Os meses que antecedem o WrestleMania sempre vêm acompanhados de expectativa: saber quem irá desafiar os campeões, qual será o combate mais emblemático e a chegada de um novo jogo da 2K.
WWE 2K26 aumenta tudo que já trouxe antes e, agora, joga seu holofote sobre o “melhor do mundo”, CM Punk. Entretanto, inflar o elenco e mascarar microtransações começa a tirar o brilho da franquia.
Tá na hora do pau!
O retorno de CM Punk à WWE, em 2023, foi cercado de mistério, dúvidas e até certo ceticismo, devido à sua saída conturbada em 2014 e à sua idade atual. Entretanto, Punk provou ainda ser uma superestrela cativante para o público, com grande capacidade de performar em alto nível, ao ponto de ser o atual campeão dos pesos pesados, título que defenderá no WrestleMania 42 contra Roman Reigns.
Para coroar sua carreira — com exceção dos anos que passou na AEW —, o Showcase traz 10 combates emblemáticos nos quais CM Punk participou, relembrando seus triunfos e mudando a história daqueles em que a vitória não veio. Um detalhe interessante é o próprio lutador aparecer no vídeo de introdução dizendo que seria possível “mudar o curso da história”, pois não queria que os jogadores tivessem que reviver suas derrotas, como aconteceu com John Cena no Showcase do 2K24 — ponto que critiquei quando o analisei também.
Além dos duelos históricos, foram incluídos outros embates “fantasia”, nos quais CM Punk enfrenta adversários que sempre admirou, mas com quem não teve a oportunidade de dividir o ringue, como Shawn Michaels, Stone Cold Steve Austin e Eddie Guerrero.
O modelo do Showcase se mantém o mesmo: cada disputa traz uma série de missões a serem cumpridas, e concluir todas elas rende recompensas, como arenas e lutadores. Agora não há mais inserção de vídeos, e as cenas da época são recriadas com os próprios modelos virtuais. O único ponto negativo, para mim, são as missões que precisam ser executadas dentro de alguns minutos. Nem sempre a inteligência artificial colabora, e falhar nos obriga a recomeçar a luta toda.
Por outro lado, uma adição interessante é o Gauntlet. Para quem não quer atravessar cada período histórico, há a opção de enfrentar todos os 20 oponentes do Showcase em ordem aleatória, um atrás do outro, em um único evento. A tarefa é árdua, mas recompensa com todos os desbloqueáveis de uma vez. Além disso, agora é possível ter confrontos entre homens e mulheres em condições de igualdade: pode-se escolher entre CM Punk ou sua esposa na vida real, a também lutadora AJ Lee.
Safanões para dar e vender
A mecânica de golpes de 2K26 ainda é um dos pontos mais fortes que a franquia se esforça para manter. Por mais que uma ou outra execução acabe parecendo esquisita, todos os finalizadores e golpes assinatura dos mais de 200 personagens disponíveis (até o momento) são reproduzidos de maneira fiel, com direito a cortes dramáticos de câmera.
Novamente, temos alguns integrantes no elenco que possuem mais de uma versão, desbloqueadas ao longo dos diversos modos de jogo, e é bacana notar as particularidades entre elas. Não se trata apenas do visual, mas também de observar como as muitas versões de CM Punk, Triple H e The Rock, por exemplo, se movem de maneira diferente — seja por causa da idade ou pela adição de novos truques ao seu arsenal. Isso só não se aplica às versões de Rey Mysterio, pois todas elas se movem como se ele ainda tivesse 20 anos de idade. Até aí, tudo bem, já que isso também acontece na vida real.
As entradas também foram recriadas de maneira impecável, e agora nós controlamos a reação do público — que pode comemorar ou vaiar — e a pirotecnia de entrada. Dependendo do evento, o momento inicial pode ser marcado por um cumprimento, uma encarada ou até uma abordagem mais selvagem, com ambos partindo para a trocação franca. Isso pode iniciar alguns minigames interessantes, nos quais os lutadores medem força e trocam posições de domínio até que um se sobressaia ou o juiz separe.
