Menos para contar mais
Lana e Mui seguem inseparáveis nessa nova jornada. A aventura começa com a exploração de ruínas de um passado ainda mais antigo, próximas de casa. Logo nos primeiros momentos, somos apresentados a uma criança, quase como uma irmã mais nova, que passa a nos acompanhar.
Ao deixarem a caverna, o céu revela naves pairando nas proximidades da aldeia. Em meio à tensão, a menina se afasta por um instante e acaba sendo contaminada por uma fumaça que emana de uma pedra misteriosa. Nossa missão, agora, é salvá-la.
A partir daí, a narrativa assume um novo eixo. Enquanto buscamos os ingredientes para preparar um remédio capaz de curá-la, desenrola-se, em paralelo, uma história maior sobre o avanço das máquinas contra a natureza, destruindo tudo o que encontram pelo caminho. À primeira vista, essas duas tramas parecem caminhar separadas. No entanto, quando finalmente se entrelaçam, o jogo ganha uma força narrativa surpreendente e profundamente tocante. Lana quer salvar sua irmã, proteger sua família, mas entende que não pode ignorar a ameaça que coloca em risco não apenas sua tribo, mas todo o seu mundo.
Assim como no primeiro jogo, o impacto emocional aqui é mais sentido do que plenamente explicado. A língua falada e escrita permanece indecifrável, mas gestos, entonações e expressões transmitem exatamente o que precisamos compreender, reforçados por ilustrações simbólicas que ampliam o contexto. Ainda que alguns momentos mais introspectivos, como diálogos um pouco mais longos, não alcancem todo o peso que poderiam, as grandes viradas e cenas mais intensas compensam com um impacto emocional ainda mais poderoso.
Avance contra os obstáculos
Assim como no primeiro jogo, avançar significa observar, planejar e agir no momento certo. O confronto direto raramente é uma opção: Lana é vulnerável, e qualquer erro pode ser fatal. A introdução na caverna estabelece bem esse ritmo. Ali, aprendemos a usar a luz para afastar criaturas sombrias que espreitam na escuridão. Embora a sequência seja um pouco mais longa do que o necessário, ela cumpre bem o papel de ensinar, de forma orgânica, a lógica que guiará o restante da aventura.
Os puzzles variam em complexidade, e alguns exigem uma coordenação precisa entre Lana e Mui. Seja para acionar uma alavanca, distrair ou incapacitar, por alguns momentos, um inimigo; sobrecarregar uma fonte de energia; ou até controlar alguns animais, como um peixinho, as mecânicas envolvendo Mui ampliam as possibilidades da jogabilidade. Essa parceria continua sendo o coração do jogo: há um frescor constante nas interações, que evita a sensação de repetição.
Por outro lado, as seções subaquáticas são as que mais testam a paciência do jogador. Há duas fases com forte presença de exploração debaixo d’água e, como Mui não pode nadar, é preciso encontrar soluções alternativas para avançar com ela. O problema é que essas sequências não apresentam variações significativas nos desafios, o que torna os trechos focados apenas em natação um pouco arrastados.
O jogo também apresenta duas sequências de “chefes” bastante interessantes. Elas reaproveitam e combinam elementos aprendidos ao longo da campanha — como comandar robôs com a ajuda de Mui, se esconder e esperar o momento certo para agir —, criando confrontos mais tensos e estratégicos do que parecem à primeira vista.
Mesmo com a narrativa como principal motor da experiência, a jogabilidade é cuidadosamente construída para evitar frustrações excessivas. Falhar faz parte do processo, mas os checkpoints são justos, e o aprendizado é constante. Coordenar Lana e Mui continua sendo satisfatório, especialmente na resolução dos puzzles mais complexos. Ainda que a fórmula pareça segura e pouco ousada em certos momentos, ela permanece eficiente, desafiando o jogador a raciocinar e executar com precisão em praticamente todas as fases.
Lindo e compreensível
Planet of Lana II eleva o nível artístico já estabelecido pelo primeiro jogo. A direção de arte está ainda mais refinada, com cenários repletos de detalhes e enquadramentos que abraçam um tom mais cinematográfico. A natureza é vibrante e viva, marcada por florestas verdes e paisagens amplas, enquanto o avanço das máquinas traz tons acinzentados e frios, que contrastam com esse mundo orgânico.
Esse cuidado visual é essencial em um jogo cuja linguagem falada não é compreensível para o jogador. Aqui, a narrativa também é construída pelo ambiente. Pequenos detalhes contam histórias: a forma como a tribo organiza suas moradias; a arquitetura de uma cidade abandonada; os vestígios deixados pelas máquinas. Tudo comunica algo, mesmo em silêncio.
A trilha sonora acompanha essa proposta com delicadeza. Integra-se de maneira íntima à narrativa, reforçando emoções sem sobrecarregar as cenas. Pode não ser composta por temas grandiosos ou imediatamente memoráveis, mas cumpre seu papel com sensibilidade, ampliando o impacto dos momentos mais contemplativos e intensos da jornada.
Vale a pena?
Para quem já conhece o primeiro jogo, a recomendação é imediata. Coordenar Lana e Mui nunca foi tão prazeroso: os puzzles atingem um nível de desafio equilibrado, estimulam o raciocínio sem se tornarem frustrantes, e a narrativa entrega momentos impactantes, especialmente em suas reviravoltas mais emocionais.
Para novos jogadores, se você aprecia aventuras sensíveis, com forte identidade visual e foco em atmosfera, vale a pena conhecer Planet of Lana.
Prós
- A narrativa é envolvente e impactante, especialmente nas reviravoltas;
- Os puzzles são desafiadores e funcionam muito bem;
- Coordenar Lana e Mui está ainda mais divertido;
- A direção artística é belíssima e rica em detalhes;
- A trilha sonora complementa os momentos com sensibilidade.
Contras
- As fases com muitos trechos subaquáticos podem se tornar arrastadas demais;
- A introdução é um pouco longa;
- A ausência de diálogos compreensíveis pode enfraquecer alguns momentos mais delicados da narrativa.
Planet of Lana II: Children of the Leaf — PC/PS4/PS5/XBO/XSX/Switch — Nota: 8.5Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela Thunderful



