Presente no imaginário popular desde os anos 1970, com o primeiro lançamento dos livros de Dungeons and Dragons, o RPG de turno é um dos tipos mais antigos de games. No passado recente, também se tornou controverso: os jogos são longos demais, ocorre desequilíbrio entre história e gameplay, o próprio estilo de luta por turnos é monótono… as críticas são tantas quanto os anos de história do formato.
É nesse cenário que entra People of Note, o novo projeto do Iridium Studios (mega-nerds de visual novels, como eu, o reconhecerão como o time liderado por Jason Wishnov, dublador em inglês de Byakuya Togami na série Danganronpa), acrescentando uma boa dose de música aos velhos moldes do RPG. A pergunta é: será que dá jogo?
O pop não poupa ninguém
Em People of Note, jogamos como Cadência, uma jovem cujo maior e único desejo é ser famosa. Assim, ela sai em busca de pessoas que topem fazer parte de uma banda com ela, para que ela possa se apresentar no festival Dignas de Nota e competir por um contrato com uma gravadora/instituição governamental de seu país, a terra da música pop, Accordia.
Cada batalha na qual a protagonista e seus novos companheiros se encontram é estruturada como se fosse uma música: um turno é uma “estrofe”, o que implica cada ataque ser um “verso”. Um elemento estratégico interessante é que podemos ver todas as ações que o inimigo tomará a cada estrofe antes que o façam, permitindo assim um certo planejamento e prevenção de danos. Também recebemos oportunidades para aplicar buffs e debuffs a versos específicos (por exemplo, quem atacar nesse momento X causará o dobro de dano).
Além disso, claro, temos os estilos musicais. Cada um dos quatro personagens jogáveis tem a própria especialidade: Cadência é uma diva pop em ascensão, Fret é um roqueiro da velha guarda, Synthia toca música eletrônica com sua mesa de DJ e Vox é um rapper bem puxado para o trap.A cada estrofe, um desses gêneros, dependendo de quem estiver no grupo, se torna o “estilo em destaque” (às vezes, nenhum o é, estado neutro representado pelo quadrado cinza no canto da tela), dando um bônus de dano ou cura para o músico correspondente. Ao longo da história, desbloqueamos a habilidade de fazer mashups, combinando os estilos de dois personagens para um ataque especial e dando o “destaque” a ambos.
Os ataques disponíveis são, em sua maioria, específicos de cada personagem, apesar de existirem alguns genéricos, a exemplo de uma cura simples. Cada um é uma Pedra Melódica, equipável a partir de um menu. Os instrumentos musicais que utilizamos como armas têm configurações diferentes de quantas Pedras cabem neles: isso vale tanto para as maiores, que representam as ações, quanto para as menores, que são bônus aplicáveis a estas. Também precisamos distribuir os PH, pontos que amplificam o poder de cada habilidade, que ganhamos a cada combate.
É um sistema bem intuitivo, que vai ganhando complexidade quanto mais mecânicas novas aparecem, mas nunca perde o jogador por completo (apesar de apresentar várias batalhas bem difíceis em certos pontos). Ajustes de qualidade de vida o tornam ainda mais acessível: por exemplo, regeneramos a barra de saúde automaticamente, sem precisar de itens de cura, e o tão temido grind quase nunca se faz necessário — melhor ainda, ficamos no pleno controle de se e quando realizar uma batalha aleatória.Vale também observar que a trilha sonora é dinâmica e vai mudando a cada estrofe, dependendo de que estilo está ativo (ou não) e da facção musical do oponente, como o povo do Rancho, que toca música country e antagoniza o grupo em vários momentos. É, com certeza, uma das melhores sacadas de People of Note, uma produção que tanto quer falar da mistura de gêneros musicais e já coloca o tema dentro da própria gameplay.
Apesar de toda a temática ao seu redor, contudo, a parte rítmica da gameplay acaba se restringindo aos famosos quick-time events (QTEs), estando mais para Yakuza: Like a Dragon do que para um Rift of the NecroDancer (que também tem uma Cadência protagonista) da vida. O único jogo de ritmo de verdade que pude encontrar foi o Roda Ritmo, um minigame nada intuitivo e sem qualquer tutorial, acessível a partir de uma conversa com NPCs em Accordia.