O único recurso que parece ter ficado um pouco mais difícil de acertar é o revide ao adversário. Enquanto estamos sendo atacados, um botão de reação aparecerá sobre o nosso lutador, e a precisão ao acioná-lo deve ser de um relógio suíço, o que pode ser um pouco irritante, ainda mais pelo fato do oponente sempre conseguir acertar os contra-golpes em momentos cruciais da luta.
Outro ponto-chave importante são as regras do combate. Além de poder variar entre dois e até 30 participantes (caso do Royal Rumble), há modalidades que podem parecer até meio malucas, mas são velhas conhecidas dos fãs de luta livre, como as lutas na gaiola de aço (Steel Cage) ou aqueles que permitem o uso de mesas, escadas e cadeiras (TLC). O 2K26 traz 31 tipos diferentes de combates, incluindo os inéditos: Inferno, no qual a arena é incendiada com o passar do tempo e, assim que as chamas atingem seu ápice, é necessário empurrar o adversário para fora para garantir a vitória; e o 3 Stages of Hell, que é uma luta tripartida, trazendo um trio de regras a serem usadas uma atrás a outra.
Pague para desbloquear uma maneira de desbloquear
Infelizmente, não há como citar um jogo da WWE sem mencionar as microtransações, e agora os DLCs também trouxeram uma “novidade”. Não basta comprar o passe de temporada: é necessário avançar pelo Ringside Pass para liberar uma série de recompensas gratuitas e pagas. Ou seja, o jogo te obriga a fazer grinding por algo que foi pago previamente para ser liberado de primeira.
Entendo que a ideia era aumentar o fator replay, dando um incentivo para que os jogadores passem mais tempo nos demais modos de jogo a fim de ganhar recompensas. No entanto, isso não deveria ser feito com uma expansão paga. A proposta de um passe avulso é justamente oferecer recompensas de maneira imediata, seja com o conteúdo lançado de uma vez ou em doses esparsas dentro de um calendário. O pior é que os lutadores bloqueados pertencem todos à Lucha Libre AAA Worldwide, que estreia na série — o que aumenta o apelo e a curiosidade para utilizá-los.
Para efeitos de comparação, a grosso modo, Street Fighter 6 e Tekken 8 têm passes de recompensas e temporadas de lutadores, mas um não está atrelado ao outro. Os lutadores são adquiridos de maneira avulsa ou em conjunto dentro do Season Pass, enquanto o passe cosmético é vendido para quem deseja incrementar seu inventário com recompensas pagas, liberadas conforme o progresso em combates online e offline. O que acontece em 2K26 é exatamente o oposto.
Ainda no quesito gastar dinheiro, esbarramos novamente nos inconvenientes do The Island e do MyFaction. O primeiro é o conceito de mundo aberto que a WWE 2K trouxe no jogo passado e que agora abandona a temática em torno de Roman Reigns, focando em três facções lideradas por Cody Rhodes, CM Punk e Rhea Ripley, respectivamente. Infelizmente, é o modo de menor apelo, pois além de reaproveitar 90% do layout de 2K25, apresenta um amontoado de lutas aleatórias que desbloqueiam itens cosméticos e alguns novos integrantes para a extensa lista de superestrelas.
Já o MyFaction é descaradamente mais do mesmo, apostando no conceito de montar sua facção com base em cartinhas. Para ter a chance de ter cartas melhores, é necessário fazer um grind enorme nos desafios semanais e diários, além de comprar VC — a moeda do jogo — para abrir pacotinhos e tentar a sorte. Algo que deixou descontente é que algumas personas estão presas nesse modo, como a versão de “bonequinho” de lutadores como Jacob Fatu e Rhea Ripley.
Esses, pelo menos, são desbloqueados ao superar desafios. Mas há outros, como o icônico demônio Bray Wyatt, que exige a união de cartas de itens específicos. Como se não bastasse a aleatoriedade do conteúdo dos pacotes, é possível tirar exemplares repetidos, o que torna o desbloqueio desnecessariamente longo.
É triste ver como dois modos que poderiam render muito, principalmente no online, perdem apelo por causa de uma estrutura mal executada e do foco exagerado nas microtransações para obter vantagens sobre os demais jogadores.
