Giovanna “Eight-Shot” Randazzo é uma contrabandista com uma reputação em frangalhos, contratada para levar uma inocente cientista das alturas nobres da cidade até os mais pobres níveis inferiores. Contudo, após completar sua missão, Gia se vê envolta em uma trama de poder, perigo e injustiça, com uma imensa catástrofe no horizonte. Eis a premissa de Aether & Iron, um RPG narrativo com uma escrita marcante e personagens cativantes.
O jogo se passa em uma versão flutuante da Nova York dos anos 1930. A principal diferença entre esse universo e a vida real é a existência do éter, uma poderosa fonte de energia que permite desafiar a gravidade. Com isso, visões como carros voadores e imponentes ilhas no ar são tão comuns quanto a violência nas ruas e a desigualdade socioespacial com as quais estamos acostumados.
Um jogo de palavras
O fluxo de gameplay de Aether & Iron é majoritariamente composto por cenas de descrição e diálogo. Frequentemente, elas aparecem através da interação com um cenário — uma imagem estática na qual se pode clicar em alguns pontos de interesse para olhar melhor, tomar alguma ação ou falar com um personagem. Após o clique, o fundo se escurece e surge o retângulo contendo o texto, acompanhado das figuras envolvidas na conversa (se for o caso).
Tendo isso em vista, fica claro que a qualidade da escrita é o atributo mais importante para o sucesso do jogo em proporcionar uma boa experiência. Felizmente, Aether & Iron não decepciona nesse quesito. O texto é todo muito bem elaborado, sendo poético e enfeitado em algumas descrições, em momentos apropriados, e, ao mesmo tempo, informal e direto na maior parte dos diálogos. Seja qual for o estilo adotado, as palavras fluem naturalmente e pintam um instigante quadro da metrópole flutuante.
Tudo isso vem acompanhado de uma dublagem em inglês afiadíssima, seja na narração das descrições ou nas conversas dos personagens. Isso se dá devido ao terceiro elemento dos textos: a introspecção de Gia. Como o jogo inteiro se desenrola da perspectiva da protagonista, é a sua dubladora quem se dá ao trabalho de narrar todas as visões descritas nas palavras. Os pensamentos da contrabandista também aparecem para o jogador, o que acaba por forjar uma forte relação com ela.
Entre batidas e balas
Mas Aether & Iron não é feito só de palavras. Existem também seções de combate automobilístico dinâmico e intenso, em que o posicionamento dos carros e a gestão do recurso limitado — a energia — se fazem cruciais. As estradas das batalhas são divididas em pistas e, dentro delas, em espaços onde se pode posicionar o automóvel. Acontece que algumas pistas e espaços sofrerão efeitos específicos, quase sempre danosos. Assim, usar a batida (a única ação que todos os veículos possuem) para empurrar os inimigos acaba por ser muito estratégico.
Todavia, é preciso equilibrar ataques (como a batida) e movimentação, pois ambos gastam energia. Consequentemente, é necessário pensar antecipadamente qual sequência de ações será executada, visando, ao mesmo tempo, prejudicar os oponentes e preservar o próprio veículo. Tudo isso vem embalado em uma trilha sonora empolgante e um cenário em rápido movimento. Dessa forma, o combate é simultaneamente tático e intenso, pois exige muito pensamento e bom posicionamento, ao mesmo tempo em que se revela dinâmico e imersivo.
Fora das lutas, o sistema de combate se mostra também bastante variado. Pode-se trocar as peças do carro, permitindo diversos estilos de jogo — sejam mais agressivos, mais defensivos ou mais velozes. Também não faltam peças para serem escolhidas: seja comprando ou encontrando pela aventura, o jogador certamente se verá diante de uma grande variedade de opções. Uma última nota sobre as batalhas, antes de voltar à narrativa: pode valer a pena limitar o FPS nas configurações, pois, do contrário, acaba sendo bastante exigente para a GPU.
Divisões, dicotomias e contrastes
Uma das primeiras coisas que me chamaram a atenção ao jogar Aether & Iron foi o forte contraste entre as duas principais personagens: a durona e experiente Gia, e a inocente e alegre Nellie. Isso gerou uma dinâmica muito interessante entre as duas, com uma realçando os traços definidores da outra e, às vezes, revelando lados desconhecidos de ambas. De fato, o jogo está em seu melhor quando Gia e Nellie estão juntas, e senti falta de mais da relação entre elas após se separarem.
Conforme o jogo avançava, fui percebendo cada vez mais divisões e dicotomias. Para além da já citada desigualdade socioespacial, representada pelas alturas das ilhas flutuantes de Nova York, há também um fortíssimo contraste moral no universo do jogo. Trata-se de um mundo extremamente cruel, em que o poder é monopolizado pela tirania desumanizadora de alguns poucos barões, mas habitado por pessoas genuinamente boas, que tentam fazer o melhor na situação em que estão e ajudar aqueles ao redor. É a união dessa bondade comum que permite transformar o horroroso status quo, e Aether & Iron fundamentalmente entende isso.
As pessoas que fazem a história
Tal dicotomia moral não significaria muito se não fosse encarnada em personagens concretos e críveis, que a tornassem verossímil. Novamente, o jogo não decepciona nem um pouco aqui, entregando figuras tridimensionais e realistas, que tornam a aventura algo especial. Além das já citadas Gia e Nellie, o jogo apresenta todo um elenco de heróis, vilões e muita coisa no meio, que compõem o mosaico dessa Nova York. Os barões são variados em suas crueldades, e os companheiros de Gia também possuem motivações e métodos bastante distintos para melhorar o estado das coisas. As dublagens em inglês — todas excelentes — são a cereja no bolo desses personagens.
São pessoas boas, como Luca e Cress; complexas, como Tajana e Sophie; e cruéis, como Eli e a Madame, que fazem da Nova York flutuante do jogo uma cidade tangível. Trata-se de um mundo com pulmões que respiram e um coração que bate, indo muito além de apenas parecer vivo. Aether & Iron é um RPG de belas palavras e fortes contrastes e, acima de tudo, uma história de pessoas comuns.
Prós
- Excelente escrita, seja nas descrições ou nos diálogos;
- Dublagem completa em inglês afiadíssima;
- Combate automobilístico dinâmico e intenso;
- A dinâmica entre Gia e Nellie convence muito;
- Personagens tangíveis que compõem um mundo vivo.
Contras
- A relação entre Gia e Nellie poderia ter sido mais explorada (e mais presente após o início, de maneira geral).
Aether & Iron — PC — Nota: 9.5
Revisão: Mariana Marçal
Análise produzida com cópia digital cedida pela Seismic Squirrel








