Marathon deve ser o destino da Bungie em jogo

Entre a busca por relevância no live service e a tradição em FPS, o estúdio encara seu maior desafio.

em 21/02/2026

O primeiro semestre de 2026 chega cercado de dúvidas que em breve serão respondidas. Resident Evil Requiem será mais um acerto da Capcom? Crimson Desert finalmente se provará um projeto concreto? Entre tantas incógnitas, a maior é a que envolve Marathon.


O novo título da Bungie carrega um peso que poucos projetos têm a infelicidade de suportar. Após a aquisição bilionária pela Sony e os desdobramentos que seguiram, chegou o momento do primeiro grande lançamento florescer e responder os céticos: Marathon será a salvação ou a destruição da Bungie?

Expertise em prova 

Adquirida por cerca de US$3,6 bilhões em janeiro de 2022, a Bungie foi vista pela Sony como peça-chave para sua expansão agressiva no mercado de jogos como serviço. A promessa era clara: incorporar a expertise da desenvolvedora sem comprometer sua autonomia criativa.

Com o passar dos anos, no entanto, ficou evidente que a integração seria mais complexa do que o esperado. Em agosto de 2025, a Sony anunciou a incorporação completa da Bungie ao PlayStation Studios, encerrando a independência que havia sido prometida inicialmente após uma série de problemas de gestão e resultados abaixo do esperado.

No meio desse processo, também estiveram envolvidos no cancelamento de The Last of Us Factions, projeto multiplayer da Naughty Dog. A participação da desenvolvedora como consultora em sistemas de live service resultou em recomendações que contribuíram para a interrupção do projeto, reforçando a pressão sobre sua reputação no segmento. 

Tudo isso cria um cenário no qual Marathon não é apenas um novo jogo, mas um teste público da capacidade da desenvolvedora de justificar o investimento bilionário. A pressão interna é evidente.

Expertise real

Se a discussão recente gira em torno de métricas, retenção e gestão de live service, vale lembrar como a marca realmente construiu seu nome.  

Poucos estúdios têm histórico tão consistente quando o assunto é FPS, ritmo de combate e construção de mundo. Halo redefiniu a experiência de shooter em consoles ao estabelecer padrões de controle, cadência e sandbox que influenciam o gênero até hoje. Anos depois, Destiny consolidou uma fórmula híbrida que misturava tiro preciso, progressão contínua e universo persistente, criando um modelo que muitos tentaram replicar.

Essa é a expertise concreta: o ponto chave não está apenas na busca por engajamento ou na arquitetura de temporadas, mas na capacidade de criar combates satisfatórios, sistemas que conversam entre si e mundos que sustentam exploração por anos.

A grande questão é se esta será a terceira reinvenção dentro do que o estúdio faz de melhor. Se o histórico pode servir de indicativo, a base técnica dificilmente será o problema.

Reimaginação e extração

Marathon é apresentado como uma reimaginação do FPS lançado pela Bungie em 1994. Esse termo talvez seja, no entanto, generoso. Trata-se menos de uma releitura direta e mais de uma apropriação da propriedade intelectual para uma proposta completamente diferente. Fora as referências pontuais à mitologia e identidade visual, o novo título adota direção estética e estrutura mecânica próprias.

Anunciado em 2023, o projeto foi associado ao modelo live service, e a confirmação de que este se tratava de um shooter de extração posicionou o jogo dentro de uma tendência que, na época, era tratada como sucessora natural dos battle royales. A indústria enxergava no gênero uma nova corrida do ouro.

A realidade foi mais complexa. Shooters de extração se provaram mais exigentes do que o mercado inicialmente imaginava, com curva de aprendizado alta e apelo mais segmentado. Apenas no final de 2025 o gênero ganhou tração mais ampla, especialmente nos consoles, movimento que acabou favorecendo indiretamente o estúdio.

A estrutura é conhecida: jogadores entram em um mapa compartilhado, enfrentam outros competidores e ameaças controladas por IA, coletam recursos e precisam extrair com sucesso para manter o loot obtido. É um formato que gera tensão constante e cria histórias emergentes, ideal para transmissões e interação comunitária.

O problema é que nos meses que antecederam o lançamento originalmente planejado o projeto parecia não estar pronto para sustentar essa ambição. Agendado inicialmente para setembro (2025), o jogo chegaria ao mercado sem testes amplos suficientes e sem recursos básicos esperados pelo público, como chat de proximidade. Somado a isso, um caso envolvendo plágio artístico abalou ainda mais a confiança no projeto (o caso já foi resolvido com o artista em questão).

O adiamento para março de 2026 acabou se mostrando providencial. Além de permitir ajustes estruturais, ele colocou o jogo em um cenário mais favorável. O sucesso de ARC Raiders ajudou a consolidar o gênero entre jogadores de console e reduziu a resistência inicial ao formato de extração. 

A expectativa agora é muito mais favorável do que antes, e o jogo está posicionado para um lançamento de grande escala; resta saber se o produto final estará à altura do hype.

A estética: polêmica e bela

É impossível falar do título sem comentar como ele se apresenta visualmente — e isso é um mérito claro do projeto. Em um mercado dominado pela busca quase obsessiva por realismo, que muitas vezes é associado à Unreal Engine 5 e a cenários excessivamente plastificados, a Bungie opta por um caminho diferente. 