Fora das batalhas, o outro grande elemento de gameplay são os puzzles ambientais em cada área, que variam entre simples e extremamente complicados. Para quem, como eu, for muito ruim no gênero, existe a opção de desligá-los (bem como quem odeia RPGs de turno pode pular qualquer luta se quiser, apesar delas serem o ponto central).Tudo isso se soma para, no fim das contas, criar uma experiência de jogo satisfatória, um bom ponto de partida mecanicamente para quem está só começando a amar games como este. Mas então, por que a análise tem este título tão negativo?
Muito barulho por nada
Um dos pilares do RPG como forma de jogo é a história. São obras longas por excelência: o Yakuza citado acima leva cerca de 48 horas para zerar, isso só contando a duração da campanha principal. Logo, a narrativa, construção de mundo e personagens são sempre importantíssimos para sustentar o interesse contínuo do público — algo que também tem raízes no D&D. Quem vai querer seguir com uma mesa que não agrega nada à vida dos jogadores?
Infelizmente, é aqui que People of Note descarrega uma metralhadora em cada pé. Os problemas começam pela protagonista: apesar de existir um arco que fale do egocentrismo insuportável que Cadência prega pelas primeiras horas, não há a sensação de merecimento.
Em certo ponto da história, ela parece só se dar conta, quase do nada, de que está se equivocando ao agir assim; pior, algumas horas antes, quando Fret, no ponto em que ela tenta recrutá-lo para a banda (formada só para vencer o Dignas de Nota), afirma que ela só o vê como uma ferramenta, ele está totalmente correto, mas o jogo não é capaz de formular nenhum contra-argumento. Os dois só decidem que misturar rock e pop é legal e se juntam.
Esses são apenas alguns dos vários indicadores da falta de interioridade que assola o elenco. Quando construímos uma narrativa, o personagem é sempre uma ferramenta dela, o que não quer dizer que isso tem de ser óbvio; muito pelo contrário, é aqui que devemos convencer os espectadores a se importar com a história. Esta aqui não faz isso. Todos agem porque o enredo demanda, têm as relações que o enredo demanda, expõem todos os traumas de infância na primeira conversa porque o enredo demanda. É transparente e amador.Pior ainda é o mundo de Nota, construído lentamente ao longo das cerca de 20 horas de gameplay. A base é: existem quatro estilos predominantes — pop, rock, EDM e rap — e seus representantes se consideram incapazes de os misturarem entre si, o que torna o quarteto principal um grupo revolucionário por fazê-lo. Enquanto isso, todavia, no mundo real, o pop veio do rock, que, assim como o rap e EDM, tem raízes na black music, como blues e reggae.
Juntar qualquer um dos quatro com outro não é só extremamente fácil (o que, provavelmente, informou a decisão de torná-los os estilos do grupo que seguimos): é algo que acontece toda hora na música mundial, inclusive nos estilos que o próprio título demonstra. Um dos vilões que defende a impossibilidade dos mashups, em certo ponto, tem uma música própria na pegada do pop dos anos 80... ou seja, que veio do new wave, um estilo que partiu do punk. O conceito inteiro não funciona desde o princípio.
E, sim, People of Note é um musical. Em certos pontos da história, acontecem alguns números, normalmente dedicados a explicar as motivações e personalidade do personagem da vez, cada um no gênero que representam.Deveriam ser o centro de cada fase, porém, na maioria das vezes, acabam sendo o puro suco do clichê: Cadência tem a audácia de dizer que sua música é melhor do que a da boyband “vazia” de que todos gostam, quando na hora do vamos ver, a dela é uma faixa de musical feita numa linha de produção, e a deles, justamente por ser apresentada como cômica e batida de propósito, é muito mais memorável.
No geral, para um game que preza pela criatividade a todo momento, a ponto de derrubar qualquer possível sutileza (da qual a escrita já mostrou não ser capaz), o produto final não tem nada de muito impressionante a dizer, muito menos enquanto se apoia em um pano de fundo que, na melhor das hipóteses, é fraco, e, na pior, completamente sem sentido. Ah, mas ainda tem o bis!
Cadê o jeitinho brasileiro?
Localizar não é traduzir. A tradução de um texto se resume a passar palavras de uma língua para a outra, ao passo que a localização busca adequar o todo a um novo contexto cultural. Por aqui, essa tarefa foi delegada a um grupo de oito pessoas bilíngues — e o resultado conseguiu fazer parecer que quem a recebeu foi um amador com um Google Tradutor e um sonho.
