O primeiro parágrafo desta análise de New Super Lucky’s Tale é o mais importante. Podemos resumir da seguinte maneira: é um bom jogo de plataforma 3D, por vezes excelente, mas também dotado de limitações que seu mais novo port desaponta por não aproveitar a oportunidade de saná-las.
Apesar do tom crítico deste texto, é preciso enfatizar que eu gostei bastante do jogo e que o recomendo para qualquer entusiasta do gênero que ainda não tenha experimentado a aventura da raposinha Lucky, ou mesmo para aqueles que querem oferecê-lo a uma criança como uma experiência lúdica e cativante
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Nova plataforma, mesmo jogo
New Super Lucky’s Tale é um daqueles casos de desenvolvedora persistente. Quando foi primeiro lançando apenas para Xbox One, em 2017, o então intitulado Super Lucky’s Tale teve recepção morna. Ele havia sido publicado pela própria Microsoft. A sua criadora Playlab encarou as críticas e deu uma grande revisada em seu jogo, melhorando-o em diversos aspectos para publicá-lo mais uma vez por conta própria.
O relançamento em 2019 chegou primeiro para o Switch e ganhou o “New” do título. Ainda que, no fundo, seja o mesmo jogo, veio com uma nova e melhor experiência, o que foi refletido pela também melhor recepção da crítica. As modificações incluíam visuais mais elaborados, animações diferentes (a raposinha Lucky, que corria sobre quatro patas, passou a correr sobre duas), ajustes no design de níveis e em dois pontos importantíssimos para o gênero de plataforma 3D: controles e câmera.
Os conteúdos de expansão foram incorporados à aventura, tornando seu retorno bastante completo. Em 2020, o Xbox One e o PS4 ganharam suas versões da aventura de Lucky.
O que está sob análise agora é apenas um port para PS5, quase uma década após a estreia. Trata-se do mesmo jogo reformulado de 2020, então, se você já jogou, já viu tudo o que este relançamento tem a oferecer.
É bom deixar avisado que o upgrade de quem já tem a cópia de PS4 para a de PS5 é pago (custa 4.99 dólares, mas não tenho como saber o preço brasileiro) e o arquivo de salvamento pode ser importado. Como não tenho acesso à versão de PS4, não posso fazer uma comparação direta, mas fiquei com a sensação de que não houve melhoria gráfica além do básico de resolução e performance.
Um dos motivos é como logo no início vemos algumas limitações, como o upscale apenas razoável das ilustrações que narram o prólogo, pop in de elementos distantes, locais onde os pés de Lucky não tocam o chão e inimigos que parecem existir em uma taxa de quadros por segundo abaixo da do protagonista.
Longe de serem problemas reais, esses pontos mencionados são, na pior das hipóteses, distrações desagradáveis. A questão é que não deixo de sentir que, para um port lançado cinco anos depois, foi desperdiçada a oportunidade de polir esse tipo de detalhes, frutos prováveis do fato de o primeiro New ter sido feito diretamente para o Switch. Tais limitações deveriam ter ficado no passado e seu conserto serviria de justificativa para o port.
Um ponto que realmente poderia ter mudado é que não temos como pular as cenas da história, as de introdução às fases e os diálogos, mesmo quando já os vimos antes.
Entre as novidades técnicas anunciadas está o uso dos recursos do Dualsense. É agradável sentir a vibração discreta quando escavamos e batemos por aí, mas não é algo particularmente elaborado ou que mereça destaque.
Portanto, a principal diferença é manter a resolução de 4K a 120fps, enquanto a versão de PS4 Pro performa a 60fps e tem retrocompatibilidade com o console atual da Sony. Não creio que justifique um upgrade pago para quem já tem o de PS4, mas, para quem não o tem, o preço no PS5 é o mesmo, garantindo ser a escolha certa para a aquisição.
A história de Lucky
A jornada nos coloca na pele de Lucky, uma jovem raposa da linhagem dos Guardiões do Livro das Eras. O gato Jinx e sua Ninhada de felinos querem roubá-la, mas acabam sendo sugados para diferentes mundos junto com o pobre Lucky. Agora, o pequeno heroi terá que reunir as páginas do livro que foram espalhadas e retornar a seu próprio mundo, onde ficou sua irmã.
É uma história básica de desenho animado, mas contada de forma leve e cômica. Tanto eu quanto meus filhos gostamos das piadas bobas e das gracinhas da localização para português brasileiro. A introdução até faz parecer que há algo muito grave acontecendo, mas o tom da história não é nada apocalíptico, os NPCs não parecem desesperados e os vilões da Ninhada são mais excêntricos e sem noção do que malignos de verdade.
