Análise: Under the Island acerta no prazer de explorar uma ilha agradável e misteriosa

Um Zelda-like muito competente e bonito em uma ambientação tranquila.

em 16/02/2026

O que primeiro chama atenção em Under the Island é seu visual de pixel art vibrante. É uma estética que pode ser associada de imediato a jogos de Game Boy Advance, em especial a The Legend of Zelda: The Minish Cap, mas com maior profundidade de cores e capacidade de detalhes.

Com muitos detalhes, animações de cenário, belo design de personagens, retratos de diálogos e uma porção de segredos para descobrir, a ilha que dá nome ao jogo é um lugar vívido, perfeito para uma aventura carismática e de exploração empolgante, embora o mesmo não possa ser dito do combate.



Férias forçadas em uma ilha agradável

Nia, nossa protagonista, é uma adolescente que precisa acompanhar os pais para uma estadia de três meses em uma ilha. Lá, o casal fará pesquisas arqueológicas para a universidade onde trabalham, mas Nia, sendo garota da cidade, não está animada com o plano. Mesmo assim, ela é cheia de energia e logo sai para explorar a comunidade local da Vila Koala. É assim que se vê envolvida em uma trama de civilizações antigas, seres estranhos e uma corrida para evitar uma catástrofe: a ilha inteira está afundando.

Under the Island não perde tempo com o drama da menina contrariada nem com as surpresas que envolvem descobrir destinos inacreditáveis. Além disso, ainda que aquele mundo tenha um pé na nossa realidade — o jeitão de cidade do interior, com casas, bar, mercado, fazendas e prédios comunitários, lembrando bastante a atmosfera agradável de Stardew Valley —, Nia não parece estranhar quando se depara com animais falantes e criaturas perigosas.



Portanto, a história também não precisa passar pelo processo de convencer a heroína e inseri-la em uma realidade nova. Nia é do tipo que acredita no que vê e entra logo na aventura para resolver as coisas com as próprias mãos, levando consigo a pessoa que joga direto para a ação e exploração.

Essa construção narrativa acaba sendo uma faca de dois gumes. Por um lado, a agilidade do enredo faz com que Under the Island possa ser cheio de NPCs para interagir, sem que isso atrapalhe o fluxo da campanha ou o obrigue a se demorar em longos diálogos e explicações.

Por outro lado, essa praticidade impede que a comunidade da ilha e seus personagens sejam aprofundados e se tornem marcantes para além do bom design em pixel art. A ideia de Nia ser apenas uma recém-chegada a uma ilha na qual nunca pisou logo perde sua força, pois ela circula pela comunidade local como se vivesse ali há anos.



O exemplo mais claro é Avocado, a companheira de Nia: elas se conhecem logo no início e quase de imediato começam a se tratar como amigas que vão salvar a ilha. Quando se reencontram, mais tarde, Avocado age de forma competitiva. São relações que sugerem familiaridade que não vimos ser construída.

Mesmo que isso combine com o clima leve e lúdico da aventura, e certamente agrade a quem só quer focar na gameplay, fica a sensação de uma narrativa que é mais superficial do que realmente gostaria de ser.



Descobertas abaixo e acima da ilha

A exploração, por sua vez, é o ponto alto do jogo, sendo repleta de caminhos a conhecer, cavernas a adentrar e segredos para desvendar. Under the Island apresenta um grande grau de abertura e segue de perto o formato conhecido da série Zelda, no qual navegamos pelo mundo geral da superfície, pontilhado de entradas para dungeons isoladas. É nelas que adquirimos habilidades de travessia, o que expande nossas trilhas possíveis pela ilha.

Ainda assim, a progressão não cai na linearidade, permitindo-nos ir para várias direções e evitar o caminho principal enquanto descobrimos tesouros e locais escondidos. É possível até fazer as quatro dungeons principais fora da ordem indicada.



Há muito conteúdo para manter a atenção: finalizei a campanha em cerca de 15 horas. Certamente, demorei mais que o necessário, pois me dediquei a explorar bastante. Por outro lado, mesmo havendo completado 100% do mapa principal, deixei para trás puzzles não solucionados, segredos não desvendados, trancas não abertas, chaves não localizadas e itens não obtidos, o que deixa claro que há muito mais conteúdo que não consegui alcançar.

É uma experiência desafiadora e satisfatória, com direcionamento não intrusivo que deixa a pessoa que joga descobrir as coisas por si própria, mas sem ser deixada inteiramente à própria mercê.



Algumas mecânicas ajudam nesse ponto. Por exemplo, como o mundo é bastante aberto, há uma personagem exploradora posicionada na entrada de locais perigosos para nos alertar, mas não impedir nosso caminho. Os NPCs da Vila Koala falam sobre o próximo problema da história principal, indicando o local. Placas e personagens dão dicas sobre alguns segredos pelo mundo. Ao carregar o jogo, a própria Nia resume um lembrete do último objetivo alcançado e o próximo em aberto.

Tudo isso é feito de forma tranquila, sem interromper o fluxo nem cair em excessos de exposição ou segurar a mão de quem joga. As ferramentas estão lá para ajudar, mas a responsabilidade de explorar é nossa.



Senti falta, porém, de uma ferramenta que seria muito útil: marcadores de mapa personalizados. São muitos os pequenos segredos inacessíveis que precisamos lembrar para retornar depois, quando enfim adquirimos os meios necessários, mas em várioas ocasiões tive que dar umas voltas para conseguir acertar o local.

O combate, por outro lado, não merece os mesmos elogios, sem sair do básico. Isso poderia ser compensado com inimigos interessantes, mas os poucos chefes que enfrentamos são igualmente básicos e fáceis de derrotar. Não creio que o combate seja o principal elemento de um Zelda-like com visão de cima, mas Under the Island pode decepcionar quem coloca expectativas altas para esse aspecto da gameplay.



Visite uma ilha repleta de pessoas amigas, ruínas e segredos

Com pixel art cativante e um mundo repleto de caminhos e segredos, Under the Island acerta em construir um ótimo senso de exploração e consegue dar à pessoa que joga a liberdade para descobrir as coisas por conta própria sem deixá-la perdida, com bastante auxílio para quem precisa. É um Zelda-like competente, carismático e divertido, mas pode desapontar quem busca combates empolgantes.

Prós

  • Visual colorido e agradável que lembra títulos do Game Boy Advance, mas com muito mais detalhes vívidos;
  • A exploração da ilha é instigante e tem bastante abertura, sem deixar a jornada presa a um caminho único;
  • Há vários recursos de qualidade de vida, como pontos de viagem rápida e auxílios não intrusivos à exploração.

Contras

  • A agilidade do enredo impede que os personagens e a comunidade local sejam aprofundados e se tornem marcantes;
  • O combate se contenta com o básico e os chefes são poucos e desinteressantes;
  • Senti falta de marcadores personalizáveis no mapa para melhor lembrar do que deixamos para trás; 
  • Sem português brasileiro.
Under the Island — PC/PS5/XSX — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PS5
Revisão: Heloísa D’Assumpção Ballaminut
Análise produzida com cópia digital cedida pela Top Hat Studios
OpenCritic
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Victor Vitório
Admiro videogame como uma mídia de vasto potencial criativo, artístico e humano. Jogo com os filhos pequenos e a esposa; também adoro metroidvanias, souls e jogos que me surpreendam e cativem, uma satisfação que costumo encontrar nos indies. Veja minhas análises no OpenCritic.
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