A franquia Monster Hunter, ao longo dos anos, começou a fazer um sucesso sem precedentes; logo era comum que surgissem jogos que fugissem da linha principal, e o que mais se destaca é o spin-off que aposta no gênero de RPG por turnos, Monster Hunter Stories. O seu diferencial é que jogamos no papel de um montador, uma pessoa que luta ao lado de seus parceiros Monsties.
Após dois títulos que fizeram sucesso, Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection chega prometendo ser o auge da franquia e posso adiantar que a obra melhora vários pontos, como seu combate por turnos, sua exploração e sua campanha principal, mas também ainda tropeça em alguns problemas novos e antigos.
Dois reinos em conflito e a esperança além do horizonte
Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection nos coloca em uma narrativa mais madura no controle do príncipe (ou princesa) da nação de Azúria, um reino que vive isolado do mundo exterior, ao qual chamam de terras proibidas. Ele faz divisa com a nação de Vermeil, com a qual não tem uma boa relação, devido a um incidente envolvendo o nascimento de dois Rathalos gêmeos que são considerados um sinal de mau presságio.
A situação se agrava com a proliferação de uma praga chamada cristalização, que está deixando os monstros extremamente agressivos e destruindo os locais por onde ela passa, deixando o solo inutilizável. O reino de Vermeil está passando por isso. Tendo em mente essa situação crítica, a Rainha da nação é inclinada a iniciar uma guerra total contra Azúria em busca de terras melhores, mesmo que a princesa, sua irmã mais nova, Eleanor, seja contra isso.
Para impedir isso, resta ao jovem herdeiro do trono, seu Rathalos especial apelidado de Ratha e seu grupo de amigos Patrulheiros avançar além da fronteira adentrando as terras proibidas para buscar respostas sobre como impedir a cristalização, assim evitando uma guerra que vai destruir ambas as nações. Durante o caminho, também descobrem vários mistérios, como por que chamam a região de terras proibidas.
Como comentei, o enredo aposta em uma abordagem mais séria ao trazer personagens já adultos em um cenário de guerra e um herói que tem de lidar com o peso disso. Ela também dá voz ao protagonista, que nos títulos anteriores era mudo, tornando a experiência bem mais agradável e cinematográfica, tendo vários momentos emocionantes e impactantes. Surpreendi-me com a aventura vivida por ele e achei seus amigos carismáticos.
Entretanto, a trama ainda tropeça em conveniências e momentos previsíveis durante a jornada. Ela também não soube trabalhar bem seus antagonistas e o relacionamento do herói com seu companheiro escamoso, o Ratha. Acaba que eles quase não têm momentos tão emocionantes ou interações que demonstrem que são amigos de longa data, já que o príncipe o tem desde criança.
Ainda focando na realeza, o título apresenta uma customização farta, podendo mudar cabelo, acessórios, sexo, cor das armaduras e tonalidade da pele a qualquer momento em baús localizados nas bases dos patrulheiros. Mas achei que existem poucas opções de cabelos masculinos disponíveis.
Por fim, o ponto que mais me surpreendeu durante a narrativa foi a mecânica de recuperação de ecossistemas; ela agrega tanto o enredo quanto a jogabilidade. Seu funcionamento é simples: capturamos os ovos de feras direto de seus ninhos espalhados pelo mapa, criamos e os soltamos na natureza. Esse ato fortalece os seres da região, fazendo com que eles se multipliquem e, dependendo do local, faz com que herdem características como ter afinidade com água, fogo, dragão ou raio. Além de ser uma excelente novidade para a jogabilidade, ela tem um papel crucial na narrativa, reforçando a diferença existente entre os montadores e os clássicos caçadores da franquia.
Monsties e montadores
Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection é um RPG por turnos com confrontos rápidos, intensos e um pouco complexos para se dominar. Nas brigas vamos ter quatro membros na nossa equipe: o protagonista, seu Monstie, que é a forma como os montadores diferenciam seus companheiros escamosos das demais feras, um de seus amigos e a criatura dele.
Na hora de escolher os ataques, é quando nos deparamos com um sistema similar ao pedra, papel e tesoura — utilizamos força, velocidade e técnica, cada uma com suas vantagens e desvantagens. Por exemplo, a força perde para a velocidade, mas vence a técnica. Esse sistema está presente desde os primórdios da série, mas aqui senti que ele está mais intuitivo graças a um tutorial mais robusto no início do jogo e o fato de estar totalmente legendado em português.
Tanto o aliado quanto sua fera não são controláveis. Podemos, no máximo, dar algumas ordens ao Monstie, mas seu parceiro Humano luta de forma autônoma, seguindo seus instintos. Também é possível realizar um ataque conjunto poderoso junto da besta, ao carregar uma barra especial, e também foi adicionado um golpe sincronizado feito com todos os membros do grupo após exaurir a barra de estamina dos adversários. Cada uma tem seu próprio especial, todos são muito bem animados, criativos e extravagantes. Já o golpe sincronizado é muito útil para provocar muito dano.