Existem certos momentos nos quais há uma tentativa de adaptar People of Note para a audiência brasileira. A maioria está no começo, como na balada que oferece “Zeca Conhaquinho” com “Geração Nota-Cola”, ou em uma finada boutique em Durandis, terra do rock, chamada “O Traje a Rigor”. São exatamente essas sacadas que fazem pensar: por que cargas d’água eu encontrei uma referência ao músico Philip Glass, completamente transliterada, no nome do item “Óculos Philip” (“Philip Glasses”)? Quantos brasileiros vão entender isso? Será que o time também não o conhecia e deixou passar?
Acima, um dos quizzes periódicos feitos por uma referência ao músico Weird Al Yankovic (“Weird Owl”), que só entendi horas depois. Aqui, não tinha muito o que fazer.
Até mesmo as versões brasileiras que entraram no texto são esquisitas às vezes. Em Lumina, cidade do EDM, podemos encontrar duas referências aos Mamonas Assassinas, que nunca fizeram EDM na vida. Se só o Alok não sustenta a cena eletrônica do Brasil, por que escolher músicos que sequer se encaixam no gênero? Seria muito melhor ter puxado um repertório do pancadão e do funk carioca, cujas ligações com a cultura de DJ são certamente bem maiores.
Também temos diversas piadas traduzidas diretamente do inglês, de modo a tirar qualquer elemento cômico de cenas. Um diálogo entre dois NPCs afirma que a região de Durandis foi construída sob “pedra e carvão”. Parece informativo, mas nada mais é do que um trocadilho com “rock and coal”/“roll” e uma referência à canção We Built This City, de Starship. Tudo se perdeu por completo e agora requer um conhecimento do inglês, algo totalmente contrário à função de uma localização.
Mais uma falha, das maiores, diz respeito à identidade de gênero de certos personagens e como foi retratada por aqui. A missão de localizar diálogos referentes a pessoas não binárias começa com uma pergunta: qual caminho tomar?
Obras que visam um público LGBTQ+, como Dustborn, costumam lançar mão da linguagem neutra, um desenvolvimento recente no português. Outras, não querendo colocar a mão no vespeiro da polêmica, preferem estruturar o texto para não terem de usar qualquer palavra que indique o gênero do indivíduo em questão, o que nem sempre é fácil de ler, porém é minimamente funcional. A opção nuclear, e a mais malvista, é a pura e simples negação dessa identidade, forçando um pronome mais padronizado à pessoa de acordo com o que parece "certo".
Quando o time responsável pela localização de People of Note teve de lidar com a questão de adaptar o gênero de Synthia, DJ popular e personagem central do arco de Lumina, conseguiram a proeza de escolher todas as alternativas acima. Seu nome feminino faz "they" virar "ela" em alguns trechos, algo que parece ser evitado em outras frases ao sumir com quaisquer pronomes, porém retornando de novo para o grande ápice de sua história.A linguagem neutra aparece como mera referência no nome de um item que só pode ser equipado por Synthia, cuja descrição ousa dizer "respeita o pronome, senão"... ah, você diz o mesmo pronome que os localizadores se recusam a usar? Talvez o recado seja para eles.
Para fechar este segmento em um tom mais leve, um problema final: inconsistência. Vários itens e ataques receberam duas traduções diferentes (por exemplo, o último microfone de rap que podemos obter tem um nome no inventário e outro no menu de Pedras Melódicas), atrapalhando bastante a compreensão. Tudo isso pode ter sido consertado na build de lançamento, porém o trabalho que recebi para análise foi, em uma palavra, porco.
Não parece que a cadeira vai virar…
Como experiência lúdica e estímulo sensorial, People of Note até que satisfaz; o verdadeiro problema é a história desinteressante, pouco considerada e vazia que a gameplay tenta sustentar. Aos olhos brasileiros, o texto piora ainda mais com uma localização igualmente malfeita para nosso idioma. Quem quiser se aventurar em Nota e conhecer um RPG genuinamente bem construído vai ter de aguentar vários perrengues.Prós
- Sistema de turnos robusto, que evita o “grind” e valoriza a estratégia;
- Dificuldade customizável em todos os aspectos;
- A trilha sonora dinâmica ajuda na ambientação.
Contras
- Elementos de ritmo não são integrados à gameplay de maneira satisfatória;
- Narrativa mal estruturada e amadora;
- Faixas vocais são clichês e raramente impressionam;
- Localização de baixíssima qualidade, repleta de erros, inconsistências e piadas perdidas na tradução.
People of Note — PC/PS5/XSX/Switch 2 — Nota: 5.0
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pela Annapurna Interactive












