que dialogam diretamente com o anime de 2003, a história segue caminhos mais simples e, em diversos momentos, previsíveis. Isso é refletido principalmente nos novos personagens e antagonistas introduzidos ao longo da jornada, já que esses acabam se mostrando genéricos e pouco desenvolvidos, sem o carisma ou a complexidade que marcaram a obra original.


Sophie Bergmann até tenta assumir um papel central na história, mas na prática acaba sendo mais uma personagem genérica dentro da história. O mistério em torno de seus poderes e sua origem chama atenção no início, mas isso não se desenvolve de forma tão interessante quanto poderia, o que enfraquece seu impacto ao longo da campanha. Ainda assim, ela não fica completamente apagada: em alguns momentos, a personagem participa ativamente da experiência narrativa, especialmente em trechos de gameplay nos quais o jogador precisa protegê-la durante as batalhas.

Essa sensação de tudo ser um grande filler, fica ainda mais evidente para quem conheceu a franquia por meio de Fullmetal Alchemist: Brotherhood. A diferença de tom é clara: enquanto o anime mais recente apresenta uma narrativa mais coesa e impactante, o jogo se aproxima muito mais da atmosfera do anime de 2003, o que pode causar certo estranhamento dependendo das referências que o jogador tiver.


Ainda assim, existe um charme próprio na forma como o título conduz sua história. Ver Edward, Alphonse e outros personagens conhecidos em uma aventura inédita tem seu valor. Existe várias interações divertidas e diálogos que entretem. A presença da dublagem em boa parte do jogo também ajuda a reforçar essa conexão, aproximando a experiência do que se espera de uma adaptação do universo de Fullmetal Alchemist.

Entre boas ideias e uma execução inconsistente

No que diz respeito à jogabilidade, Fullmetal Alchemist 3 segue uma estrutura de RPG de ação, com combates em tempo real, evolução básica dos personagens e alguns puzzles bem simples. Durante a jornada, é possível alternar entre Edward e Alphonse, uma troca que acaba se tornando um dos pontos mais interessantes do jogo, já que cada um cumpre um papel bem definido no combate.

Existe também um sistema de presentes envolvendo a Sophie, o que aparentemente influencia alguns momentos da narrativa que são bem divertidos. No entanto, não ficou muito claro durante a jogatina como a dinâmica se encaixava, para além de alterações momentâneas ou interações extras. Isso levando em conta que o jogo conta com dois finais.



No combate, Edward é claramente mais versátil quando o assunto é alquimia, podendo transmutar diferentes armas como lanças, espadas e até um martelo gigante, enquanto Alphonse foca mais no suporte, criando itens úteis durante as batalhas, como projéteis ou dispositivos que ajudam a dificultar o movimento dos inimigos. Essa dinâmica funciona bem e dá uma sensação legal de complementaridade entre os dois, já que temos inimigos que são mais fáceis de enfrentar com um ou com o outro. 

Agora, um dos aspectos mais divertidos da jogabilidade está justamente na interação com o cenário. Em vários momentos é possível transmutar objetos do ambiente em itens ou ferramentas de combate, e existe um certo charme em descobrir o que cada elemento vai gerar, por exemplo, algo com a cara do Ed ou do Al. Muitas dessas criações parecem ter saído diretamente do universo do anime, o que aumenta a sensação de imersão e dá aquela impressão de estar realmente brincando com as regras da alquimia.


O problema é que, apesar dessas boas ideias, o combate em si deixa a desejar. Existe até uma variedade de ações: ataques, esquivas, contra-ataques e alguns combos, mas nada é muito refinado. O sistema de lock-on, por exemplo, é inconsistente e frequentemente mais atrapalha do que ajuda, demorando para fixar nos inimigos e causando mais confusão do que precisão durante as lutas.

Além disso, a movimentação também não é muito melhor. Os pulos são imprecisos, especialmente nas fases de plataforma, o que acaba gerando frustração em momentos que deveriam ser simples. No fim das contas, o jogo não é exatamente difícil, muitas vezes, o maior desafio é lidar com os próprios controles.

Um modo extra que pode surpreender

Além da campanha principal, o jogo também conta com um modo chamado Tag Battle, que permite jogar com até duas pessoas e escolher entre alguns personagens variados, o que o deixa ainda melhor. A proposta é simples: enfrentar uma sequência de fases com inimigos que vão se tornando progressivamente mais fortes, sempre com foco em alcançar a melhor pontuação possível no final.

