Little Nemo and the Guardians of Slumberland é um metroidvania baseado em Little Nemo, uma série em quadrinhos centenária, publicada entre 1905 e 1911. É preciso, portanto, uma pequena introdução sobre esse histórico.
O Pequeno Nemo
Não é nenhum exagero dizer que o criador da história, Winsor McCay, foi um grande gênio das HQs, demonstrando profundo domínio do design de página em uma época em que essa mídia ainda estava em seus primórdios. A obra completa foi publicada recentemente no Brasil pela Editora Figura em dois volumes enormes, mas, como se trata de domínio público, pode ser facilmente encontrada online em inglês.A história rendeu um longa-metragem de conturbada produção nipo-americana em 1989. Atualmente, O Pequeno Nemo pode ser assistido pelo serviço de streaming Prime Video. Mais relevante para o meio dos games, está um título de NES de 1990, chamado Little Nemo: Dream Master. Feito pela Capcom em sua era de ouro de platformers licenciados, ele é tido como um dos melhores jogos daquele console.
Para Little Nemo and the Guardians of Slumberland, a desenvolvedora Die Soft decidiu aproveitar a maleabilidade que o status de domínio público permite: fez sua própria interpretação idealizada, sem precisar seguir as ideias preestabelecidas na estética da HQ, na animação ou no jogo.
Sonhos encantadoramente desenhados
Talvez os puristas não gostem do quanto a arte de Guardians of Slumberland é diferente da original de Winsor McCay, mas é preciso reconhecer o quanto ela é bonita e bem-feita. Enquanto as proporções parecem ser o estilo compacto de jogos 8 bits, encaixada em um grid simétrico, a arte é toda desenhada, com um colorido exuberante.Além de serem belamente animados, os modelos de personagens e inimigos são feitos com traços quase artesanais, como se fossem desenhos pintados a lápis de cor e cercados por uma borda branca que os faz parecer recortes de papel colocados sobre um pano de fundo. Os panoramas me fizeram lembrar de Yoshi’s Island de imediato, trazendo um ar de encanto que combina muito com o tema de sonho de criança.
Esse mesmo caráter onírico dá margem para a criatividade e para as mudanças de direção em relação ao material-base, algo que a Die Soft aplicou muito bem. Na verdade, a apresentação como um todo é impecável, preenchendo a interface e os menus com pequenos movimentos e sons muito bem executados. É um trabalho de design minucioso que dá importância a cada detalhe da experiência estética, sem exceções.
Espírito infantil de explorador da terra dos sonhos
O pequeno Nemo do título é um sonhador e essa é sua aventura para salvar Slumberland, a terra do sono, do esquecimento. Com ajuda de sua amiga Flip (praticamente um cartoon de Cindy Lauper), ele precisará resolver os problemas dos Guardiões para que eles, por sua vez, possam ajudá-lo a evitar o fim daquele mundo de sonhos.Há vários personagens inocentes e excêntricos para conhecermos e conversarmos. Ainda que boa parte da leitura possa ser ignorada pelos desinteressados, gostei de como a história valoriza a psicologia infantil. A aventura de Nemo presta homenagem a essa fase fundamental da vida e passa pela sua vulnerabilidade, medo, insegurança e saudades, mas também pelas mudanças, descobertas e alegrias, sempre com uma camada acolhedora e otimista, ainda que agridoce. Por enquanto, a única opção de idioma é o inglês.
A liberdade do mundo dos sonhos dá a Little Nemo um ar parecido com o dos jogos de plataforma antigos, nos quais cada fase tinha seu próprio tema básico. Em Slumberland, passamos de uma planície verdejante para uma terra de doces, um pântano de cogumelos, uma cidade iluminada e outros.
Além da liberdade temática, o design do mundo em si também tem bastante abertura. Mesmo que Flip nos guie por uma sequência predefinida de áreas, podemos explorar várias outras na ordem que quisermos e até acessá-las por diferentes pontos de entrada, o que proporciona uma exploração engajante e recompensadora.
Associado a essa liberdade, temos um mapa rico em indicações úteis, ainda que não tenha marcadores personalizáveis. Por exemplo, nele vemos lugares trancados, passagens de mão única e caminhos não explorados até o final, indicados por reticências e uma interrogação. A execução do mapa mostra que foi feito com um conhecimento apurado de como representar visualmente a estrutura de metroidvania.
Cheguei a pensar que seria um excesso de informações, reduzindo a exploração, mas esse receio se mostrou infundado no desenrolar da campanha, à medida que eu percebia que havia tantos segredos não encontrados que, no fim das contas, Slumberland exige muita atenção, curiosidade e diligência de quem joga para desbravar todos os seus cantos.
