Assassin's Creed: uma aula de ficção histórica e turismo virtual parte 3 - Roma, a “Cidade Eterna”

Descubra como Ezio Auditore unificou a Irmandade dos Assassinos para derrubar o império de corrupção dos Borgia em Roma.

em 21/02/2026
A jornada de Ezio Auditore é uma das raras trilogias que respeitam o tempo biológico e a evolução emocional de seu protagonista. Se na parte 1 dessa nossa viagem pela maior franquia da Ubisoft exploramos as raízes filosóficas do Credo com Altaïr, e na parte 2 testemunhamos o amadurecimento de Ezio, Assassin’s Creed: Brotherhood representa o ápice dessa jornada. Aqui vemos e vivenciamos como Ezio se transforma no maior mestre do Credo até o momento.

A evolução da fórmula

O início se dá exatamente onde seu antecessor terminou, forçando o jogador a lidar com as consequências imediatas de ter poupado Rodrigo Borgia. Essa continuidade serve para mostrar que a vingança pessoal de Ezio, iniciada anos antes em Florença, tornou-se algo muito maior: a luta para resgatar a alma da Itália. 

A aventura agora foca na imersão total em uma única e monumental localidade: Roma. A grande e principal diferença aqui para os títulos anteriores é que o objetivo final não é apenas eliminar os nomes de uma lista; será preciso ocupar o lugar do inimigo e reconstruir o que foi devastado. Roma funciona como uma expansão de Monteriggioni, onde o Credo deixa de ser uma promessa de justiça individual para se tornar uma estrutura de governo e de resistência.

O santuário em Monteriggioni

No presente, a narrativa ganha peso e urgência. Desmond e sua equipe estabelecem sua base de operações nas ruínas da Vila Auditore, em Monteriggioni, criando um espelhamento poético com o início de Assassin's Creed II. O contraste visual é extremamente impactante: enquanto o jogador, como Ezio, vê a glória da vila ser reduzida a cinzas por Cesare Borgia, Desmond caminha pelas ruínas nos tempos modernos, buscando nos fantasmas do passado as chaves para o futuro.

Esse cenário reforça que a luta agora é uma herança que Desmond carrega fisicamente. Neste capítulo, o Efeito Sangramento (Bleeding Effect) atinge o auge da funcionalidade. Desmond evolui de ter alucinações para agora possuir a memória muscular completa de seu ancestral, sendo capaz de realizar proezas de parkour e combate com a mesma fluidez que Ezio no século XVI.

O mistério sobre o Sujeito 16 (Clay Kaczmarek) deixa de ser uma série de arquivos corrompidos para se tornar um guia direto através de quebra-cabeças deixados no Animus, revelando que a conspiração dos Frutos do Éden é, na verdade, uma contagem regressiva para a sobrevivência da raça humana. É em Brotherhood que a linha entre o descendente e o ancestral se torna mais tênue, transformando Desmond de um prisioneiro da Abstergo em um Assassino pronto para definir o destino da humanidade.

A anatomia de Roma

Diferente da estrutura de cidades-estado fragmentadas do título anterior, Brotherhood aposta em um mapa único, massivo e contínuo. Roma, em 1500, é apresentada como uma metrópole de contrastes brutais, dividida entre as ruínas do passado clássico, a pobreza dos distritos populares e o luxo insolente do Vaticano. A escala foi um desafio técnico para a época; o Coliseu, por exemplo, foi reproduzido em uma proporção que se tornou o mais complexo quebra-cabeça de parkour da série até então, exigindo que o público dominasse a verticalidade para desvendar seus segredos.

A "Cidade Eterna" é dividida em distritos com identidades visuais gritantes. O Centro é densamente povoado e comercial; o Campagna oferece campos abertos e fazendas que mostram o lado rústico da Itália; e o Antico abriga os esqueletos do Império Romano, criando a sensação de que o “turismo virtual”, característico da saga, serve tanto ao jogador quanto ao próprio Ezio. No início do jogo, a estética é de decadência: a cidade é visualmente cinzenta, oprimida pelas Torres Borgia que dominam o horizonte.  À medida que Ezio as destrói e investe na infraestrutura, a cidade retoma sua vida. 

Outro ponto que se destaca, como sempre, é a reprodução de estruturas funcionais como o Passetto di Borgo. Esta “ponte”, que conecta o Palácio Apostólico ao Castelo de Santo Ângelo, é uma passagem real construída no século XIII e usada por papas para escapar de invasões. Na obra, a Ubisoft transformou essa estrutura em um elemento essencial de level design, permitindo que o jogador se infiltre no coração do poder templário sem sequer tocar o chão.