As brigas se tornam complexas devido ao fato de os inimigos terem mais de um padrão de movimento; sendo assim, eles podem começar na postura de força e, ao ficar irritados, mudar para velocidade. Para “melhorar” a situação, graças à cristalização, alguns adversários possuem poderes elementais adicionais. Essa novidade deixou embates mais imprevisíveis e difíceis, tornando-os menos monótonos, porém longos.
Mas, para contornar isso, existe a opção de acabar com os conflitos instantaneamente apertando R3+L3, mas, para isso ocorrer, é necessário estar em um nível mais alto que o adversário e também acrescenta a possibilidade de derrotar feras sem entrar em confronto com elas, atacando-as sem que percebam. São ótimas funcionalidades para evitar repetição, mas, como todo RPG por turnos, inevitavelmente, uma hora eles ficam um pouco repetitivos. Isso é reforçado por outros fatores, como uma baixa variedade de armas.
Temos disponíveis martelo, arco, lança, espadão, berrante de caça e a espada longa que chega como algo inédito para o spin-off. Entretanto, embora ela seja muito divertida de usar, não justifica terem removido a espada e escudo, além de que só adicionar uma ferramenta nova não é o suficiente, principalmente para jogadores mais antigos já acostumados com elas. Poderiam ter trazido, por exemplo, ferramentas como Glaive inseto ou lâmina dínamo para diversificar mais o arsenal.
Ao menos adicionaram novos golpes para cada uma delas. Outro elemento de que senti falta foi um modo online, característica que existia nos dois Stories anteriores. A presença desse modo fazia com que o game recebesse vários monstrengos novos e era muito divertido explorar masmorras com os amigos em missões com até dois jogadores.
Os patrulheiros
Como já citado, o Príncipe não irá explorar as terras proibidas sozinho, ele conta com seus Patrulheiros. O grupo é formado por Kora, Gaul, Simon, Rudy, Eleanor, Thea, Rudy e Ogden; cada um possui visuais chamativos e personalidades bem diferentes. Acabei me apegando à maioria deles, principalmente por agora eles terem missões pessoais chamadas Arcos, que, além de aprofundá-los, liberam armas novas e habilidades para eles.Graças à adição de um arsenal maior de ferramentas, os aliados se tornam muito mais versáteis nos embates, podendo curar o herdeiro do reino e armar armadilhas para atrasar os monstrengos. Cada membro possui um estilo próprio de luta; por exemplo, Gaul é especialista em provocar debuffs nos inimigos e curar o herói. Devido a isso, é necessário estudar suas características com atenção para conseguir usá-los ao máximo.
Entretanto, os aliados ainda cometem alguns erros já vistos em Monster Hunter Stories 2, como errar ataques ou usar golpes especiais em momentos errados, o que pode atrapalhar alguns embates, mas não estraga a experiência e acontece bem menos vezes do que comparado ao título anterior. Infelizmente, alguns membros do grupo não tiveram suas histórias tão bem desenvolvidas como a novata da equipe, Thea.
Ela até tem uma missão que começa interessante, com um objetivo de encontrar um quarteto de porquinhos que está causando confusão, mas ao longo do tempo a missão ficou bem desinteressante. Senti que faltou desenvolver um pouco mais do passado da personagem. Destaco também que Eleanor consegue cozinhar na base; cada prato gera bônus diferentes, como receber pontos de experiência extras, o que é uma mecânica útil e está relacionada à trama pessoal da personagem, o que a enriquece.
O mundo escondido além da fronteira
A exploração em Twisted Reflection é um dos pontos de maior destaque; ela é rápida e dinâmica graças a mudanças bem-vindas à série, como uma roda de Monsties que surge ao segurar um botão, permitindo alternar a qualquer momento entre eles. Com essa mudança, fazer ações como escalar e voar se facilita; antes era necessário abrir um menu para fazer essa troca, tornando tudo muito demorado.Além da nova mecânica, é perceptível como a decisão de não ser mais um jogo temporariamente exclusivo dos portáteis da Nintendo fez bem. Ele não se tornou um mundo aberto, mas as regiões disponíveis são maiores e densas, com cidades lotadas de NPCs conversando entre si, ouvindo músicas e dançando, passando a sensação de que o local é vivo.
A direção artística se manteve similar à vista em seus antecessores, apostando em ambientes coloridos que sempre transpiram vida apenas de olhar para eles, mas achei que nessa sequência ela se supera, conseguindo transmitir várias sensações dependendo do local, como grandeza, melancolia e solidão.
