Tartarugas Ninja foi uma verdadeira febre durante o final dos anos 1980 e começo dos anos 1990. A ideia maluca de Kevin Eastman e Peter Laird de transformar os adoráveis répteis cascudos em assassinos das sombras começou como uma brincadeira embriagada que resultou em brinquedos, desenhos animados, filmes e jogos. A Konami ficou responsável por adaptar a série para os videogames e fliperamas, e caprichou lançando mais de cinco jogos entre 1989 e 1993.
Dentre esses lançamentos, Teenage Mutant Ninja Turtles: Turtles in Time é considerado o auge dessa fase. Lançado em 1991 para arcades, a premissa era colocar as verdinhas em uma odisseia pelo tempo, espancando qualquer ninja do clã do Pé pelo caminho, e imediatamente se tornou um verdadeiro hit, resultando em múltiplas versões e um legado que perdura até hoje.
Confusão no espaço-tempo
A premissa para a pancadaria é básica como deve ser. Destruidor e Krang sequestram a Estátua da Liberdade ao vivo e transmitida pela April O’Neil — que não foi a sequestrada da vez, como a Konami gostava de fazer em outros jogos —, e as tartarugas partem para o resgate, enfrentando os múltiplos ninjas do Clã do Pé e outros vilões do desenho, como Baxter Stockman, Rocksteady, Bebop e Leatherhead. Porém, Leonardo, Raphael, Michelangelo e Donatello acabam numa armadilha de viagem no tempo dessa vez.
Seguindo os passos do que deu certo antes, Turtles in Time é um beat ‘em up para até quatro jogadores, seguindo o padrão que a Konami usava na época, em que começamos a fase destruindo os inimigos até chegar ao chefe e passar para a fase seguinte. Cada tartaruga apresenta variações de força, velocidade e alcance dos ataques, sendo Raphael o mais rápido e poderoso, mas com alcance curtíssimo; enquanto Donatello é o oposto.
As verdinhas também contam com algumas manobras que dependem do momento do pulo. Atacar enquanto está adquirindo altura resulta em uma voadora que pode ser útil para atacar algum oponente à distância. Enquanto está em queda, dá para realizar alguns chutes que servem tanto para cair atacando quanto para atrasar a chegada ao chão, que é desacelerada.
A corrida é a adição que mais dá impacto a Turtles in Time em comparação com o antecessor de 1989. Basta colocar o herói para uma direção por um segundo e ele vai correr a todo vapor. Atacar enquanto isso nos permite dar uma ombrada que é excelente para iniciar uma ofensiva, ou esquivar apertando o botão de pulo.
Por fim, há outras duas manobras que dão um dinamismo excelente para o jogo, apesar da inconsistência de execução. A primeira é a possibilidade de agarrar um ninja do Pé e bater com ele para os lados, dando dano em todos os atingidos e destruindo o alvo instantaneamente, uma das manobras mais legais dos beat ‘em ups. A segunda serve mais como um show técnico: jogar um inimigo na tela. Ela apenas acaba com uma ameaça na hora, mas é legal ver os pixels estourados vindo em nossa direção com uso inteligente de escalonamento de sprite.
O impacto das grandes máquinas
Apesar de ser um beat ‘em up completo em movimentação, até mais que vários da mesma época, Turtles in Time de fliperama sofre do mesmo mal de outros títulos da Konami, como The Simpsons e X-Men. Os inimigos não “colam” na gente durante um combo, o que significa que eles podem atacar se acharem uma brecha no meio dos ataques, e há uma sensação de que estamos apenas “socando” o ar. É um sistema de colisão um tanto arcaico, que foi solucionado nas versões de console.
Apresentação é a maior qualidade que os jogos da Konami tinham nesse período e que compensa o problema da jogabilidade, e Turtles in Time está no panteão como exemplo. Até hoje o jogo é belíssimo, colorido, bem animado, com diversos detalhes de cenário e transições chamativas. A animação que ocorre quando os ninjas inimigos morrem é tão exageradamente bonita que sozinha já dá satisfação ao derrubar tantas ameaças ao mesmo tempo.
A ideia da viagem no tempo também colabora com quão bonito o jogo é. O Destruidor manda as tartarugas para uma viagem temporal no final da terceira fase e, com isso, visitamos a Pré-História, a Era das Grandes Navegações, o Velho Oeste e até o futuro, como o “futurístico” ano de 2020 com hoverboard em uma pista flutuante high-tech — a clássica visão mágica dos oitentistas e noventistas do que seria o milênio seguinte.