Ajudas e ajustes
Ainda assim, é perceptível como o game evita a todo custo nos deixar às cegas, dando todo o apoio que julga necessário. Na prática, isso quer dizer muita exposição didática. Flip explica tudo como uma tutora ao esquecido Nemo, sempre avisando do próximo objetivo e até indicando como chegar até lá.Muitos dos diálogos com ela são opcionais, como disse acima, e cabe a nós escolher iniciar uma conversa ou apenas passar direto. A presença da amiga, porém, não deixa de transmitir uma certa pressão para conferirmos como será a interação da moça com o menino.
O próprio caráter dos sonhos e de Slumberland é bastante esmiuçado, de uma maneira que combina com a aparência de jogo infantil. Há até um NPC pronto para dar dicas básicas e vender outras mais específicas.
Em suma, quem gosta de ler em metroidvanias terá bastante texto expositivo pela frente, enquanto quem prefere evitar o falatório tem recursos para abreviá-los bastante.
No lado da gameplay, também temos recursos para ajustar a dificuldade, provendo diminuição da velocidade de jogo, mais corações de vida e até mesmo invencibilidade. Meu filho de sete anos está jogando (e adorando) e optou pelo modo fácil, que meramente dá seis pontos de vida em vez de três. Até agora, tem sido o suficiente para ele.
A dificuldade normal pode ser desafiadora, uma vez que, em vez de aumento de vida, temos apenas melhorias de diminuição do dano recebido, o que só faz diferença nas áreas mais avançadas, nas quais poderíamos morrer com um único ataque.
Os pontos que oferecem maior desafio são alguns dos chefões. Não são lutas diretas nas quais golpeamos os monstros de pesadelos, mas sim pequenos puzzles em que precisamos reagir aos ataques deles e evitar receber dano até que surja a brecha para batermos de volta.
Esses encontros são interessantes, combinam com o espírito do jogo, fazem bom uso das diversas mecânicas e evitam cair na mesmice. Por outro lado, senti falta de mais batalhas desse tipo, já que nem todas as áreas têm um chefão para chamar de seu.
Gameplay inspirada
Parte da dificuldade em alguns dos chefes é o movimento um tanto rígido de Nemo ao usar algumas mecânicas, dificultando a aplicação precisa, como se balançar com o ioiô, por exemplo.Na maior parte, porém, o peso do movimento não tem muito impacto, sendo apenas uma escolha de design mais lento e deliberado, condizente com as inspirações 8 bits. Little Nemo aplica com competência muitas ideias vindas diretamente de Super Mario Bros. 2, principalmente as que envolvem pegar objetos do chão para arremessá-los em inimigos ou carregá-los até um destino. Outra inspiração presente é DuckTales e seu pulo de pogo.
Uma mecânica que eu mudaria, porém, seria a de cura: coletamos várias luas douradas espalhadas por toda parte e, ao completarmos um medidor dedicado a elas, a cura acontece automaticamente. Eu certamente preferiria que pudéssemos usar a carga de cura para usarmos quando achássemos melhor.
O medidor das luas douradas também se aplica a outra função: quando a vida está cheia, completá-lo nos leva a subir de rank, o que deixa os inimigos levemente mais difíceis e, em contrapartida, nos recompensam com mais doces, que é a moeda local para adquirirmos equipamentos (isto é, pijamas com efeitos diversos).
No começo você perceberá que Little Nemo faz uso da punição de perder doces ao morrer. Não se preocupe, pois há um personagem que faz as vezes de banco e recolhe automaticamente tudo o que é perdido, devolvendo-nos a metade quando queremos. Em minha experiência, isso não se tornou um problema e não precisei recorrer à busca repetitiva por mais doces.
Antes da conclusão, um breve adendo: uma versão para Switch está prevista ainda para 2026.
Um deleite de aventura onírica
Com a nostalgia dos sonhos de criança, Little Nemo and the Guardians of Slumberland constrói uma apresentação visual de excelência e atenção aos detalhes. Para além da bela aparência, a abertura do mundo e o mapa eficiente são ótimos convites à exploração desta aventura metroidvania que tem movimentos mais pesados do que eu gostaria, mas que, no todo, oferece um verdadeiro deleite tanto para os que ainda estão na infância quanto para os que ainda se lembram dela.Prós
- A apresentação estética é impecável nos mínimos detalhes, tanto no visual desenhado e de animações fluidas quanto nos menus;
- Grande abertura que incentiva a exploração, permitindo visitar a fundo as diferentes áreas fora da ordem determinada;
- O mapa é bem-feito e eficiente para a navegação e a busca pelos segredos;
- O menu de opções é detalhado e inclui ajustes de dificuldade.
Contras
- Mesmo que parcialmente opcionais, pode haver excesso na exposição didática e na vontade de fornecer ajuda;
- Algumas mecânicas de movimento são rígidas, diminuindo a precisão e a agilidade de seu uso;
- Há poucos chefes para a proporção da campanha;
- Sem localização em português brasileiro.
Little Nemo and the Guardians of Slumberland — PC — Nota: 8.5
Revisão: Ives Boitano
Análise produzida com cópia digital cedida pela Die Soft
Análise produzida com cópia digital cedida pela Die Soft
