Ezio Auditore da Firenze: mentor da irmandade 

Se em Assassin’s Creed II as mecânicas situavam o público no papel de um predador urbano, em Brotherhood elas o colocam no comando de uma revolução sistêmica. Um dos destaques é a introdução da besta, um item que se tornou lendário entre os fãs por ter aparecido lá atrás, no trailer de anúncio da primeira entrada da franquia (2007), mas ter sido cortado da versão final. Sua chegada em Roma foi a quitação de uma dívida, oferecendo uma alternativa stealth à barulhenta pistola oculta.

O sistema de recrutamento e a chamada da Irmandade transformam a experiência de jogo em algo coletivo. Ao salvar cidadãos da opressão e treiná-los, cria-se um laço emocional e estratégico com sua equipe. Ver os aprendizes evoluírem de civis assustados a assassinos equipados com armaduras e armas pesadas gera um grande senso de progresso. Com um simples assobio, é possível evocar uma "Chuva de Flechas" ou emboscadas coordenadas, transformando o cenário em um tabuleiro onde Ezio move as peças sem precisar revelar sua posição. É a manifestação mecânica de que a verdadeira força da Ordem reside na união da rede de contatos que ele constrói.

No campo de batalha, o combate evolui para uma forma mais agressiva sem perder a elegância característica do protagonista, com o sistema de execuções em cadeia. Após o primeiro contra-ataque bem-sucedido, Ezio é capaz encadear uma sequência de mortes imediatas com uma fluidez brutal, refletindo sua transição de um justiceiro para um general experiente.  

Além disso, a presença das máquinas de Da Vinci — tanques, bombardeiros e metralhadoras navais que Leonardo foi forçado a criar para os Borgia — subverte momentaneamente o gênero do jogo. Essas missões de sabotagem variam o gameplay e servem como um aviso narrativo sobre como a ciência da época, sem a interferência dos Assassinos, poderia ter antecipado os horrores da guerra moderna em séculos.

O contexto geopolítico: império do nepotismo

Diferente das conspirações fragmentadas entre famílias rivais que vimos em Florença, a Roma de 1500 apresenta um cenário de ocupação total, no qual a cidade é tratada como propriedade particular da dinastia Borgia. O contexto geopolítico de Brotherhood mergulha no conceito de nepotismo, mas adiciona uma camada de conflito interno fascinante: a divergência entre o Papa Rodrigo e seu filho, Cesare. 

Enquanto Rodrigo busca consolidar o poder através da influência espiritual e da sabedoria oculta dos artefatos antigos, Cesare é movido por um pragmatismo militar brutal e pela ambição de unificar a Itália sob seu comando. Essa rixa familiar cria as brechas necessárias para que a resistência dos Assassinos se infiltre no coração do Vaticano. Cesare personifica o governante de O Príncipe, de Maquiavel, utilizando seu título de Capitão-Geral da Igreja para comandar exércitos financiados pelo tesouro papal.

Neste cenário, a Maçã do Éden deixa de ser somente um objeto de mistério arqueológico para se tornar uma peça central no contexto geopolítico. Em Brotherhood, o artefato é visto como uma arma de dissuasão tática. O controle da Maçã simboliza a soberania sobre Roma: quem a possui detém o poder de moldar a vontade das massas. 

O jogo retrata o Vaticano como um centro de fé e, além disso, como o epicentro de uma rede de corrupção que sufoca a península itálica através de impostos e censura. A estratégia dos Borgia baseia-se no sufocamento econômico, financiando campanhas militares com o "dízimo" do povo, enquanto os monumentos clássicos da cidade permanecem em ruínas.

Para combater esse Estado totalitário, Ezio percebe que a lâmina oculta deve ser acompanhada pela diplomacia. O tabuleiro expande-se quando a resistência se articula entre guildas locais e figuras históricas, como Catarina Sforza e o próprio Nicolau Maquiavel. O debate intelectual entre Maquiavel e Ezio permeia a narrativa, questionando se o caos humano exige o punho de ferro que os Borgia oferecem ou se a liberdade pode ser organizada através de uma "Irmandade". Ao final, o jogador se vê participando de uma guerra para derrubar uma estrutura que usava a fé como escudo e a Maçã como recurso para o controle absoluto.

O Príncipe, por Nicolau Maquiavel

Um dos aspectos mais fascinantes da narrativa de Brotherhood é a dinâmica entre Ezio Auditore e Nicolau Maquiavel. A Ubisoft brinca com a ironia histórica ao colocar Maquiavel como o "Secretário da Irmandade", um reflexo direto de seu cargo real como Secretário da Segunda Chancelaria de Florença. No título, ele atua como o mestre da logística e da inteligência, mas também como um homem cético e pragmático. Inicialmente, Nicolau duvida da capacidade de Ezio de liderar uma resistência contra a máquina de guerra dos Borgia, acreditando que a Itália talvez precisasse de um líder absoluto para se unificar.

