Análise: Legacy of Kain: Ascendance traz boas intenções mas resulta em um produto fraco para os padrões da franquia

Título de ação baseado em uma graphic novel oficial comete o pecado de depender apenas do renome da série.

em 04/04/2026

A série Legacy of Kain voltou a chamar a atenção do público em 2024 com a remasterização dos dois jogos da linha Soul Reaver. Com o interesse na franquia estando em alta novamente, era esperado que a mitologia vampírica da Crystal Dynamics ganhasse mais relevância.

Em 2026, Legacy of Kain: Defiance também foi remasterizado e disponibilizado nas plataformas atuais. Na ocasião de seu anúncio, uma novidade inesperada foi revelada também: um novo jogo chamado Legacy of Kain: Ascendance. O título é inédito em todos os sentidos — nova história, nova dinâmica de gameplay e nova direção de arte. O resultado disso é o que vamos conferir a seguir.

Nascituro da vingança

Ascendance é diretamente baseado em uma graphic novel oficial da franquia, oriunda de um financiamento coletivo. Legacy of Kain: Soul Reaver – The Dead Shall Rise é uma prequel da história de Raziel durante o período no qual ele era o mais implacável dos inquisidores da Ordem dos Sarafan.


A obra apresenta uma nova personagem central na trama: Elaleth, uma vampira vingativa cuja única motivação é acabar com a vida de Raziel — que, em vida, foi seu irmão de sangue. The Dead Shall Rise tem a intenção de ser um elo entre as sagas de Kain (Blood Omen) e Raziel (Soul Reaver).

Na história, acompanhamos a queda e a ressurreição de Raziel: antes um campeão da humanidade e ressuscitado por Kain para se tornar um dos mais implacáveis tenentes de seu exército vampírico.


O conto termina logo após o episódio que abre Legacy of Kain: Soul Reaver — o exílio de Raziel, transformado no espectro devorador de almas que conhecemos — e culmina em um confronto final entre Elaleth e Kain, quando o imperador vampiro descobre que ela o utilizou como instrumento em sua jornada de vingança.

Escrita por Joshua Viola e Angie Hodapp e lançada em 2025, a obra teve recepção negativa, especialmente entre os fãs de longa data da franquia. Para os padrões da série, que foi sempre elogiada por sua narrativa densa e pelos aspectos filosóficos que explora em relação à destino e livre-arbítrio, The Dead Shall Rise foi considerado raso e mal desenvolvido. As críticas incluem ainda a alteração de elementos já consolidados da mitologia de Nosgoth e acusações de que o texto funciona como uma fanfic cuja única finalidade é introduzir Elaleth — personagem que não gera impacto significativo no lore já estabelecido da franquia.


Com o anúncio de Ascendance e a confirmação de que o jogo se inspira justamente nesse material, as expectativas em relação ao valor narrativo estavam abaladas desde o início. Restou à experiência de gameplay o papel de sustentar o interesse pelo título.

Bebendo sangue frio

A dúvida se tornou certeza quando tive acesso ao jogo. Mesmo ciente da má reputação da HQ, procurei deixar essa influência de lado para avaliar se Ascendance poderia ser ao menos um bom jogo. A resposta: não tanto.

Legacy of Kain: Ascendance é um jogo de plataforma 2D dividido em doze capítulos. Alguns culminam em batalhas contra um chefe; outras consistem apenas em combater inimigos e desviar de obstáculos até chegar ao fim; e há ainda os que são compostos inteiramente por segmentos de história, com cutscenes ou elementos interativos para criar alguma imersão.


A jogabilidade é simples até demais. Os comandos dos três personagens jogáveis se resumem a pular, atacar, esquivar e executar um ataque especial único, como um rasante ou o lançamento de bombas incendiárias. Ao jogar com os vampiros — Elaleth, Kain e o já transformado Raziel —, uma mecânica adicional exige que o sangue dos inimigos seja consumido para mantê-los vivos, semelhante ao visto em Blood Omen e ao jogar como Kain em Defiance.

O ritmo é repetitivo e por vezes desequilibrado, com muitos inimigos na tela e poucas opções de abordagem. Existe uma mecânica de parry bastante poderosa que ajuda a contornar isso, mas sua imprecisão transforma cada tentativa em um jogo de apostas: o risco de sofrer dano é tão alto quanto o contra-ataque desferido ao acertar o golpe. Somam-se a isso trechos de plataforma pouco inspirados, com longos abismos e seções que apelam para o clássico salto de fé. Fora os trechos que consistem em andar, depois atacar, andar mais, atacar mais um pouco, e assim por diante.