Quanto aos demais modos de jogo — Universe, MyRyse e MyGM —, eles mantiveram a mesma estrutura, mas agora de maneira mais positiva. O Universe nos coloca como chefes de operações de toda a WWE, e o calendário anual de eventos está em nossas mãos. Além de organizar eventos e parear lutas, podemos escolher quando ocorrerão alguns acontecimentos pessoais, como o vencedor do Money in the Bank invadir uma disputa de cinturão para utilizar seu contrato direto — sempre um momento de destaque esperado ao longo do ano.
O MyRyse regrediu levemente do ponto de vista narrativo. Nele, criamos um avatar que será o foco principal de uma história dentro da estrutura já existente da WWE. Agora, independente de criarmos um personagem masculino ou feminino, a história é a mesma. Batizada de The Comeback, protagonizamos uma jornada de retorno aos holofotes após alguns anos afastados da lona. As missões ainda apresentam opções que levam a consequências variadas, como ser adorado ou odiado pelo público. Só que, desta vez, o caminho parece mais inflado, com combates contra personagens aleatórios totalmente dispensáveis. MyRyse deu uma leve regredida, do ponto de vista narrativo. Nele, nós criamos um avatar que será o foco principal de uma história dentro de toda a estrutura já existente da WWE. Agora, independente de criarmos um personagem masculino ou feminino, a história é a mesma. Batizada de The Comeback, protagonizamos uma jornada de retorno aos holofotes após alguns anos afastados da lona. As missões ainda apresentam opções que levam a consequências variadas, como ser adorado ou odiado pelo público. Só que dessa vez parece que o caminho ficou um pouco mais inflado com alguns combates com personagens aleatórios que são totalmente dispensáveis.
Por fim, mais uma vez o MyGM foi o modo que mais evoluiu. É possível fechar uma disputa com até três participantes adicionais, seja online ou controlados pela IA, para ver quem é o melhor gerente. Estão disponíveis lendas como Teddy Long, Mick Foley, William Regal e Paul Heyman, entre outros, que emprestaram sua mentalidade para liderar uma das franquias da WWE na audiência. Este modo é voltado para quem gosta da parte técnica: montar shows, avaliar custos e riscos e trabalhar nos bastidores. Claro que é possível lutar de verdade em cada evento ou apenas deixar o resultado ser simulado, mas o que importa, no fim das contas, é o lucro e a popularidade obtidos.
E, como em toda análise que faço desta franquia, vale salientar que fica cada vez mais gritante a falta de textos em português. Já temos transmissão oficial na nossa língua há algum tempo, então não custaria nada tornar a parte escrita mais compreensível para quem não domina o inglês.
Tá na hora de começar a mudar algumas coisas, se quiser se manter no topo do mundo
Chegamos a um ponto em que a excelência da franquia, em termos de jogabilidade, é inquestionável, e WWE 2K26 consolida isso mais uma vez de maneira impecável. Além disso, os modos de jogo — principalmente o Showcase e o MyGM — trazem experiências muito bacanas para conhecer mais sobre a história das superestrelas e a estrutura dos shows.
Entretanto, a insistência das microtransações e a maneira como o DLC pago foi implementado em um sistema de desbloqueio dentro do jogo representam um retrocesso. Isso afeta diretamente um dos principais chamarizes da série: seu extenso elenco, que intercala estrelas atuais e lendas de várias décadas. Além disso, já passou da hora de renovar, ou até descartar, o modelo do MyFaction, substituindo-o por algo mais atrativo e focado nos fãs de luta livre.
Prós
- A jogabilidade continua afiada e fluida;
- Mais de 30 tipos de regras diferentes para combates épicos;
- Elenco extenso, com visuais, entradas e movimentos especiais reproduzidos de maneira competente;
- Showcase, como sempre, dando um show de história, e a adição do Gauntlet foi bem pensada;
- MyGM oferece ainda mais opções e disputas online.
Contras
- O tempo de reação para acertar um revide exige precisão sobre-humana;
- Colocar uma expansão paga para ser desbloqueada em um passe dentro do jogo foi uma decisão, no mínimo, horrorosa;
- The Island mantém o ritmo insosso do título anterior;
- My Faction é simplesmente mais do mesmo e só serve para atrasar o desbloqueio de personagens;
- Para variar, ausência de texto em português.
WWE 2K26 — PC/PS5/XSX — Nota: 7.5Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Mariana Marçal
Análise feita com cópia digital cedida pela 2K