No entanto, ao observar a ascensão gradual de Ezio, Maquiavel vê a teoria se tornar prática: ele testemunha o nascimento de um líder que subverte sua máxima mais famosa — a de que "é melhor ser temido do que amado, se não puder ser os dois". Ezio prova ser amado pelo povo e temido pelos opressores, alcançando o equilíbrio e a virtude necessária para um soberano ideal.

A produção sugere, de forma brilhante, que as experiências vividas ao lado do Assassino serviram de laboratório para que Maquiavel escrevesse sua obra-prima, O Príncipe. A jornada de Ezio para reconstruir a infraestrutura de Roma e unificar as guildas é apresentada como a aplicação prática do poder organizado para o bem comum. Ao final do jogo, quando Ezio é formalmente empossado como o Mentor da Irmandade na Itália, a transição se completa. 

A inclusão dessa subtrama transforma Assassin’s Creed em algo além de um título de ação: é alçado a uma posição de ser um comentário sobre como a história e a literatura se alimentam da ação direta de indivíduos que se recusam a aceitar o status quo. Ezio se torna a inspiração literária para o tratado político mais importante da Renascença, validando que a verdadeira liderança vem da capacidade de inspirar a liberdade em outros, não bastando apenas a linhagem de sangue.

A Leoa de Forli

A presença de Catarina Sforza em Brotherhood ancora a narrativa no mundo real das táticas militares e da coragem inabalável. Conhecida historicamente como a "Leoa de Forlì", Catarina personifica o conceito renascentista de Virago — termo utilizado para descrever mulheres que possuíam a fibra, a coragem e a inteligência estrategista tradicionalmente (e erroneamente) atribuídas apenas aos homens da época. O jogo recria com intensidade o cerco à sua fortaleza e sua recusa em dobrar o joelho, mesmo diante de ameaças brutais contra seus filhos. 

A Ubisoft utiliza Catarina para mostrar que os Assassinos eram o braço invisível de uma rebelião composta por governantes que se recusavam a aceitar a hegemonia de Cesare. Sua aliança com Ezio, além de estratégica, é um reconhecimento mútuo entre dois líderes que perderam tudo para o nepotismo de Roma e encontraram na retaliação um novo propósito, validando o respeito da Irmandade pela competência e pela bravura, independente do gênero.

Lucrezia Borgia: vítima e vilã

Enquanto Cesare representa o punho de ferro, Lucrezia Borgia é a personificação das intrigas palacianas e dos segredos mais profundos do Vaticano. A produção explora as polêmicas históricas que cercam sua figura, sugerindo uma relação obsessiva com o irmão, o que serve para pintar os Borgia como uma dinastia moralmente falida. Entretanto, a narrativa também permite enxergar Lucrezia como um subproduto de seu meio. O custo pessoal da guerra dos Assassinos contra sua família é evidenciado pela perda de seus afetos e pela forma como ela foi usada desde cedo como moeda de troca em casamentos políticos por seu pai, Rodrigo. 

A missão em que Ezio a captura dentro do Castelo de Santo Ângelo revela que, por trás da fachada de vilania, Lucrezia era o "ponto fraco" emocional de Cesare e uma peça fundamental na logística da família. Ao confrontá-la, Ezio não está apenas enfrentando uma inimiga, mas testemunhando o colapso de uma mulher que viu sua lealdade familiar ser retribuída com o desmoronamento de seu mundo e o abandono final por parte daqueles que ela mais tentou proteger.

O desmantelamento do império Borgia

Em Roma, a estratégia de Ezio muda: para chegar ao alvo máximo, ele precisa primeiro cortar as mãos que alimentam e protegem a guerra de Cesare. A "lista de alvos" de Brotherhood é um exercício de desmonte estrutural, focando em generais, financiadores e aliados políticos que sustentavam o domínio Templário sobre a Itália.

Juan Borgia:

No jogo: responsável por financiar as campanhas militares de Cesare, sua morte ocorre durante uma festa extravagante e depravada, simbolizando o excesso financeiro dos Borgia. Uma vez eliminado, esse personagem rompe o fluxo de ouro que mantinha os mercenários leais a Cesare.
Na história: conhecido como Juan Borgia, o Maior, foi um cardeal influente e parente de Rodrigo. Sua posição reflete a realidade de como a família utilizava membros do alto clero para controlar o tesouro papal, redirecionando dízimos e indulgências para financiar a expansão da dinastia.

