Demon Turf foi um título que conseguiu certa atenção no meio indie. O jogo de plataforma da Fabraz que mistura elementos 2D com 3D apresentou bastante carisma no controle da aspirante a rainha dos demônios Beebz, e apesar de ser uma boa produção, pecava em algumas partes técnicas. O game recebeu mais duas campanhas menores posteriormente.
Agora, temos a verdadeira continuação com Demon Tides. Mudando totalmente para o 3D e apostando num mundo aberto e mais próximo de um collectathon, a nova aventura troca os mundos diabólicos por diversas ilhas num enorme mar. Essa ambição resultou num dos jogos de plataforma mais interessantes dos últimos tempos, mas que tropeça em problemas corriqueiros.
Sente a maresia
Ambientado logo depois de Demon Turf, Demon Tides começa com a trupe da rainha Beebz indo em direção ao lar de seu pai, Ragnar, chamado de Ragnar’s Rock. Contudo, a navegação é interrompida por estranhas estruturas carregadas com um fluido suspeito, que acaba cercando o bando.
Essa parte de aprisionamento é curta e serve como um tutorial para nos habituarmos aos controles de Beebz, que imediatamente nos mostra sua superioridade aqui. Carregando algumas das habilidades adquiridas em Demon Turf, temos uma liberdade absurda com as transformações demoníacas, como a de morcego, que nos permite um pulo duplo e melhor manobragem no ar, e a de cobra, que consegue nos movimentar rapidamente no solo.
Demon Tides tem uma preferência clara em nos dar total liberdade sobre os controles de Beebz. Seja da forma mais segura possível ou partindo de saltos absurdos com uso de investidas e habilidades de parkour, como agarrar ou andar em paredes, a jogabilidade vai nos ajudar com nossa abordagem. É algo que a própria Fabraz chama de “plataforma expressiva”, e realmente ela consegue isso.
Para incentivar manobras mais ousadas e nos dar uma margem de aprendizado sem grandes consequências, é possível fincar uma bandeira em qualquer lugar estável que servirá de checkpoint. Era uma mecânica que existia em Demon Turf, e apesar de permitir apenas um ponto em vez de três, continua sendo uma baita ferramenta e totalmente necessária para a filosofia de design do jogo.
O foco em plataforma é ainda mais evidenciado aqui, ao ponto de praticamente não haver um sistema de combate propriamente dito. Há pouquíssimos inimigos pelo caminho, e todos eles são eliminados com simples ataques teleguiados à la Sonic. Considerando que os combates de Demon Turf eram um dos piores aspectos dele, é uma mudança válida — ainda que seria mais legal fazer algo mais polido com isso.
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| É possível deixar sprays pelo mundo todo, e outros jogadores conseguem ver e avaliar sua arte. |
Beebz e sua galera acham o navio e conseguem escapar daquele ambiente esquisito e vão parar no enorme mar de Ragnar’s Rock, revelando a maior novidade de Demon Tides: o seu mundo aberto. Dividido em três regiões, vamos navegar pelas águas azuis do reino atrás de ilhas que servem como fases separadas, em busca dos mais diversos itens e segredos.
Buscando os pedacinhos de chão
O objetivo principal — ou nesse caso, o item principal — é achar as Golden Gears em uma região, que com um mínimo requerido servem para conseguir acessar a próxima área, tal qual as estrelas de Super Mario 64. Na maioria das vezes, elas são obtidas mediante uma missão, como levar um filhote para sua mãe, enfrentar um chefe e realizar um desafio cronometrado.
Entretanto, como rege um collectathon, há mais coisas para coletar no meio do caminho, como moedas para obter itens de customização ou os próprios itens em si, e talismãs que adicionam novos atributos aos movimentos da demonia, ou até mesmo dão novas habilidades para ela, por exemplo, um paraquedas. Em algumas ilhas há certos gimmicks mais específicos para aquele ambiente, como um que permite investidas infinitas na forma de morcego.
Navegar pelos mares de Ragnar’s Rock remete a The Legend of Zelda: Wind Waker, só que bem melhor. O mar em si não tem nada de tão interessante para se fazer, então basta se transformar em cobra e sair rasgando a água em alta velocidade. A exploração fica bastante natural com tal dinamismo, nos incentivando a explorar cada canto do mapa atrás de uma ilha, tudo sem telas de carregamento.