A magia ganha ainda mais presença com toda a parte sonora. Os efeitos de pancadaria, de bater os inimigos no chão, de tiros e até a dublagem cafona são exemplos de como os fliperamas foram feitos para chamar atenção. As músicas são praticamente perfeitas, sendo todas marcantes, carregadas na mais alta qualidade sintetizada e altamente energéticas, sendo bastante variadas para se adaptar à ideia de viagem no tempo. E, claro, bastantes orchestra hits para dar aquele impacto a mais na melodia.
Entre versões e reedições
De todos os jogos baseados em Tartarugas Ninja, Teenage Mutant Ninja Turtles: Turtles in Time é o que mais recebeu ports, relançamentos e variações da franquia. O mais lembrado é o port para Super Nintendo, lançado em 1992 e que corrigiu todas as falhas de jogabilidade da versão original.
Um sistema de combos foi implementado, todos os ataques foram mantidos e não só todas as fases estão presentes, como também foram adicionados dois novos estágios, incluindo um que faz mais sentido para a viagem temporal e que usa melhor a mecânica de jogar o oponente para a tela.
Lembrando que era uma época em que havia uma disparidade clara entre consoles e arcades, e ter uma versão melhor de se jogar no console e com mais conteúdo era um exemplo raríssimo. Claro, animações foram cortadas, a qualidade do áudio é inferior e clipes de voz foram removidos, além de o cooperativo para quatro jogadores ter sido diminuído para apenas dois — o que era um bom exemplo, perante ports como Final Fight —; mas, ainda assim, é a melhor versão de Turtles in Time.
A versão de arcade original também está disponível em Teenage Mutant Ninja Turtles 3: Mutant Nightmare, de 2005, como um bônus desbloqueável nas versões de PlayStation 2, GameCube e Xbox. A emulação peca um pouco na taxa de quadros, mas é a trilha sonora que acabou sendo sacrificada por problemas de direitos autorais — seja lá quais eram. As músicas são até legais, mas não combinam tanto com a aparência do game em si. As vozes também foram todas trocadas para o elenco do desenho animado de 2003.
Entretanto, nada disso seria tão questionável quanto Teenage Mutant Ninja Turtles: Turtles in Time Re-Shelled, remake em 3D feito pela Ubisoft e lançado em 2009 para PlayStation 3 e Xbox 360. Trocando totalmente a direção de arte para algo mais monocromático, com jogabilidade pior que a do original e músicas sem graça, é uma versão que foi esquecida no tempo e totalmente fruto do início da era digital nos consoles.
O Mega Drive também recebeu Turtles in Time — ou quase isso. Teenage Mutant Ninja Turtles: The Hyperstone Heist foi lançado em 1992 e reaproveita elementos da versão para Super Nintendo, criando uma aventura nova em cima da parte de viagem no tempo. Com ótima jogabilidade, trilha sonora perfeitamente adaptada para o chip dos 16 bits e bons gráficos, é uma versão com menos conteúdo devido ao menor tamanho do cartucho, resultando em uma experiência mais curta.
Tanto essa versão quanto a de fliperama e a de Super Nintendo estão disponíveis na coletânea Teenage Mutant Ninja Turtles: The Cowabunga Collection, que está disponível para as plataformas atuais. A emulação dos jogos de 16 bits é excelente; entretanto, o original de fliperama peca na qualidade do áudio, com o volume do sintetizador FM sendo mais baixo que os samples digitalizados.
E apesar de não ser um remake ou port, podemos considerar Turtles in Time como a maior influência para Teenage Mutant Ninja Turtles: Shredder’s Revenge, desenvolvido pela Tribute Games e que se transformou em um clássico moderno. É o melhor jogo baseado nas tartarugas desde os anos 1990.
Uma aventura atemporal
35 anos depois, é curioso ver um produto licenciado como Teenage Mutant Ninja Turtles: Turtles in Time sendo referenciado como exemplo quando se fala de jogos retrô. Embora haja outros títulos divertidos nessa época, o charme, o carisma e a beleza dessa aventura atravessaram melhor o tempo. Não é à toa que se tornou o beat ‘em up definitivo de Tartarugas Ninja até o lançamento de Shredder’s Revenge. Independente da versão, a diversão é garantida.


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