Guardian Heroes, clássico da Treasure para o Sega Saturn, completa 30 anos

No auge do 3D, a criadora de Gunstar Heroes criou uma autêntica pancadaria em 2D.

em 13/02/2026
A Treasure é uma das desenvolvedoras antigas de que mais sinto saudades nos últimos tempos. Durante os anos 1990 e começo dos anos 2000, ela era referência em jogos estilosos, feitos para aproveitar as qualidades do hardware ao mesmo tempo que investiam em ideias “fora da caixinha”. 


Em 1996, fazendo sua estreia no Sega Saturn, foi lançado Guardian Heroes, um beat ‘em up 2D com elementos de RPG e espírito de jogo de luta. O título rapidamente se tornou um dos queridinhos dos 32 bits e um grande clássico cult.

Indo contra a maré

Indo contra a moda do momento, a Treasure resolveu apostar no poder do Sega Saturn para trazer um título 2D de alta qualidade. Era um período em que apostar em gráficos bidimensionais era visto com maus olhos em regiões ocidentais — a própria Sony tinha uma política de desincentivar jogos 2D no Ocidente, com algumas exceções como as produções da Capcom. 

Na visão do ex-designer da Treasure Tetsuhiko “Han” Kikuchi, numa entrevista para a sétima edição da revista britânica MAXIMUM The Video Game Magazine, tanto 2D quanto 3D poderiam viver lado a lado. Não querendo abandonar a experiência da desenvolvedora no uso de sprites e tendo mais recursos com uma plataforma mais capaz em mãos, Guardian Heroes recebeu influência dos beat ‘em ups e novas ideias.

Guardian Heroes começa no meio da pancadaria. Han, Nicole, Randy e Ganjiro, os quatro personagens jogáveis, são atacados por cavaleiros que estão atrás de uma lendária espada na posse de Han. Eles são interceptados pelo líder da organização e, no meio da batalha, a espada invoca um poderoso guerreiro zumbificado que responde aos comandos dos heróis.

Posteriormente, descobrimos que o universo de Guardian Heroes foi criado por um tipo de deus, que posteriormente criou os Espíritos do Céu e da Terra. Por diversos desentendimentos, os Espíritos do Céu deram poder para os humanos — que viraram magos — para lutar contra os Espíritos da Terra, que foram aprisionados. No fim da guerra, com receio dos humanos, eles aprisionaram os magos, e os humanos restantes resolveram confiar apenas na força bruta, iniciando a Era das Espadas.

Kanon, um dos magos, conseguiu fugir da prisão com a ajuda dos Espíritos da Terra e criou seu próprio reinado, banindo todas as espadas após receber a profecia do rei anterior, defensor da Era das Espadas. A espada que Han possui é justamente a única que sobrou dessa situação. O caminho que tomamos determina o lado em que estaremos na guerra, seja contra os Espíritos ou diretamente com o próprio Kanon. Inclusive, um dos caminhos nos leva a uma espécie de ligação com outro título da Treasure, Gunstar Heroes, o que nos leva a cogitar uma ligação entre os dois universos.

Guerra entre planos

Como mencionado, Guardian Heroes é um beat ‘em up, mas diferente da maioria do gênero. Em vez de um controle livre presente em títulos como Final Fight e Streets of Rage, temos um combate preso entre planos, algo que a própria Treasure experimentou em Yu Yu Hakusho: Sunset Fighters, do Mega Drive. A lógica é parecida, bastando apertar um botão para ir para frente ou para trás na tela. Isso pode parecer uma limitação, mas vai de encontro ao estilo de jogabilidade adotado, que se assemelha a um jogo de luta em alguns aspectos. 

É possível realizar golpes fracos e fortes, que podem mudar de acordo com o pressionar do direcional, defender e realizar ataques aéreos. Além disso, a maioria dos personagens pode usar técnicas mágicas, já que há a presença de uma barra de mana. Apertando um botão para escolher numa lista ou usar combinações ao estilo dos fighting games, esses ataques podem ser a chave para um combo estiloso ou para lidar com um grupo insistente de inimigos.

Entender todo o sistema de combate é a chave para dominar Guardian Heroes, pois não é uma aventura fácil. É comum aparecerem vários oponentes ao mesmo tempo na tela, e a quantidade de inimigos voando durante a pancadaria pode nos deixar confusos — especialmente quando envolve as magias. Vale lembrar que apesar de o progresso ser salvo, temos que lidar com um sistema de continue, em que perder todas as tentativas resulta em um game over total.

