Tomb Raider: um reinício divertido para Lara Croft, apesar de alguns tropeços

Lara Croft volta ainda mais humana numa difícil jornada por sua sobrevivência.

em 08/02/2026

Lara Croft sempre foi um ícone dos videogames, mas em 2013 a personagem passou por sua maior transformação. Menos confiante, mais vulnerável e colocada diante de situações extremas, essa nova Lara marca um ponto de ruptura com o passado da franquia e também o início de uma fase mais humana, intensa e cinematográfica.

Lançado em um momento em que reboots dominavam a indústria, Tomb Raider (2013) tinha uma missão delicada: modernizar uma série clássica sem apagar sua identidade. O resultado é uma aventura sólida, empolgante e emocionalmente mais crua, ainda que carregue decisões de design que não envelheceram bem.

Nasce uma sobrevivente

Tomb Raider se inicia com uma imagem que dialoga diretamente com o legado da franquia: Lara Croft diante do espelho, em uma cena de CGI tecnicamente impressionante. Pouco depois, o jogo apresenta o contexto da expedição: Lara e sua equipe seguem rumo à ilha de Yamatai, uma terra isolada próxima ao Japão, em busca de vestígios históricos. A jornada, no entanto, é abruptamente interrompida por uma tempestade violenta que provoca o naufrágio do navio.


A partir desse ponto, a narrativa muda de tom. Lara acorda sozinha, ferida e completamente fora de controle da situação. Presa na ilha, ela precisa sobreviver às condições hostis do ambiente, reencontrar os demais sobreviventes e encontrar uma forma de escapar daquele lugar. É nesse cenário que o jogo constrói sua principal força narrativa: a transformação gradual da personagem.

Lara funciona muito bem como uma protagonista inexperiente. O jogo insiste em mostrar seu desgaste físico e emocional: o frio constante, a fome, os ferimentos e as cicatrizes acumuladas ao longo da jornada ajudam a reforçar que essa não é ainda a aventureira confiante que o público conhece. O problema é que essa atenção quase exclusiva à protagonista deixa o restante do elenco em segundo plano. Fora Lara, poucos personagens recebem desenvolvimento significativo, e muitos acabam soando rasos ou funcionalmente descartáveis.


Os antagonistas também não contribuem para enriquecer esse aspecto. A premissa do vilão principal é interessante: assim como os demais, ele está preso em Yamatai e desesperado para escapar, usando sua interpretação religiosa dos mistérios da ilha para justificar atos cada vez mais extremos. Existe ali um conflito potencial entre fé, fanatismo e sobrevivência, mas ele raramente é explorado com profundidade. Com exceção desse líder, os demais inimigos se resumem a obstáculos armados, servindo mais como alvos do que como ameaças narrativas reais.

O elemento sobrenatural surge aos poucos, reforçando o clima de horror. Entre as ruínas da ilha, figuras grotescas vestidas como antigos samurais emergem da escuridão, caçando, matando e devorando suas vítimas. Esses momentos ajudam a expandir o mistério de Yamatai e dão peso ao terror do ambiente, ainda que muitas vezes funcionem mais como choque visual do que como parte orgânica da história.


Lara contra a ilha

A ilha onde a trama se desenrola é mais do que um simples pano de fundo. Yamatai funciona como um personagem à parte, sempre hostil e imprevisível. Florestas densas, ruínas antigas, instalações abandonadas e penhascos instáveis compõem um ambiente que constantemente ameaça Lara e o jogador, reforçando a sensação de que a própria natureza está em oposição à sua sobrevivência.

Visualmente, Tomb Raider se beneficia muito dessa concepção. A direção de arte alterna com eficiência momentos de contemplação com sequências claustrofóbicas, sustentando o clima de isolamento e perigo. O problema surge na estrutura do mundo. Apesar da aparência expansiva, o jogo adota um design fortemente guiado, com áreas bloqueadas artificialmente até que a narrativa permita o avanço. Isso acaba criando um vai e volta mecânico, em que o jogador retorna a regiões já visitadas apenas para abrir uma nova passagem, coletar um artefato ou ganhar alguns pontos de experiência.


