Análise: City Hunter ressurge nos consoles modernos, mas não escapa das limitações do passado.

Relançamento resgata raridade do PC Engine com melhorias técnicas e extras interessantes.

em 04/03/2026

Baseado na obra do mangaká Tsukasa Hojo, City Hunter foi lançado originalmente em 1990 para o PC Engine (conhecido no Ocidente como TurboGrafx-16). Durante décadas, permaneceu como uma curiosidade restrita ao Japão e como o único jogo oficial da franquia. 

Agora, graças ao trabalho de relançamento conduzido pela Red Art Games, o título finalmente chega às plataformas modernas com recursos adicionais. O retorno tem valor histórico inegável. A questão é: isso é suficiente para sustentar a experiência em 2026?

Caçando criminosos em Shinjuku

A história acompanha Ryo Saeba, o “cleaner” de Shinjuku, uma mistura de detetive particular, mercenário e justiceiro urbano, que atua ao lado de Kaori Makimura enfrentando organizações criminosas e corporações corruptas. O jogo adapta livremente o universo do mangá, colocando Ryo diante de três missões principais envolvendo empreendimentos ilícitos distintos. 

A estrutura é simples: escolher uma missão, invadir o prédio da organização e reunir provas antes de enfrentar um chefe no topo. Ao concluir as três, uma quarta missão final é desbloqueada, funcionando como clímax da campanha. Narrativamente, o jogo cumpre seu papel, não exigindo conhecimento prévio da obra, mas também não desenvolve uma trama particularmente marcante. 

Há pequenos acenos ao humor característico da série — como o traço pervertido de Ryo sendo transformado em mecânica de recuperação de vida —, mas nada que realmente eleve o enredo além do funcional.

Estrutura repetitiva e exploração confusa

A base da jogabilidade é um side-scroller de ação tradicional. Ryo avança por corredores eliminando inimigos com sua pistola, entrando em portas espalhadas pelos prédios. Dentro delas, encontra NPCs, itens ou simplesmente mais corredores.

O problema é estrutural. Não há mapa, não há diferenciação visual clara entre portas que podem ou não ser abertas e a progressão depende frequentemente de tentativa e erro. Isso transforma cada fase em um labirinto pouco intuitivo, onde o maior desafio não é sobreviver, mas descobrir o que fazer.

Os inimigos apresentam alguma variedade — mafiosos armados, inimigos com lança-chamas, adversários que pulam ou usam bombas, além de chefes com padrões específicos. Entretanto, a repetição da estrutura das fases faz com que essa diversidade perca impacto rapidamente.

O respawn mal planejado agrava a situação. É comum sair de uma sala e encontrar inimigos surgindo imediatamente na sua frente, às vezes até atirando de fora da tela. Como o contato direto causa dano, parte da dificuldade vem de situações fora do controle do jogador.

Isso não gera tensão estratégica — apenas frustração. No fim, a sensação predominante é a de uma missão de busca estendida: explorar corredores, procurar a porta certa, derrotar inimigos, repetir.

Combate funcional, mas sem brilho

Os controles são responsivos e a ação é direta. Atirar, avançar e reagir aos inimigos funciona como esperado. Nesse aspecto, o jogo é competente. Contudo, não há profundidade significativa. Não existem sistemas complexos, upgrades variados ou mecânicas que evoluam ao longo da campanha. 

A dificuldade original parece servir mais como forma de prolongar a duração do jogo do que como construção orgânica de desafio. O modo Enhanced introduz ajustes no comportamento dos inimigos e pequenas melhorias técnicas. 

Já o modo Hard revisa padrões e posicionamento, oferecendo uma experiência mais exigente. Ainda assim, essas adições não alteram o núcleo da jogabilidade, que permanece simples e repetitivo.

Um relançamento tecnicamente competente

Se há algo difícil de criticar, é o trabalho de port. O jogo roda bem, conta com múltiplas opções de proporção de tela (Pixel Perfect, 4:3, widescreen), filtro CRT e função de rewind. Também é possível utilizar save states a qualquer momento, o que suaviza bastante a frustração causada pelo design original.

A localização é outro ponto positivo, mas nem tanto. Pela primeira vez, City Hunter pode ser jogado oficialmente em inglês, francês, espanhol, italiano e alemão. Porém, infelizmente o game não foi localizado em português, o que pode atrapalhar parte dos jogadores brasileiros a se aprofundar nas motivações que direcionam as ações do protagonista.

Há ainda extras interessantes: galeria de imagens promocionais, jukebox com faixas do jogo e acesso a scans originais do manual e uma versão digital 3D da HuCard (cartucho em formato de cartão de PC Engine) do game. Esses detalhes reforçam o caráter histórico do relançamento.

Vale a pena revisitar?

City Hunter é, essencialmente, um jogo de 1990 preservado com recursos modernos. Isso significa que suas qualidades e limitações caminham juntas. Visualmente, ele é competente, mas não impressionante, mesmo considerando as restrições do PC Engine. 

O design de fases é repetitivo, a exploração é confusa e o loop de gameplay se esgota rapidamente. A campanha é curta e dificilmente sustenta interesse prolongado para além da curiosidade inicial.

O relançamento faz o que pode para tornar a experiência mais palatável: melhora responsividade, adiciona recursos contemporâneos (como save state e time rewind) e amplia o acesso global. Mas não reconstrói o jogo do zero. Para fãs do mangá ou do anime, o valor está na raridade histórica. Trata-se do único jogo oficial da franquia e de uma peça curiosa da era PC Engine.



Para quem não tem vínculo com a obra original, porém, City Hunter dificilmente se sustenta por seus próprios méritos. Seu combate é funcional, mas básico. Sua exploração é mais frustrante do que estimulante. E sua estrutura, embora curta, é repetitiva.

O relançamento é respeitoso e tecnicamente sólido. O problema não está necessariamente nele, mas no material original, que já era mediano em 1990 e permanece assim hoje. Como documento histórico, é interessante. Como jogo, é apenas aceitável.

Prós

  • Controles responsivos e desempenho estável nas plataformas modernas;
  • Recursos contemporâneos como save states, rewind e opções visuais ampliam a acessibilidade;
  • Localização inédita em vários idiomas e extras que valorizam o aspecto histórico do relançamento.

Contras 

  • Design de fases repetitivo e exploração confusa, sem mapa ou orientação clara;
  • Respawn mal planejado de inimigos, causando dano inevitável em algumas situações;
  • Combate simples, com pouca evolução ou profundidade ao longo da campanha;
  • Experiência curta e estruturalmente limitada, sustentada mais pela curiosidade histórica do que pelo gameplay.

City Hunter — PS5/XSX/Switch/Switch 2/ PC — Nota: 5.0
Versão utilizada para análise: PS5
Análise produzida com cópia digital cedida pela Red Art Games 
OpenCritic
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Lyon Saluchi
Lyon é Físico, Engenheiro e Professor, além de grande entusiasta de jogos de plataforma 3D e JRPGs. Adora mergulhar em mundos fantásticos e explorar narrativas profundas, mas também não resiste a uma partida casual de algo criativo ou inesperado. Nas horas vagas, está sempre à procura de novos desafios, seja na vida real ou nos games.
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