Como um bom RPG, existem várias atividades para se fazer; algumas das mais importantes são missões secundárias, baús para coletar e ninhos de bestas para explorar. Corretamente, as missões secundárias continuam tendo tramas desinteressantes com objetivos que podem acabar se tornando monótonos, mas pelo menos recompensam o jogador com recursos e principalmente bastante XP.
O ciclo de dia e noite recebeu novidades interessantes; para alternar entre os horários, ainda é necessário ir a um acampamento ou ponto de viagem rápida. As noites agora trazem feras diferentes chamadas de invasores, que entregam batalhas árduas e recompensam com ovos cristalizados de criaturas ameaçadas de extinção. Quando resgatados, liberam um nova espécie na região. A mudança me agradou bastante, tanto por entregar um desafio a mais em confrontos quanto pela forma diferente de liberar nos monstrengos.
Outra atividade que veio junto dos invasores são eventos aleatórios que acontecem. O que tem maior destaque é que, após derrotar alguns inimigos durante o período noturno, irá surgir um dragão ancião na região. Eles são inimigos muito fortes, mas recompensam com melhorias permanentes para o grupo e com as partes do seu corpo é possível fazer equipamentos muito fortes.
A lista de monstros existentes aumentou; temos alguns rostos clássicos como Tobi-Kadachi, Rathian e Anjanath, mas a novidade é a presença de criaturas de Monster Hunter Wilds e Rise: Sunbreak. Sendo assim, garotos-propaganda como Malzeno, Magnamalo e Rey Dau estão disponíveis. Mais do que isso, graças à mudança nos gráficos, eles estão mais detalhados, sendo possível ver pelagem e escamas, como também maiores.
Infelizmente, alguns outros conhecidos ficaram de fora, como Gore Magala, e outros de Wilds, como Uth Duna e La La Harima, que se encaixariam bem na obra, não estão presentes. Isso é uma pena, pois existem poucos aracnídeos e leviatãs disponíveis. A obra traz três modos no PlayStation 5: desempenho, fidelidade e equilibrado. Testei os três, e sinceramente não consegui ver lá muitas diferenças entre eles.
Jogando bingo com genes
Além das brigas, a obra traz um sistema de genes, em que é possível pegar características de um Monstie e passar para outro, deixando-o ainda mais forte. Por exemplo, poderia pegar o ataque bola de fogo de um Rathalos e passar para uma Legiana, um réptil de gelo. Esse sistema é uma marca registrada na série e ele volta bem mais simplificado.Em Monster Hunter Stories 2, após trocar um ataque, o Monstrie era “sacrificado”, o que prejudicava o jogador. Agora, isso não ocorre mais, tornando bem menos punitiva a prática. Mais do que apenas trocar os genes, é possível dar sinergia entre eles, alinhando três do mesmo tipo em uma linha horizontal ou vertical. Sendo assim, se combinar três ataques de fogos na mesma coluna, vou ter bônus do elemento. É essencial usar esse sistema para maximizar o poder da fera.
O RPG de monstros chegou ao auge
Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection conseguiu chegar ao seu auge entregando um enredo mais maduro ambientado em um clima de guerra no controle de um protagonista totalmente personalizável, personagens carismáticos, um combate mais desafiador e uma evolução nos gráficos e na sua direção de arte. Tornando essa sequência uma verdadeira carta de amor da Capcom aos seus fãs.
Entretanto, ele ainda tropeça em alguns problemas, como não trazer um arsenal de armas mais vasto, limitando-se apenas a adicionar a lâmina longa ao custo de remover espada e escudo, o que não considero uma troca tão justa, visto que o ideal seria adicionar mais armas e deixar de lado o modo online, que sempre esteve na franquia e garantia atualizações constantes com novos eventos e criaturas.
Prós
- Recuperação de ecossistemas é uma excelente mecânica;
- O elenco de monstros conta com rostos conhecidos e novos, vindos diretamente de Rise e Wilds;
- História mais madura, abordando temas como guerra e trazendo um personagem principal com voz, tornando a narrativa mais agradável;
- Combate mais desafiador e intuitivo, com opções para torná-lo menos repetitivo a longo prazo;
- Os Patrulheiros são companheiros carismáticos e úteis nas batalhas;
- Legendas em português, muito bem feitas.
Contras
- Pouca variedade de armas;
- As missões secundárias entregam ótimas recompensas, mas suas tramas continuam muito desinteressantes e monótonas;
- A falta de um modo online.
Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection — PS5/PC/XSX/SWITCH 2 — Nota: 9.0Versão usada para análise: PlayStation 5
Revisão: Vitor Tibério
Análise produzida com cópia digital cedida pela Capcom

