É aí que entra a parte de RPG para dar uma leve facilitada. Vamos evoluindo nossos guerreiros durante um capítulo e, ao final dele, podemos distribuir pontos de atributos em força, determinando o poder dos ataques normais e quão longe os oponentes voam: vitalidade, aumentando o máximo de HP; inteligência, que melhora a eficiência das magias; sabedoria, permitindo o uso de mais magias; agilidade, que aumenta a velocidade de movimentação; e sorte, que pode dar bônus de força e defesa aleatoriamente. 

Cada personagem começa com valores pré-estabelecidos, e podemos customizar da forma que quisermos — embora não faça sentido dar pontos de inteligência para Han, por exemplo.

Outro ponto divertido de Guardian Heroes está no modo versus, abraçando ainda mais a alma de jogo de luta. Com combates para até seis jogadores, não só os heróis do modo história podem ser selecionados, como também os inimigos podem ser desbloqueados, cada um com seu próprio conjunto de movimentos.

O poder dos 32 bits

O Saturn era uma peça curiosa de hardware, por erros e acertos da própria Sega, e Guardian Heroes era um dos exemplos do que o videogame conseguia fazer. Contando com sprites e elementos em 2D, o uso de escalonamento é bem acentuado para nos dar a sensação de profundidade, ao mesmo tempo que os visuais ficam bem detalhados com tanta coisa na tela. 

Contudo, o 3D também é utilizado para dar uma ajudada em efeitos de pré-processamento e em construir o ambiente, como o chão e camadas de background. Claro, ainda é um título em baixa resolução, então a mescla de pixel art e polígonos de baixa resolução deixa o visual mais “crocante”, mas faz parte do charme do 2D e tudo isso sem muita ocorrência de slowdowns.

O design dos personagens é pura estética Treasure anos 1990, com proporções cartunescas que destacam as características de cada personagem, como os olhos finos de Ganjiro e a anatomia de brutamonte de Han, mesclando o estilo anime japonês com o cartoon ocidental. Essa personalidade funciona tanto em pixel art quanto na excelente abertura animada do jogo. 

O design dos personagens é pura estética Treasure anos 1990, com proporções cartunescas que destacam as características de cada personagem, como os olhos finos de Ganjiro e a anatomia de brutamonte de Han, mesclando o estilo anime japonês com o cartoon ocidental. Essa personalidade funciona tanto em pixel art quanto na excelente abertura animada do jogo.

O legado dos guardiões

Guardian Heroes, assim como Gunstar Heroes, recebeu uma continuação no Game Boy Advance. Saindo do sistema de planos para movimentação aberta, o jogo do portátil foca um pouco mais em plataforma e puzzles em certos segmentos, mas sem abrir mão do combate e dos elementos de RPG do original. E assim como a aventura dos atiradores, é um título que usa bem o hardware do GBA.

No Xbox 360, no auge dos relançamentos pela Xbox Live Arcade, Guardian Heroes recebeu um remaster. Trazendo alguns tratamentos gráficos para suavizar o pixelado e revisando os controles num novo modo, é possível jogar num estilo mais aproximado do Saturn (incluindo gráficos) ou remixar as melhorias ao gosto do jogador. Além disso, o modo versus para seis jogadores foi expandido para doze, trazendo um caos generalizado e usando a proporção de tela 16:9 a favor.

Estando no panteão dos clássicos da Treasure, Guardian Heroes é um daqueles clássicos cult dos 32 bits que merecem mais atenção, tanto como um jogo 2D numa era em que o 3D estava sendo o foco quanto pelo próprio gênero de beat ‘em up, que passava por uma baixa de interesse na época. Vale a pena revisitá-lo — ou conhecê-lo — até os dias de hoje.

Revisão: Ives Boitano
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Alecsander "Alec" Oliveira
Estudante de enfermagem de 25 anos, está nesse mundo dos joguinhos desde criança. Fã de games com vibe mais arcade e arqueólogo de velharias, mas não abandona experiências mais atuais. Acompanha a mídia de podcasts, dublagem e ouvinte assíduo de VGM. Pode ser encontrado como @AlecFull e semelhantes por aí.
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