O combate é outro ponto que gera debate. A Lara vulnerável apresentada pela narrativa entra em conflito direto com a jogabilidade, que rapidamente a transforma em uma combatente altamente eficiente. A grande quantidade de inimigos humanos e a frequência dos confrontos diluem a sensação de fragilidade inicial, criando uma dissonância clara entre a história que o jogo tenta contar e a forma como ele é jogado.

O sistema de progressão, por sua vez, é sólido do ponto de vista mecânico. Ganhar experiência, desbloquear habilidades, melhorar o arco e personalizar armas traz uma sensação constante de recompensa. Ainda assim, essa estrutura aproxima Tomb Raider mais de um shooter de ação do que de uma aventura focada em exploração, uma escolha que divide opiniões e se afasta um pouco da identidade clássica da franquia.


É nas tumbas
os opcionais que o jogo mais se reconecta com suas origens. Esses espaços oferecem quebra-cabeças ambientais bem construídos, baseados em observação, tempo de execução e uso inteligente do cenário. Embora sejam curtos, representam os momentos mais “Tomb Raider” da experiência.

Nesses trechos, o jogo encontra um equilíbrio interessante entre passado e presente. Sem combates excessivos, os túmulos reforçam o lado arqueológico da personagem e lembram que Lara não é apenas uma sobrevivente armada, mas alguém movida pela curiosidade e pela descoberta. Ainda assim, eles nem sempre se integram bem ao ritmo da narrativa principal, gerando situações estranhas em que a urgência de salvar um companheiro entra em choque com a decisão de explorar mais uma tumba opcional pelo caminho.


Lindo e trêmulo

Mesmo visto hoje, Tomb Raider ainda impressiona visualmente. A combinação entre selvas densas, ruínas antigas e destroços mais modernos transforma a ilha de Yamatai em um cenário ao mesmo tempo belo e ameaçador. A direção de arte consegue equilibrar bem o fascínio pela paisagem com uma sensação constante de perigo, reforçando o clima de sobrevivência que guia toda a experiência.

Ainda assim, a idade do jogo se faz notar em alguns pontos. Certas animações carecem de naturalidade e as expressões faciais, especialmente durante a jogatina, soam rígidas e pouco expressivas. A escolha por uma câmera constantemente trêmula também é discutível. Embora ajude a transmitir instabilidade e tensão, em vários momentos ela se torna mais irritante do que imersiva. Restringi-la às cenas de corte talvez fosse uma decisão mais elegante e menos cansativa para o jogador.


No aspecto sonoro, o jogo cumpre seu papel sem se destacar. A trilha sonora funciona bem como apoio emocional e os sons ambientes contribuem para a atmosfera da ilha, mas nada ali se fixa na memória. É competente, porém esquecível.

O trabalho de vozes, por outro lado, deixa mais a desejar. Mesmo Lara, a personagem mais bem desenvolvida da narrativa, por vezes soa artificial, alternando entre momentos de calma e explosões de gritos sem transições naturais. Falta nuance emocional nas interpretações, o que enfraquece cenas que deveriam carregar mais peso dramático. Esse problema se estende a boa parte do elenco, resultando em atuações que raramente acompanham a intensidade dos acontecimentos em tela.


Um reboot que redefine o futuro

Apesar dos tropeços, este Tomb Raider cumpre seu objetivo central: redefinir Lara Croft para uma nova geração. O jogo estabelece as bases narrativas e mecânicas que seriam aprofundadas e refinadas nos títulos seguintes, ao mesmo tempo em que prova que a personagem é capaz de sustentar uma história mais íntima, emocional e humana sem perder sua relevância cultural.

Não se trata de um jogo perfeito e talvez nem tente ser. Sua maior força está na coragem de desconstruir um ícone dos videogames e reconstruí-lo peça por peça, mesmo assumindo o risco de que algumas escolhas não se encaixem com precisão. Essa disposição para errar faz parte do processo de renovação.


No balanço final, Tomb Raider é uma aventura marcante, divertida e historicamente importante para a franquia. Ele não apenas salvou a série de uma estagnação criativa, como redefiniu o caminho que Lara Croft seguiria dali em diante.

Mais do que responder quem Lara Croft é, Tomb Raider se dedica a mostrar como ela se torna quem sempre esteve destinada a ser.




Revisão: Vitor Tibério
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Matheus Bigai Ferreira
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