Análise: Nioh 3 refina e reinventa cada pilar da franquia para entregar sua melhor forma

Através de uma jornada por eras ancestrais do Japão, o título refina sua essência e estabelece um novo patamar de excelência.

em 04/02/2026

Nioh 3 se posiciona como o resultado de anos de expertise da Team Ninja, entregando um jogo que, a todo instante, reafirma sua grandeza e importância. Ao unir evolução e revolução dentro da própria franquia, o título promove mudanças significativas sem abandonar os pilares que a fizeram se destacar no gênero.


Ao longo de nove anos, a desenvolvedora demonstrou domínio completo do gênero, entregando uma trilogia que se consolida como uma das mais importantes da ação na última década. Agora, com seu capítulo definitivo, sacramenta-se não apenas como uma franquia consistente, mas como referência.

Uma jornada através do tempo

Tradicionalmente, a série sempre foi reconhecida pelo gameplay hardcore e por seu mundo que mistura figuras reais do Japão com a mitologia, ressignificando eventos de uma história vasta e complexa. Até então, esse era o único mérito narrativo da franquia. Não mais.

Começar uma análise de Nioh destacando sua narrativa é, por si só, uma surpresa. Não que as histórias anteriores fossem descartáveis, mas seus fios narrativos eram, no máximo, funcionais e pouco envolventes. Aqui, a Team Ninja finalmente constrói uma narrativa que sustenta a experiência como um todo.

Assumimos o papel de Takechiyo, um jovem prestes a ser nomeado Shogun de sua era. Seu destino, no entanto, é interrompido quando seu irmão mais novo, Kunimatsu, consumido pela inveja e raiva, recorre aos poderes do Crucible para controlar yokais e lançar uma ofensiva contra seu próprio irmão. Para escapar da morte, Takechiyo é salvo por seu guardião espiritual, Kusanagi, que o transporta para outra era, o período Sengoku, já tomado pela mesma escuridão. Fica claro que as forças despertadas por Kunimatsu estão profundamente entrelaçadas com a própria história do Japão.

Ao viajar por diferentes períodos, nós nos deparamos com histórias locais que reforçam o tema central da narrativa: a eterna luta pelo Shogunato, marcada por ambição, poder e destruição. Cada cenário funciona como um microcosmo histórico, com personagens e conflitos próprios, todos conectados a algo maior, que é a jornada de Takechiyo.

Cada período apresenta uma identidade sonora própria, com instrumentações pouco comuns nos videogames. A trilha da era Heian, em especial, causa estranhamento e grandiosidade, reforçando a sensação de estar pisando em eras desconhecidas, enquanto as trilhas das batalhas mais épicas carregam um peso que transcende o tempo.

Essa estrutura episódica evita armadilhas anteriores. Diferente de Nioh 2 (2020), no qual a passagem do tempo tinha pouco impacto narrativo, ou de Rise of the Ronin (2024), que sofre com excesso de personagens e conflitos simultâneos, Nioh 3 mantém foco e cadência. Personagens surgem com propósitos claros, conflitos refletem diretamente a história do protagonista, e os eventos se tornam memoráveis sem sobrecarregar o jogador.

A evolução do protagonista também merece destaque. No primeiro jogo, William funcionava bem como um forasteiro que nos apresentava aquele mundo. No segundo, a criação de personagem trouxe liberdade visual, mas reduziu o peso narrativo do herói, tornando-o quase uma casca vazia. Com Takechiyo, a desenvolvedora encontra o equilíbrio ideal, com o jogador criando seu personagem visualmente, mas assumindo um papel narrativo forte e relevante para a história.

Do linear aos campos abertos

Enquanto outros jogos do gênero optaram por mundos interconectados, consagrados pela excelência da FromSoftware, a franquia da Team Ninja manteve, em seus dois primeiros capítulos, um formato mais segmentado, com uma estrutura baseada em missões lineares. A transição para os chamados “open-fields”, ou campos abertos, gerou receio entre os fãs: como manter a identidade da série sem um de seus pilares fundamentais?