Espalhados pelo cenário, há itens escondidos que vão de incrementos de vida e de habilidades — como reduzir o consumo da barra especial ao esquivar ou voar — a colecionáveis que expandem a mitologia de Nosgoth, abordando temas como os Pilares, a história de Kain e outros tópicos do lore. Esses itens funcionam como elementos de coleção e não influenciam no progresso.

A trilha sonora, assinada por Celldweller, tem altos e baixos. Alguns temas evocam bem a essência da série, enquanto outras faixas abusam de uma modernidade que não casa com a ambientação. Um ponto positivo em meio a tudo isso é o retorno de Michael Bell, Simon Templeman e Richard Doyle aos papéis de Raziel, Kain e Moebius, respectivamente.

Ascendance é uma experiência curta, concluída em média entre duas e três horas — tempo que pode variar conforme a frequência de mortes causadas por obstáculos desequilibrados ou pela imprecisão dos controles. Finalizado o jogo, não há novos modos nem recompensas atreladas aos colecionáveis — fora as conquistas/troféus —, o que desestimula qualquer interesse em uma nova jogada.


Legacy of Kain: Ascendance é uma faca de dois gumes. O interesse pelo jogo vem exclusivamente do peso que seu nome carrega, mas o que se tem é uma experiência que, apesar das boas intenções de expandir a franquia com um novo episódio, entrega um produto medíocre que se torna vítima de sua própria notoriedade.

Ascendendo para a mediocridade

Legacy of Kain: Ascendance chega em um momento delicado para a franquia. Após anos de um silêncio que foi quebrado pela boa recepção das remasterizações, o que os fãs esperavam era um retorno com qualidade à altura da série — e o que receberam foi um título que parece subestimar o próprio legado que carrega no nome.

Não faltam boas intenções: a tentativa de expandir o universo de Nosgoth com um novo episódio jogável é bem-vinda, e há momentos durante os quais o jogo acerta ao evocar a atmosfera sombria que consagrou a série. O retorno do elenco de dubladores originais é um aceno sincero aos fãs de longa data. Mas essas intenções não são suficientes quando a execução falha em quase todas as frentes — narrativa fraca, jogabilidade rasa, duração curta e sem incentivo para revisitar a experiência.


O maior problema de Ascendance talvez não seja o que ele é, mas o que ele representa: uma oportunidade desperdiçada. A Crystal Dynamics tem em mãos uma das franquias mais ricas e subutilizadas dos games, com uma mitologia elaborada, personagens memoráveis e uma base de fãs fiel que aguarda há décadas por um retorno digno. Ascendance não é esse “escolhido”.

Para os curiosos de plantão ou fãs menos exigentes, ele pode funcionar como uma passagem rápida pelo universo de Nosgoth. Mas para quem cresceu com Blood Omen e Soul Reaver, a experiência tem gosto amargo — o de ver uma série que merecia muito mais do que ser tratada com tão pouco cuidado.

Prós

  • Retorno de Michael Bell, Simon Templeman e Richard Doyle aos papéis de Raziel, Kain e Moebius;
  • Alguns poucos temas da trilha sonora evocam bem a essência da série;
  • Colecionáveis que explicam a mitologia de Nosgoth são úteis para os fãs do lore;
  • Acesso a um novo conteúdo da franquia na forma de um novo episódio jogável.

Contras

  • Narrativa baseada em material de baixa aceitação pela comunidade;
  • Jogabilidade rasa e repetitiva;
  • Mecânica de parry imprecisa;
  • Ritmo desequilibrado, com muitos inimigos e poucas opções de abordagem;
  • Trechos de plataforma pouco inspirados;
  • Trilha sonora inconsistente, com faixas que destoam da ambientação;
  • Sem novos modos ou recompensas ao término, o que desestimula a rejogabilidade;
  • Direção de arte destoante do estilo consagrado pela série.
Legacy of Kain: Ascendance — PC/PS5/XSX/Switch/Switch 2 — Nota: 5.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Juliana Piombo dos Santos
Análise produzida com cópia digital cedida pela Crystal Dynamics
OpenCritic
Siga o Blast nas Redes Sociais
Alexandre Galvão
Produtor do BlastCast. Entusiasta da era 16-bit, fã declarado do PS2 e apreciador de jogos de cartas e de tabuleiro. Jogador casual de muitos e hardcore em poucos. Também conhecido como @XelaoHerege
Este texto não representa a opinião do GameBlast. Somos uma comunidade de gamers aberta às visões e experiências de cada autor. Você pode compartilhar este conteúdo creditando o autor e veículo original (BY-SA 4.0).