Octavian de Valois:

No jogo: aliado militar francês que fornece tropas e poder de fogo, o Barão de Valois representa a ameaça externa e a força bruta. Após sua queda, Cesare se vê isolado diplomaticamente e com as defesas das muralhas da cidade enfraquecidas.
Na história: embora ficcional, ele representa a presença real das tropas de Luís XII de França na Itália. Durante as Guerras Italianas, as alianças eram sensíveis, e a família Borgia dependia criticamente do suporte francês para manter sua hegemonia.

Micheletto Corella:

No jogo: o braço direito e soldado mais letal de Cesare. Ele funciona como o “anti-Ezio": enquanto Ezio usa o anonimato para libertar os necessitados, Micheletto o usa para espalhar terror. 
Na história: Micheletto foi um condottiero (líder de exércitos mercenários contratados por cidades-estado italianas durante a Idade Média e a Renascença) e um assassino real a serviço de Cesare Borgia, famoso por sua crueldade e eficiência. Registros históricos relatam que ele era o homem encarregado de "limpar" os opositores.

Cesare Borgia:

No jogo: o antagonista que acredita estar acima de tudo e todos — até da própria morte e do destino. Seu fim ocorre em uma batalha épica em Viana, onde Ezio o lança de uma muralha, encerrando o ciclo de tirania que começou com a destruição de Monteriggioni.
Na história: Cesare realmente morreu em 12 de março de 1507, durante o cerco ao Castelo de Viana, na Espanha. Após a queda da família na Itália, ele fugiu para servir ao Rei de Navarra. Morreu em uma emboscada, um fim melancólico para o homem que Maquiavel um dia acreditou ser o salvador da Itália.

Rodrigo Borgia (Papa Alexandre VI):

No jogo: Rodrigo é assassinado pelo próprio filho; em um de seus surtos de fúria, Cesare o sufoca com a maçã envenenada que o próprio Rodrigo pretendia usar para matá-lo. Ezio chega apenas para testemunhar o fim do homem que foi seu nêmese por décadas, decidindo, novamente, não desferir o golpe final em um inimigo já caído.
Na história: Rodrigo morreu em 18 de agosto de 1503. Embora a versão oficial cite malária ou febre, rumores de envenenamento persistiram por séculos. A obra se utiliza desse boato para criar o clímax da ruptura entre pai e filho, simbolizando que a ambição dos Borgia era tão tóxica que acabou por devorar a si mesma.

Francesco Troche:

No jogo: Francesco é o camareiro e secretário de confiança de Cesare. Ele tenta fugir de Roma após perceber que seu mestre foi totalmente consumido pela insanidade. Ezio o persegue para obter informações sobre o paradeiro de Cesare, porém Francesco acaba assassinado por Micheletto antes que o Assassino possa interrogá-lo.
Na história: Francesco Troche foi um dos homens mais próximos de Cesare; ele foi encontrado morto (estrangulado) em 1503. A razão histórica foi que ele teria revelado segredos de Cesare ao rei da França. No título, sua morte serve para mostrar que Cesare começou a eliminar seus próprios aliados por paranoia, marcando o início de sua queda.


Embora a lista de Ezio tenha desmantelado o exército de Cesare, o golpe final na estrutura de poder de Roma veio de uma traição doméstica, retratada de forma magistral. Diferente do esperado, Ezio não é o carrasco de seu maior nêmese e compreende que, para alguns vilões, o pior castigo não é a morte, mas ver seu legado reduzido a nada com o veneno da própria ambição.

Em busca das origens

Com a queda definitiva do clã valenciano e a restauração da "Cidade Eterna", Ezio atinge o topo de sua influência política. No entanto, o triunfo em Roma traz consigo um silêncio inquietante. Aos 52 anos, o agora nobre florentino percebe que dedicou sua vida a uma causa que herdou, porém cujos mistérios mais profundos ainda lhe são desconhecidos. As perguntas que seu pai deixou em aberto e a conexão espiritual com Altaïr, tornam-se um chamado impossível de ignorar.

No próximo capítulo desta série, iremos em direção ao coração do Império Otomano e acompanharemos um Ezio mais velho, sábio e melancólico, que abandona as glórias da Itália para buscar, entre as bibliotecas perdidas de Masyaf as revelações definitivas sobre o Credo e o seu próprio destino.

Revisão: Thomaz Farias
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Windsor Santos
Jogadorino desde os áureos anos 90, geralmente surpreende amigos com a quantidade de títulos que já finalizou. Divide o amor por games com seus mangás, Hq's e filhotes. Agora seu objetivo é registar seus conhecimentos para as novas gerações de jogadores.
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