Metal Slug: o início do run and gun que conquistou o mundo pelo carisma e beleza completa 30 anos

Se destacando no meio da enxurrada de jogos de luta do Neo Geo, a estreia de Marco e Tarma continua excelente.

em 28/03/2026
O Neo Geo é uma plataforma conhecida principalmente pelos seus títulos de luta. Houve outros gêneros em seus primeiros anos como jogos de esporte e beat 'em ups, mas a partir do boom das brigas um contra um, franquias como Fatal Fury, Art of Fighting, Samurai Shodown e The King of Fighters tomaram bastante espaço na biblioteca de cerca de 150 produções.


Porém, em 1996, uma outra série veio despretensiosamente e conquistou não só os fãs do fliperama e console da SNK, como até além. Desenvolvido pela Nazca Corporation e lançado em abril daquele ano, Metal Slug é um run and gun carismático, frenético e belíssimo que há 30 anos continua sendo amado pelo público, que clama por sua continuação.

Um pedigree considerável

Apesar de associarmos Metal Slug com a SNK, a série não nasceu diretamente nas mãos da rainha dos fighting games. A Nazca Corporation foi fundada por um time de ex-desenvolvedores da Irem (a criadora de R-Type), que haviam trabalhado em alguns títulos como a duologia GunForce e, com destaque, In The Hunt, shooter em que controlamos um submarino.

Um dos charmes de Metal Slug está no seu estilo artístico, desde a direção mais cartunesca até as animações fluidas, e In The Hunt é um dos maiores exemplos de assinatura da equipe de arte visual. É tão característico que basta bater o olho para perceber a gênese da franquia ali.

O desenvolvimento começou em 1995, e alguns testes públicos foram feitos no Japão. Nas versões preliminares, com imagens divulgadas na revista japonesa Gamest #151, jogaríamos com os tanques SV-001 e SV-002 exclusivamente, ainda seguindo a estrutura de fases e inimigos que acabou indo para o jogo final.

A ideia da exclusividade sobre rodas foi descartada para podermos controlar Marco e Tarma diretamente, permitindo uma maior variedade de arsenal e liberdade de movimentação. Ainda assim, os Metal Slug continuaram na aventura como veículos, sendo de grande ajuda para o poder de fogo dos heróis.

A guerra dos metais

Metal Slug narra uma clássica história de guerra entre duas facções — aqui chamadas de Exército Regular e Exército Rebelde. O primeiro luta pela paz e o combate ao terrorismo, enquanto o segundo preza por transformar o governo em uma força militar. Embates foram travados entre as duas forças, com a força Regular conseguindo sobrepujar os rebeldes com a criação dos poderosos tanques Metal Slug.

O período de conflito durou entre 2026 e 2028, o ano em que os rebeldes descobriram o depósito onde os regulares escondiam os tanques, capturando-os. Com a inversão de poderes e sem muita esperança, o capitão Marco Rossi e o tenente Tarma Roving entram em uma ação de tudo ou nada com a missão de derrotar o Exército Rebelde e recuperar (ou destruir) os Metal Slug.


Metal Slug é simples de entender para quem já experienciou um run and gun, especialmente os de fliperamas, em que um tiro é o suficiente para perdermos uma vida. Devemos passar por seis etapas repletas de inimigos dos mais diversos tipos, como soldados rasos, helicópteros, tanques e outros veículos balísticos. Ao final de cada fase temos chefes, que normalmente se destacam pelo tamanho e pelos ataques implacáveis, cortesia de todo o poder do Neo Geo.

Ao longo do trajeto, podemos achar armas novas (Heavy Machine Gun, Flame Shot, Shotgun e Rocket Launcher) com munição limitada em objetos destrutíveis, ou com os icônicos prisioneiros, que sempre nos dão algo ao serem resgatados. Ocasionalmente podemos encontrar os tanques SV-001 e SV-002 que contam com uma arma semi-automática, um canhão e uma barra de vida para ajudar na defesa.

Uma das armas mais satisfatórias dos games.
O que torna Metal Slug viciante está no seu ritmo de gameplay e em duas ferramentas importantes: a granada, que serve para dar mais dano em inimigos maiores e como um recurso de ataque em área para os soldados comuns; e os ataques corpo a corpo, em que basta apertar o botão de ataque perto de uma ameaça para começar a dar facadas. Nada de morrer ao encostar nos inimigos aqui, deixando tudo mais frenético e recompensando jogadores que se arriscam mais.

Embora seja um título indiscutivelmente desafiador, Metal Slug é justo comparado a outras produções de fliperama. Com uma boa dose de tentativa e erro — e vários créditos gastos —, é possível aprender os padrões dos desafios e passar por eles com pura habilidade, já que os controles são bons e os disparos contra nós são fáceis de visualizar em meio ao caos.