Não é exatamente um modo revolucionário, mas ele funciona melhor do que poderia parecer à primeira vista. Existe a opção de jogar com outra pessoa localmente ou deixar o segundo personagem sob controle da CPU, o que acaba tornando esse modo mais acessível mesmo para quem está jogando sozinho. Essa flexibilidade ajuda a dar uma sobrevida maior ao jogo, especialmente fora da campanha principal.


Curiosamente, foi nesse modo que a experiência acabou se mostrando até um pouco mais divertida do que a campanha normal. Há uma variedade maior de inimigos em comparação com a campanha, o que faz com que os combates sejam menos repetitivos e a dificuldade também se torne maior, o que deixa tudo mais dinâmico. Mesmo sem trazer nada muito inovador, o Tag Battle consegue se destacar como um dos momentos interessantes da jogabilidade.

Quando o design não faz jus à franquia

Se por um lado a base da jogabilidade até tenta trazer ideias interessantes, o mesmo não pode ser dito da variedade de inimigos e cenários. Os ambientes são, em sua grande maioria, simples e pouco inspirados, funcionando mais como espaços funcionais do que como locais memoráveis dentro da jornada, sendo que muitos deles nem música tem ou apresentam loops tão curtos que são facilmente esquecíveis.

Os inimigos talvez sejam um dos pontos mais fracos do jogo. Além de repetitivos, muitos deles simplesmente não parecem fazer sentido dentro do universo de Fullmetal Alchemist. Falta identidade, falta personalidade, e, em vários momentos, dá a sensação de que eles estão ali apenas para preencher espaço (o que é verdade).


Os chefes apresentam esse mesmo problema. Tirando algumas exceções, são confrontos pouco criativos e visualmente genéricos, que não passam a mesma sensação de impacto que se espera de uma obra da franquia. Inclusive, muitos deles não se parecem com algo que seria concebido pela própria Hiromu Arakawa, o que reforça ainda mais essa desconexão com o material original.

No fim, isso acaba pesando na experiência como um todo. Mesmo quando o jogo acerta em pequenas ideias, a falta de identidade nesses elementos faz com que ele perca parte do seu potencial.

Um jogo que você precisa ir atrás para jogar

Apesar de suas limitações, Fullmetal Alchemist 3 consegue se sustentar como uma experiência curiosa dentro da franquia. A história, embora simples e com personagens inéditos pouco marcantes, ainda funciona como uma expansão do universo do anime, enquanto a jogabilidade mistura boas ideias com uma execução inconsistente. Não é um jogo que se destaca por excelência técnica, mas também está longe de ser um desastre.

Os personagens clássicos também contribuem bastante para essa experiência. Riza, Winry e Mustang aparecem ao longo da jornada, trazendo uma sensação de familiaridade que compensa em parte a fraqueza dos novos personagens. São nesses momentos que o jogo mais se aproxima do que os fãs esperam de uma adaptação, fortalecendo o vínculo com a obra original e tornando a aventura mais envolvente.


Outro ponto que acaba afastando muitos jogadores é justamente o fato de o jogo nunca ter recebido localização oficial. Todo o conteúdo está em japonês, o que pode parecer uma barreira grande à primeira vista. Ainda assim, não chega a ser impossível de acompanhar: com um conhecimento básico ou intermediário do idioma já dá para entender boa parte do que está acontecendo, e o restante pode ser contornado com ferramentas como tradutores (como Google Lens, por exemplo). 

Um título não tão conhecido mas que pode valer a curiosidade 

Por um lado, talvez seja até compreensível que ele não seja tão lembrado hoje, especialmente por nunca ter saído do Japão. Ainda assim, é curioso notar que muitos o consideram o melhor entre os três jogos da trilogia, o que diz mais sobre o histórico da franquia nos videogames do que necessariamente sobre a qualidade deste título em si.


Por fim, Fullmetal Alchemist 3: Kami o Tsugu Shoujo não é um jogo incrível, mas também não precisa ser ignorado. Para quem tem curiosidade de explorar mais do universo ou simplesmente quer passar mais tempo com esses personagens, ele pode ser uma experiência válida. Curto, acessível e sem grandes desafios, é o tipo de jogo que funciona bem como um passatempo, especialmente para fãs que querem descobrir esse lado menos conhecido da franquia.

Revisão: Juliana Piombo dos Santos

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Clarice Pinheiro
Apaixonada por filmes, mangás, animes, e claro, games. Sou fã de RPGs e adoro jogos com histórias mirabolantes. Se você tiver alguma recomendação, é só me falar!
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