Ao adentrar o mundo de Apopia: Um Conto Disfarçado, a primeira coisa que se destaca é a estética colorida, fofa e amigável para crianças. Não é um acidente: o jogo é todo muito bem trabalhado para ser acessível e atrativo para o público infantil. Tal fato poderia fazer o leitor não familiarizado com Apopia pensar que se trata de uma obra com temas superficiais e higienizados para agradar a criançada. Mas não é o caso. Como indica o subtítulo, Apopia esconde toda uma dimensão de profundidade temática e emocional que fazem da experiência algo que vale muito a pena também para adultos.
O desenrolar do conto
Antes de qualquer outra coisa, vale destrinchar o fluxo de gameplay de Apopia. O título se insere na linhagem dos tradicionais do gênero de aventura, porém não é do (comumente associado) estilo de apontar e clicar. Ao invés disso, deve-se movimentar a personagem controlada para interagir com outros personagens, objetos e locais. Os itens possuem um papel central, já que é preciso coletá-los, modificá-los e utilizá-los para resolver os puzzles que estruturam a aventura.
Além dos puzzles e dos diálogos, uma parte de Apopia que merece destaque são os minigames. Garantindo dinamismo e variedade à jogatina, eles são sempre criativos e diferentes uns dos outros. Menção honrosa para o de exploração de masmorra no capítulo 4, que presta homenagem a jogos clássicos de maneira singela e divertida. É alternando entre enigmas, conversas e minigames que a obra constrói um ritmo bastante imersivo. Contudo, tal envolvimento é um pouco enfraquecido pelo caráter às vezes repetitivo da trilha sonora.
Os habitantes do açúcar
Um aspecto fundamental de Apopia são as figuras que habitam o reino de Iogurte. Como o trono foi usurpado pelo vilão conhecido como CHEFE, a resistência é liderada pela herdeira legítima, a gentil Moly. Ela acolhe a protagonista Mai e seu recém-encontrado companheiro, o gatinho Nico. Junto dos Três Mosqueteiros (um carismático grupo de três crianças unidas por uma forte amizade umas com as outras e com Moly), os seis formam os Abridores de Portão, nome cunhado em referência ao objetivo principal da jornada: abrir o portão que aprisiona os habitantes de Iogurte na tirania do CHEFE. Com isso, Mai poderia finalmente ir para casa.
Não é só através dos diálogos que podemos conhecer o elenco de Apopia. Mai possui a impressionante habilidade de entrar na mente de qualquer pessoa que ela tocar, superpoder apropriadamente batizado de “Truque da Mai”. Com ele, a protagonista descobre de maneira visual as histórias de fundo e os conflitos internos de praticamente todos os personagens relevantes do jogo. Além disso, os Abridores de Portão não são os únicos habitantes de Iogurte a contarem com tal consciência tridimensional: os servos do CHEFE na Guarda Sombria, o trio Mikki, Nana e Leo, também possuem sua boa dose de arrependimentos e batalhas internas.
Uma temática dolorosa
Agora, cabe examinar o conflito interno melhor desenvolvido do jogo, o da protagonista Mai. Desde o início de Apopia, ela se encontra sob duas pressões distintas, vinda de duas Mães que a confundem: uma boa, a Mãe Azul, e uma má, a Mãe Vermelha. A primeira se comunica com a personagem principal, alegando ser a sua verdadeira mãe e que a segunda é uma entidade mentirosa. Enquanto isso, a Mãe Vermelha busca apenas machucar Mai. Sem entrar em spoilers, é possível comentar a temática sendo explorada nessa batalha, a da situação da criança em uma relação familiar abusiva.
Em relações abusivas, é muito comum a vítima não saber qual versão do abusador receberá hoje: a gentil e carinhosa que mantém o laço firme, ou a cruel e exploradora que busca prejudicá-la. Nos casos de situações familiares, também ocorre bastante da criança se encontrar completamente confusa sobre o caráter da figura abusiva, perdida entre o amor e o medo. Há, ainda, o agravante da vítima buscar manter a família unida e sempre querer agradar os pais, reprimindo seus sentimentos negativos para projetar uma externalidade positiva e alegre.
É esse caos emocional que Apopia consegue retratar com uma sensibilidade notável. Explorando uma temática tão madura de maneira apropriada para crianças, o título faz um serviço a elas. Dessa forma, consegue emocionar e provocar pensamentos em meio a uma experiência divertida e inteligente. Apopia: Um Conto Disfarçado é uma conquista impressionante.
Prós:
- Fluxo de gameplay imersivo e variado, composto principalmente de puzzles;
- Minigames criativos e dinâmicos;
- Personagens tridimensionais e multifacetados;
- Abordagem sensível e acessível a uma temática madura e dolorosa.
Contras:
- Trilha sonora um pouco repetitiva.
Apopia: Um Conto Disfarçado — PC — Nota: 9.0
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pela Happinet