A beleza está nos detalhes

Mesmo 30 anos depois, Metal Slug é um exemplo de como se fazer uma boa pixel art. Puxando para uma arte mais cartunizada, com personagens baixinhos e veículos pequenos que nos remetem ao estilo de Akira Toriyama, os personagens exalam carisma e bom humor mesmo com a temática pesada de guerra militar.

Os gritos de pavor dos inimigos ao verem o protagonista em tela ou andando de fininho em certas ocasiões para nos pegar desprevenidos, as animações específicas como os soldados assando um frango no início da segunda fase; tudo é apresentado com um toque cômico que caracterizou a série.

Os cenários são absurdamente cheios de detalhes, com cada canto construído cuidadosamente. A segunda fase é um exemplo claro disso, em que começamos em uma estação ferroviária abandonada, passando por uma ponte num rio, passando por telhados numa base improvisada e terminando em cima de uma fábrica com um trem em movimento. Tudo isso é feito mudando terreno e background sem nenhuma pausa de transição.

Todo esse empenho técnico dá bastante peso ao todo poderoso Neo Geo, tanto por ser um jogo rodando a 30 fps quando a norma era 60 fps, quanto pelos momentos de slowdowns quando há muitas explosões e inimigos em tela. Nada que prejudique tanto — na verdade, até pode ajudar quando a situação está muito agitada.

E sim, até a parte sonora tem sua dose de carisma na obra. A trilha sonora também ajuda nesse clima mais caricato, já que não se espera uma mescla de jazz e rock com temáticas militares. A qualidade de áudio é o padrão do Neo Geo, mesclando modulação de frequência com amostras de alta fidelidade.

Os gritos e barulhos de tiro e explosões são facilmente reconhecíveis, mas o narrador é um personagem à parte nessa sinfonia. Embora tenha apenas falas simples, Metal Slug não seria o que é sem as chamadas de cada missão e o nome das armas sendo dito. O icônico “HEAVY MACHINE GUN” é proclamado até hoje por aí, na pronúncia correta ou abrasileirada — sim, eu falava “révi maxiga” quando criança.

Uma bala para cada sistema

Como várias obras lançadas para o Neo Geo MVS, a versão de arcade do sistema, Metal Slug foi disponibilizado para a versão caseira Neo Geo AES e para Neo Geo CD. Essa última contou com o modo Combat School, apresentando algumas missões extras, que esteve presente nos ports da mesma época.

Em outros consoles, tivemos ports direto para PlayStation e Sega Saturn. No console da Sony, o jogo tomou diversos cortes de animação e na qualidade do áudio, deixando vozes abafadas e um tanto distorcidas, além de loadings no meio das fases e antes de chefes, cortesia da baixa disponibilidade de memória RAM. Em compensação, os slowdowns são raros.

No 32 bits da Sega, foi portado pela própria SNK e exige o cartucho de 1MB de RAM extra. Apesar de haver alguns cortes de animação, não há loading no meio das fases, mas, ao mesmo tempo, há uma ocorrência maior de lentidão. Curiosamente, a música é tocada utilizando o próprio hardware de som do Sega Saturn, usando suas capacidades de sampling e FM numa conversão muito fiel.

Após essas versões, Metal Slug apareceu emulado em diversas coletâneas e reedições como Metal Slug Anthology, SNK Classics Vol. 1, dentro da linha Arcade Archives da Hamster, Neo Geo X e Neo Geo Mini, além do relançamento no Steam.

MISSION COMPLETE!

Com a boa recepção de Metal Slug (e do excelente jogo de golfe Neo Turf Master), a Nazca Corporation foi adquirida pela SNK e a franquia se tornou propriedade dela oficialmente, com Metal Slug 2 sendo lançado em 1998 e diversas continuações e spin-offs lançados nos anos seguintes.

Mesmo 30 anos depois, Metal Slug continua conquistando e divertindo novos jogadores, independente da entrada. Embora não seja o run and gun mais importante, está entre os mais populares por ter furado a bolha do gênero nos fliperamas e nos consoles caseiros. Esperamos que a SNK faça algo para comemorar seu trigésimo aniversário — acho que estamos mais do que preparados para uma oitava operação.


Revisão: Thomaz Farias
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Alecsander "Alec" Oliveira
Um ser que está nesse mundo dos joguinhos desde criança. Fã de games com vibe mais arcade e arqueólogo de velharias, mas não abandona experiências mais atuais. Acompanha a mídia de podcasts, dublagem e ouvinte assíduo de VGM. Pode ser encontrado como @AlecFull e semelhantes por aí.
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