Como todo bom RPG
A história se passa na cidade de Norvik em meio a tensões sociais e transformações políticas. Poucos dias antes da primeira eleição democrática da cidade, uma explosão destrói uma casa de chá em território goblin. O incidente parece um caso isolado à primeira vista, mas como todo bom RPG, se transforma em uma conspiração que envolve facções, rivalidades e interesses políticos.
Comparando com outros jogos relativamente famosos, a proposta do jogo é bastante parecida com Disco Elysium ao colocar diálogos, decisões e interpretação de personagem no centro da experiência, porém a maneira mais fácil de definir Esoteric Ebb acredito que seria a de ler um livro com esquizofrenia (percepção confirmada com uma amiga que vive com a doença).
Artístico de muitas maneiras
O game adota uma perspectiva isométrica, com os cenários construídos com arte pintada à mão e estilo visual que mistura fantasia sombria com elementos urbanos. A cidade de Norvik representa bem a identidade e estética singular pensadas pelo desenvolvedor. Os personagens também recebem tratamento artístico cuidadoso. Cada NPC importante (é até os nem tão importantes) é cuidadosamente detalhado com artes que destacam personalidade, humor e intenções. Essa abordagem ajuda a dar peso às interações, algo fundamental em um título cuja base são os diálogos.
A trilha sonora acompanha essa atmosfera com composições que alternam entre tons melancólicos, misteriosos e ocasionalmente excêntricos, ficando de acordo com o universo peculiar criado pelo genial Christoffer Bodegård.
O enredo se desenvolve ao longo de cinco dias dentro do universo do jogo, período que antecede a primeira eleição democrática da cidade. Esse evento funciona como uma espécie de relógio, e dita o ritmo e cria sensação constante de urgência.
Norvik é apresentada como uma sociedade que tenta se reinventar após a queda de antigas aristocracias mágicas e instituições religiosas. Com os deuses aparentemente desaparecidos e os velhos sistemas de poder enfraquecidos, diferentes grupos disputam influência sobre o futuro político da cidade.
Praticamente todas as conversas carregam algum tipo de subtexto social ou ideológico, transformando diálogos aparentemente simples em debates complexos. Além disso, o mundo combina elementos absurdos e fantásticos com criaturas mitológicas que convivem com cidadãos comuns, enquanto magia e tecnologia coexistem.
Essencialmente um RPG
Assim como em muitos RPGs atuais que tentam de algum jeito emular uma campanha de mesa, grande parte das ações em Esoteric Ebb depende de testes baseados em rolagens de dados. Cada tentativa de persuadir um NPC, investigar uma pista ou resistir a uma situação perigosa envolve cálculos que combinam atributos do personagem com o resultado de dados virtuais.
As vozes na minha cabeça
Uma das mecânicas mais interessantes está na forma como os atributos do protagonista são representados. Em vez de números, eles funcionam como vozes internas que comentam decisões e oferecem sugestões. Dependendo da configuração do personagem, essas vozes podem entrar em conflito, criando debates internos antes mesmo que o jogador escolha uma resposta em um diálogo. Esse recurso transforma a construção do personagem em algo muito mais narrativo do que puramente mecânico. Foram incontáveis as vezes em que a conversa comigo mesmo foi mais longa que a com o NPC que era inicialmente.
É errando que se aprende
Ao longo da campanha, é possível desbloquear habilidades e vantagens que influenciam tanto a investigação quanto às interações sociais. Algumas habilidades ampliam opções de diálogo, enquanto outras permitem novas formas de explorar o ambiente ou manipular situações. Essa progressão incentiva estilos de jogo diferentes e aumenta a possibilidade de rejogabilidade.
Um dos pontos mais fortes de Esoteric Ebb está na forma como ele lida com decisões do jogador. Missões raramente possuem apenas uma solução. Muitas vezes é possível resolver uma situação através de diplomacia, intimidação, manipulação ou simplesmente criando caos.
Além disso, o jogo abraça a ideia de que falhar pode ser interessante. Um teste mal sucedido não necessariamente impede o progresso, muito pelo contrário, o erro eventualmente pode abrir caminhos narrativos inesperados.
Essa abordagem cria momentos únicos de gameplay, nos quais decisões impulsivas ou resultados ruins nos dados geram consequências imprevisíveis, divertidas e cômicas.
Um universo de possibilidades
A cidade de Norvik funciona como um mundo relativamente aberto, onde o jogador pode circular livremente em busca de pistas, conversar com moradores e explorar diferentes áreas. Grande parte da experiência consiste em analisar evidências, interpretar comportamentos e decidir em quem confiar.
Apesar de existir combate em alguns momentos, ele não é o foco principal da experiência. Muitos confrontos podem ser evitados ou resolvidos através de diálogo e estratégia.
A magia inclusive, em vez de servir apenas como recurso de combate, em Esoteric Ebb funciona como ferramenta investigativa. Ela pode ser usada para ler pensamentos, descobrir segredos escondidos, falar com mortos ou criaturas ou manipular objetos. Essas possibilidades ampliam as formas de resolver problemas e reforçam a ideia de que criatividade é tão importante quanto a força.
Os diálogos são o coração da obra. As conversas frequentemente apresentam diversas opções de resposta, permitindo que o jogador interprete o protagonista de formas completamente diferentes, desde um investigador metódico, um fanático ideológico ou simplesmente alguém que gosta de provocar caos.
O humor também tem papel importante. Muitas interações exploram absurdos do mundo ou ironizam sistemas e estruturas sociais. Essa combinação de humor, filosofia e crítica social aproxima o título de experiências narrativas mais literárias dentro do gênero.
Uma pena que toda esta qualidade eventualmente se perca pela falta de uma localização para nós brasileiros, mesmo que se tenha certa facilidade com o inglês, a leitura em um idioma que não é nativo geralmente se torna cansativa demais e vai, em consequência prejudicar o aproveitamento do restante que o game tem a oferecer.
A estrutura aberta das missões e a variedade de builds incentivam múltiplas campanhas. Dependendo das decisões do jogador, a investigação pode seguir caminhos completamente diferentes. Certos personagens podem se tornar aliados, inimigos ou simplesmente desaparecer da narrativa. Cada jornada é potencialmente única, incentivando revisitar o game para explorar possibilidades que ficaram de fora na primeira campanha.
Complexo, magnífico e… exotérico
Esoteric Ebb é um RPG que aposta na criatividade do jogador e na força de sua narrativa para se destacar. Em vez de focar em batalhas ou progressão acelerada, o título investe em diálogos complexos, decisões significativas e um mundo cheio de conflitos políticos e sociais.
O resultado é uma experiência muito mais próxima de uma campanha de RPG de mesa do que de um RPG digital. Cada escolha, cada falha e cada improviso contribuem para criar histórias únicas.
Para quem aprecia jogos narrativos densos e experiências que valorizam interpretação de personagem, Esoteric Ebb oferece uma das propostas mais interessantes do gênero nos últimos anos.
Prós:
- A escrita é inteligente e tem muita personalidade, o que proporciona múltiplas soluções e desfechos para missões principais e secundárias;
- O sistema de atributos tem influência real e direta nos diálogos;
- Mundo extremamente criativo e interessante;
- Humor e seriedade muito bem equilibrados tanto na narrativa quanto no visual;
Contras:
- Progressão muito mais lenta que RPGs de ação ou turno atuais;
- Como não há localização para português brasileiro, a grande quantidade de texto afasta jogadores com pouco ou sem conhecimento do idioma original.
Esoteric Ebb - PC - Nota: 9.0
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pela Raw Fury