Essa dúvida desaparece no momento em que o jogo solta as amarras e permite explorar o primeiro campo desconhecido. A sensação de liberdade é imediata e acompanha o jogador ao longo de toda a jornada. A cada nova era visitada, o sentimento de descoberta se renova. Os campos são abertos, mas são espaços hostis, repletos de desafios, fiéis à essência da franquia.

A introdução dos campos abertos não surge apenas como uma evolução mecânica, mas como uma extensão natural da história. Assim como Takechiyo, o jogador é um intruso em eras que não lhe pertencem, presenciando conflitos verossímeis ao enfrentado pelo protagonista e carregados de significado histórico. 

O level design é composto por regiões interligadas que funcionam como grandes fases dos jogos anteriores. Há liberdade, surpresas e atividades clássicas da franquia, como a coleta de Kodamas e os banhos em hot springs, agora convivendo com tarefas mais convencionais, como limpar bases inimigas e eliminar inimigos específicos, todas bem contextualizadas.

O jogador pode explorar livremente, com exceção de pequenas áreas bloqueadas por habilidades liberadas ao longo da campanha, incentivando a revisitação. Para orientar essa liberdade, cada região apresenta um nível recomendado. Isso permite planejar o percurso sem eliminar o senso de exploração ou o risco constante. Essa liberdade se estende ao modo multiplayer, que não exige burocracias ou preparativos complexos para ser aproveitado. 

Em momentos específicos, como a invasão de castelos, o jogo retorna à estrutura linear clássica da série, misturando o antigo com o novo. Além disso, o “Battle Scrolls” oferece missões lineares opcionais que, embora não substituam completamente as fases tradicionais em quantidade, funcionam muito bem para contar histórias mais concentradas e curtas.

Missões principais são claramente demarcadas, enquanto as secundárias surgem organicamente pelo mapa. A introdução dos “Mitos” surpreende ao beber inspiração das interações modernas da franquia God of War. Espíritos, que antes apenas narravam seus últimos momentos ao coletar itens, agora ganham forma e oferecem missões próprias, enriquecendo o mundo e aprofundando sua mitologia de maneira coerente.

Cada era se apresenta de maneira única, seja nos campos de batalha do período Sengoku ou nas montanhas geladas da era Heian. A qualidade visual, rodando de maneira fluida no PlayStation 5, e de design se mantém consistente do início ao fim da campanha, que dura cerca de 60 - 80 horas. 

A experiência da saga sempre foi fortemente apoiada no endgame e nas jogadas posteriores à primeira, em que melhores equipamentos e habilidades ficam à disposição. Em um mundo aberto, parte da magia da primeira exploração se dilui nas repetições. Rejogar com loot melhor e inimigos mais fortes permanece satisfatório, embora agora o jogador esteja inserido em um contexto não tão convidativo para a repetição e grind por equipamentos.

Team Ninja e Samurai

Uma das adições mais significativas é a introdução do estilo ninja. A franquia sempre foi, essencialmente, um jogo de samurais, e aqui, ao pressionar um único botão, assumimos uma forma completamente diferente, com mudanças que não comprometem em nenhum momento a jogabilidade clássica.

A transição para os campos abertos já seria suficiente para justificar um novo capítulo da saga, mas o título foi além, combinando essa expansão estrutural com uma adição robusta de sistemas de combate. Essa fluidez ganha camadas com a introdução de botões dedicados para pulo e agachamento. Enquanto o pulo injeta um dinamismo vertical inédito nos combates da franquia, o modo “agachar” permite que o jogador aja de modo furtivo com mais eficácia.

No modo samurai, a jogabilidade preserva o peso tradicional da série, exigindo gestão precisa de energia para sustentar a ofensiva. Já o estilo ninja introduz uma mobilidade inédita, com avanços rápidos que permitem um reposicionamento constante entre os ataques. 