O jogo aposta em contraste forte, paletas vibrantes e uma identidade visual que coloca legibilidade e impacto artístico acima da fidelidade fotográfica. É uma decisão que pode dividir opiniões, mas que estabelece personalidade imediata. Em vez de competir na corrida por texturas hiper detalhadas, Marathon se destaca por assumir uma direção autoral.

O mundo de Tau Ceti é construído com cores marcantes e composições que reforçam atmosfera e identidade. Cada facção apresenta linguagem visual própria, o que auxilia não apenas na ambientação, mas também na leitura de gameplay.

Essa abordagem distancia o projeto de comparações superficiais com outros fracassos recentes do mercado, como Concord. Diferente das propostas visualmente genéricas, aqui há coesão estética e intenção clara por trás das escolhas de design.

O conceito foi descrito internamente como “Graphic Realism”, uma filosofia baseada em linguagem visual simplificada, uso deliberado de cores fortes e limitação de materiais. A proposta não busca simular o mundo real, mas construir um universo estilizado e reconhecível.

Independentemente de preferência pessoal, é inegável que existe coragem na decisão. Em um mercado cada vez mais homogêneo, assumir uma identidade visual tão marcada já o posiciona como um produto distinto.

Conteúdo e classes

Em seu lançamento, o jogo contará com quatro mapas e sete classes jogáveis, chamadas de Runner Shells. A proposta é oferecer arquétipos bem definidos, incentivando especialização e composição estratégica de equipe.
Runner Shell – Destroyer 
Arquétipo: Combat Specialist
Equipado com barricada defensiva pessoal, sistemas de mísseis e propulsores de mobilidade, o Destroyer é projetado para confrontos diretos e controle de espaço.

Runner Shell – Assassin
Arquétipo: Shadow Agent
Com uso de fumaça sintética e tecnologia de camuflagem, o Assassin favorece emboscadas e reposicionamento tático durante combates.

Runner Shell – Recon
Arquétipo: Intel Specialist
Especialista em informação, utiliza pulsos de eco, drones rastreadores e projeções holográficas para identificar ameaças e monitorar movimentações inimigas.

Runner Shell – Vandal
Arquétipo: Combat Anarchist
Focado em mobilidade agressiva, atravessa o mapa em alta velocidade e usa um canhão de impacto para desestabilizar confrontos.

Runner Shell – Thief
Arquétipo: Covert Acquisitions
Voltado para saque e mobilidade, combina visor aprimorado, drone de suporte e gancho para adquirir loot rapidamente e escapar sob pressão.

Runner Shell – Triage
Arquétipo: Field Medic
Oferece suporte à equipe com drones de cura, habilidades de reanimação e buffs temporários em combate.

Scavenger Mode – Rook
Arquétipo: Scavenger
O modo Rook permite entrar em partidas já em andamento como jogador solo, sem loadout prévio. Não há risco de perda de equipamentos, tornando-o ideal para coleta e experimentação sem penalidade direta.
A estrutura principal da experiência consiste em esquadrões de três jogadores, reforçando o foco em cooperação tática. As habilidades sugerem sinergias claras entre controle de espaço, informação e suporte, o que pode transformar cada incursão em uma decisão estratégica antes mesmo do primeiro disparo.

Também há indícios de ampla liberdade na abordagem dos objetivos. É possível priorizar confrontos diretos, jogar de forma mais furtiva ou adotar um perfil oportunista, focado exclusivamente em loot e extração. Em teoria, o jogo oferece espaço para estilos distintos coexistirem.

O ponto crítico está menos na variedade inicial e mais na sustentação a longo prazo. Shooters de extração dependem de um ciclo saudável de missões claras, recompensas bem calibradas e meta-progressão consistente para manter a base ativa. Não basta oferecer classes diversas e mapas bem construídos; é preciso garantir que cada partida alimente um senso real de avanço.

A dúvida, portanto, não é sobre a quantidade de sistemas, mas como eles convergem. Se os objetivos forem pouco direcionados ou a progressão parecer lenta demais, a liberdade prometida pode se transformar em dispersão. Por outro lado, se houver clareza nas metas e recompensas significativas, o modelo tem potencial para sustentar engajamento contínuo.

Expectativa vs. Desconfiança 

O projeto carrega o histórico recente da desenvolvedora, o investimento bilionário da Sony e a desconfiança de um público que já viu promessas de live service falharem antes. Ao mesmo tempo, também carrega elementos oportunistas: identidade clara, direção artística marcante e um gênero que finalmente encontrou tração.

Entre expectativa e desconfiança, o que existe agora é um raro momento de oportunidade. A Bungie tem, pela primeira vez desde sua aquisição, a chance de redefinir sua narrativa. Resta saber se Marathon será apenas competente ou se conseguirá justificar todo o peso que carrega desde o anúncio.
Marathon — PS5/XSX/PC
Desenvolvedora: Bungie
Gênero: Shooter de extração
Lançamento: 05 de março de 2026
Revisão: Juliana Piombo dos Santos
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Matheus Oliveira
Entusiasta de games e cinema, sempre explorando novos gêneros e estilos enquanto acumula um backlog infinito. X e Instagram
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