Essa abordagem suave e ingênua combina com os visuais fofos e coloridos e o design lúdico dos personagens, fazendo com que a experiência como um todo seja muito agradável e convidativa. Lucky dispõe até de uma loja de roupas para comprar novos visuais.
Já na gameplay, temos um repertório pequeno mas suficiente de movimentos, como o pulo duplo, o golpe de cauda, a pancada no chão e a escavação para passar por baixo de obstáculos. Não é muito, mas funciona de forma precisa, com uma boa sensação de controle espacial que é reforçada pela câmera eficiente.
Os seis mundos de temas diferentes passam por uma boa variedade de níveis: há fases tridimensionais lineares ou com objetivos de exploração, assim como algumas de plataforma 2D de rolagem lateral e umas poucas de corrida automática. Para completar, encontramos fases com puzzles de empurrar estátuas e alguns minigames diversos. Dessa forma, o ritmo da campanha flui sem problemas, excessos ou prolongamentos desnecessários.
Para progredir, é preciso conseguir um número mínimo de colecionáveis de cada mundo, as Páginas do Livro das Eras. Cada fase principal tem quatro delas: uma por chegar ao final, uma secreta, uma por reunir as cinco letras do nome Lucky e, ainda, uma por coletar 300 moedas (as fases chegam a ter mais de 700 moedas). As fases de empurrar estátuas e de minigames dão uma Página.
Os requisitos para desbloquear o chefão local são tão baixos que nem é preciso jogar todas as fases para alcançá-los, mas elas são tão agradáveis e bem-feitinhas que fiz questão de completar tudo, rejogando os níveis quando necessário.
Nada que seja muito grave
O que não combina com o restante é o ultrapassado sistema de vidas limitadas: perder todas elas obriga a recomeçar a fase. No entanto, é bem difícil que isso aconteça, pois cada uma das cinco vidas é dotada de três pontos de saúde.
Alternando o controle com meu filho de sete anos, morremos algumas vezes, mas o total de vidas acumulou às dezenas. No final, esse é um design obsoleto que só serve para prejudicar quem mais precisa de ajuda, como as crianças muito pequenas e as outras pessoas que não têm manejo de plataforma 3D.
Vale dizer que os checkpoints nem sempre são consistentes. Eles funcionam muito bem nas fases lineares, porém, nas que envolvem exploração de ambientes amplos, muitas vezes fui jogado de volta a um ponto de salvamento mais distante, mesmo havendo outro próximo. Aconteceu até que eu tinha acabado de passar por um deles, mas, ao cair na água, reapareci na saída de uma sala de bônus lá atrás, que também ativa o salvamento.
A dificuldade em geral é baixa, embora algumas letras e quebra-cabeças de empurrar estátuas tenham me dado bastante trabalho. Meu filho foi capaz de passar da maioria dos chefes de primeira, mas deixou passar várias páginas do livro, de forma que a tarefa de completar o que ele deixou para trás coube a mim.
Não penso nisso como um demérito, uma vez que o design de níveis é variado, interessante e divertido, fazendo com que a jornada não dependa de alto desafio para alcançar grande qualidade.
A velha nova história de Lucky
Após seis anos desde seu primeiro lançamento, New Super Lucky Tale permanece um divertido e dinâmico jogo de plataforma 3D. No entanto, sua atual chegada ao PS5 mostra-se uma oportunidade desperdiçada de aparar as antigas arestas, sem aproveitar a capacidade de aprimoramento que justificasse o port. Essa versão é certamente recomendável a quem nunca o jogou, mas, para quem já o tem no PS4, o upgrade pago não tem novidades relevantes para uma nova incursão naquele mundo.
Prós
- Ambientação fofa e cômica;
- Boa variedade de tipos de fases;
- Divertido de passar, um pouco de desafiador de completar;
- Textos em português brasileiro.
Contras
- As melhorias visuais no PS5 são superficiais, tratando de resolução e performance sem alterar limitações das versões antigas;
- A facilidade pode desagradar a quem espera maiores desafios;
- Checkpoints inconsistentes;
- Cenas e diálogos não podem ser pulados.
New Super Lucky’s Tale — PC/PS5/XSX/XBO/Switch — Nota: 8.0Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pela Playful Studios