Essa dualidade é reforçada por cada modo possuir armas, equipamentos e espíritos guardiões exclusivos, portanto, ao alternar entre os estilos, o jogador assume, na prática, dois personagens distintos em um único corpo. Essa liberdade amplia drasticamente o leque tático, permitindo respostas criativas e imediatas para qualquer ameaça.

Apesar das diferenças, ambos os estilos preservam a essência da série, que nunca foi sobre atacar, rolar e esperar a estamina se recuperar. Todo o design de combate é construído em torno da agressividade do jogador, com as habilidades retornando mais rápido quanto mais ofensiva é a postura adotada. 

O modo ninja amplia ainda mais esse leque com ninjutsus variados, enquanto o samurai se beneficia de novas opções defensivas, incluindo um parry adicional (deflect) que entrega satisfação imediata. A alternância constante entre os dois estilos cria um ritmo de combate dinâmico, técnico e profundamente recompensador.

O foco tradicional em loot e gerenciamento de personagem também retorna, agora duplicado. Para quem aprecia esse aspecto, como eu, é um prato cheio. Montar combinações ideais de equipamentos para cada estilo se torna parte central da experiência. Para quem não gosta, a quantidade de loot ao final de cada sessão é mais equilibrada do que se imagina. O gerenciamento se torna mais rápido, claro e até prazeroso. O limite de inventário foi ampliado de 600 para 2.000, garantindo liberdade antes de forçar o descarte. Quando isso acontece, há múltiplas opções: converter itens em Amrita (necessário para level-up), venda por ouro, desmontar com o ferreiro para materiais ou doar ao clã, oferecendo flexibilidade ao jogador. 

Evolução dos sistemas

As mecânicas foram adaptadas para sustentar os novos sistemas. As magias, por exemplo, agora estão vinculadas aos “Soul Cores”, mas as funções que esses exerciam anteriormente não desapareceram. Elas foram redistribuídas como habilidades adicionais dos espíritos guardiões, trazendo de volta opções ofensivas diversificadas.

Não há concessões no que diz respeito ao poder do jogador. Praticamente todos os botões do controle e suas combinações estão voltados para o ataque. O combate continua profundo, técnico e focado na iniciativa, recompensando quem domina seus sistemas, principalmente o de Ki Pulse (regenerar estamina no timing certo após combos).

Alguns sistemas clássicos também evoluíram para se adaptar ao mundo aberto. O sistema de túmulos dos Revenants, por exemplo, retorna de forma inteligente. Em vez de apenas ressuscitar jogadores mortos para duelos opcionais, agora eles também servem como pistas, guiando o jogador até demônios específicos no mapa, uma adaptação funcional dentro do novo escopo de exploração.

Nem todas as mudanças, no entanto, são igualmente positivas. O sistema de maestria de armas foi removido em favor de algo mais simples. Antes, habilidades eram desbloqueadas conforme o uso de cada arma. Agora, pontos de habilidade Samurai ou Ninja permitem desbloquear qualquer skill dentro das árvores correspondentes. Isso reduz a sensação de comprometimento com um tipo de arma específica, tornando a progressão mais genérica. Com tantos sistemas paralelos fortalecendo o personagem, as árvores de habilidades acabam funcionando mais como ajustes pontuais do que como pilares de progressão.

Horizontes de ameaça

Yokais conhecidos retornam, como o infame Karasu Tengu, acompanhados de novas criaturas agora espalhadas por campos abertos que ampliam o senso de ameaça. No entanto, a inteligência artificial não recebeu uma adaptação profunda para este novo formato; os inimigos ainda agem de maneira tradicional, o que pode causar estranhamento devido a uma espécie de "surdez seletiva". Embora essa seja uma escolha deliberada para evitar que hordas se amontoem sobre o jogador, garantindo combates manejáveis, fica a sensação de que a Team Ninja poderia ter explorado uma adaptação mais orgânica em virtude da nova amplitude do cenário, em vez de apenas replicar o comportamento contido dos títulos anteriores.