Entretanto, nem tudo funciona tão perfeitamente assim, e Demon Tides continua tendo o mesmo problema de outrora: a câmera. Tendo seu controle totalmente manual, com raros momentos em que ela é posicionada em ângulos específicos, a maior parte das mortes e quedas que tive foi por causa dela entrando num objeto da tela, se colocando numa visão desfavorável durante um pulo e atrapalhando o senso de profundidade.
É bastante difícil criar uma câmera 100% funcional num jogo de plataforma tão livre assim, mas daria para oferecer algumas opções como afastar mais a visão, dar uma opção mais automática para onde estamos indo e por aí vai. É levemente melhor que a de Demon Turf, sim, porém continua sendo um problemão que só não estressa tanto pelo sistema de checkpoint livre.
Problemas persistentes
Aplaudo bastante a ousadia de Demon Tides de criar o mundo aberto e acho mais interessante a ideia dos visuais totalmente poligonais dessa vez, no entanto, as ideias vêm com algumas ressalvas técnicas. A primeira delas está na direção de arte, que novamente acerta nos designs marcantes dos personagens, mas peca em certas decisões.
A primeira delas é que certas ilhas contam com um filtro de cor específico, especialmente aquelas contaminadas pelo fluido estranho do começo do título, deixando tudo num tom só. Servem para a ambientação do local a ser visitado, contudo, algumas cores são berrantes demais ao ponto de doer os olhos. Fora esse detalhe, o visual geral cumpre seu propósito e consegue ser bonito em algumas áreas, como numa floresta com folhas vermelhas no segundo mapa.
O segundo está nos travamentos que ocorrem quando estamos explorando o mar, provavelmente por estar fazendo um carregamento interno para carregar a área que vamos visitar. Contudo, o carregamento não consegue acompanhar a velocidade às vezes, e é comum acontecer de uma ilha simplesmente carregar tudo na nossa cara assim que chegamos nela. Não é algo que chega a atrapalhar durante os momentos de plataforma, porém entrega a falta de polimento — assim como o mencionado problema da câmera.
A trilha sonora, por outro lado, trouxe uma clara evolução. O estilo EDM continua prevalecendo, agora muito mais inspirado e marcante que antes, seguido de algumas faixas mais lo-fi e outras instrumentais melancólicas. Um bom jogo de plataforma precisa de boas músicas, e Demon Tides consegue atender nesse aspecto.
E, infelizmente para os brasileiros, Demon Tides não conta com localização de textos para português. Considerando que há bastante diálogo e algumas missões dependem disso, pode prejudicar um pouco o entendimento da narrativa, mesmo não sendo o foco.
O diabo está nos mares
Embora apresente os problemas de câmera e decisões de arte estranhas, Demon Tides é um bom exemplo de continuação que aperfeiçoa o potencial de uma entrada anterior e ainda adiciona mais personalidade em cima. O mundo aberto adiciona mais à experiência, há muitas habilidades para adquirir e muitas ilhas para desbravar.
Tudo isso vem acompanhado de uma jogabilidade que não tem medo de desafiar as capacidades do público, recompensando aqueles que se arriscam a fazer saltos malucos e aproveitando ao máximo os recursos que o título oferece. Fabraz está evoluindo bastante com seus próximos projetos, e mal posso esperar pelo vindouro e surpreendentemente interessante Bubsy 4D nas mãos dela.
Prós:
- A adição do mundo aberto fez muito bem para o design de plataforma;
- Diversas ilhas para descobrir, com uma navegação fácil e dinâmica;
- Jogabilidade que incentiva a criatividade e habilidade do jogador, usando o sistema de checkpoint livre para não punir tanto os erros;
- Controles aprimorados de Demon Turf, sendo mais fácil de manusear;
- Boa trilha sonora, com foco em música eletrônica e bastante diversa.
Contras:
- A câmera continua difícil de administrar, prendendo em lugares inadequados e dificultando nossa percepção de profundidade;
- Mesmo praticamente sem loadings, há pequenas travadas durante a exploração do mundo aberto;
- Algumas ilhas contam com filtros de cores que enfeiam a direção de arte;
- Ausência de localização dos textos para português.
Demon Tides — PC — Nota: 8.0
Revisão: Thomaz Farias
Análise produzida com cópia digital cedida pela Fabraz