Já os chefões exigem leitura, adaptação e recompensam a agressividade constante. Nas missões principais, encontramos uma variedade de arquétipos e embates que, pelo conjunto da obra – unindo fidelidade visual, contexto narrativo e uma trilha sonora transcendente –, posicionam-se entre os melhores da franquia. Algumas figuras conhecidas retornam como chefes opcionais, como Ryomen Sukuna, um dos oponentes mais difíceis do título anterior. Essa ressignificação de conteúdo permite observar como o peso das batalhas muda de um jogo para o outro, refletindo a evolução do poderio do novo protagonista e as novas mecânicas à disposição do jogador.

Um grande contribuinte para a famosa dificuldade da franquia vinha dos combates em corredores fechados, onde o espaço limitado ampliava a tensão. Em Nioh 3, a liberdade de movimento suaviza esse aspecto. É possível evitar batalhas, contornar áreas perigosas e escolher quando lutar. No entanto, fugir nunca fortalece o personagem. A progressão real continua atrelada ao confronto direto para a aquisição de Amrita. 

Seja perseguindo Kodamas escondidos, caçando Yokais que vagam pelos horizontes ou simplesmente percorrendo os cenários em busca de segredos, o jogo sustenta um fascínio que raramente vacila. Há uma satisfação absoluta em dominar cada centímetro dessas eras, transformando o que poderia ser tedioso em uma jornada de descoberta constante e extremamente prazerosa. 

Em nenhum momento senti o desejo de desligar o console ou interromper a exploração. Muitas vezes, era o cansaço físico que me vencia após horas de sessão, mas eu já despertava no dia seguinte mentalizando os Yokais que enfrentaria ou as surpresas que ainda estavam por vir. Esse tipo de envolvimento viciante é uma marca que permeia toda a trilogia, mas aqui ele ganha uma força renovada porque claramente estamos diante do Magnum Opus da desenvolvedora.

Selando o legado

Ao expandir sua estrutura para campos abertos, aprofundar sistemas de combate e construir uma narrativa verdadeiramente envolvente, a Team Ninja entrega um jogo que evolui sem romper com suas raízes. 

Cada decisão de design, seja na cadência da narrativa ou na complexidade mecânica, converge para fortalecer a experiência hardcore que sempre definiu a franquia. Trata-se de uma obra que entende sua identidade, respeita seu legado e olha para frente. Nioh 3 não é apenas mais um capítulo na trilogia, é o ápice técnico e artístico da saga, consolidando-se como um clássico instantâneo do gênero de ação.

Prós

  • Narrativa envolvente que casa contextualmente com as novidades mecânicas;
  • Transição bem feita para o mundo aberto, oferecendo campos abertos em diferentes eras do Japão, com uma excelência contínua de level design;
  • O equilíbrio entre atividades clássicas e novidades, como os acampamentos de inimigos e segredos ocultos, garante que a magia da descoberta não se perca ao longo da jornada;
  • Sistema de troca entre Samurai e Ninja dobra as possibilidades estratégicas e o dinamismo do combate;
  • Trilha sonora excepcional, com instrumentações grandiosas que elevam a imersão histórica;
  • O ápice do combate agressivo, recompensando o domínio técnico do jogador.

Contras

  • Simplificação da árvore de maestria de armas remove parte do senso de especialização;
  • A estrutura de mundo aberto torna o "fator replay" menos imediato do que nos jogos anteriores.
Nioh 3 — PS5/PC — Nota: 9.5
Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Vitor Tibério
Análise feita com cópia digital cedida pela Koei Tecmo
OpenCritic
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Matheus Oliveira
Entusiasta de games e cinema, sempre explorando novos gêneros e estilos enquanto acumula um backlog infinito. X e Instagram
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