Os anos 1990 foram marcados por intensas disputas entre consoles e suas respectivas empresas. Super Nintendo, Mega Drive, PlayStation, Nintendo 64, Sega Saturn e sistemas mais nichados como 3DO e Neo Geo AES competiam por espaço nos lares dos consumidores — alguns com grande êxito, outros nem tanto.
Entretanto, a guerra dos videogames não se limitava aos consoles de mesa. Os portáteis travavam sua própria batalha paralela. Hoje, sabemos que a Nintendo jamais perdeu sua hegemonia nesse segmento, mas companhias como Sega, Atari e SNK também tentaram conquistar o público ao longo da década.
No Japão, ainda surgiu uma competidora extra: a Bandai. Lançado em 4 de março de 1999, o WonderSwan foi o único portátil de relativo sucesso da empresa de brinquedos. Embora não tenha ameaçado o reinado do Game Boy, o sistema conseguiu construir um legado interessante, ainda que restrito a apenas um país.
Flertando com a tecnologia
A Bandai é amplamente conhecida no Japão por seus produtos licenciados baseados em anime, mangá, tokusatsu e outras franquias populares. No entanto, a empresa flerta com o entretenimento eletrônico desde a década de 1970 — começando com aparelhos LCD de minijogos baseados em propriedades intelectuais e chegando aos icônicos Tamagotchis, que se tornaram um fenômeno cultural nos anos 1990.
Durante essa mesma década, a Bandai tentou emplacar dois consoles. O primeiro foi o Playdia, um curioso sistema baseado em CD-ROM voltado ao público infantil, cuja biblioteca era composta majoritariamente por jogos em Full Motion Video (FMV) com enfoque educativo. A proposta, porém, não sobreviveu além de 1994, ano de seu lançamento.
Na sequência, a Bandai também apostou em uma parceria com o malfadado Apple Pippin, plataforma idealizada pela dona dos iPhones. Em moldes de "consórcio" semelhantes ao 3DO, a Bandai licenciou o hardware para distribuição no Japão e na América do Norte, mas o projeto igualmente fracassou e foi rapidamente abandonado.
É nesse contexto que surge o WonderSwan, concebido como uma tentativa mais tradicional de entrar no mercado de videogames. Mais uma vez em parceria, desta vez com a Koto Laboratories, fundada pelo lendário engenheiro Gunpei Yokoi, o criador do D-Pad e considerado o pai do Game & Watch e do Game Boy.
Yokoi havia deixado a Nintendo em 1996, após o retumbante fracasso do Virtual Boy. Movido por um forte senso de honra pessoal, fundou sua própria empresa e acabou sendo convocado pela Bandai para liderar o projeto de um novo portátil.
Tragicamente, Yokoi faleceu em um acidente de carro em 1997. Ele chegou a concluir seu último trabalho em vida, mas não pôde ver o WonderSwan chegar ao mercado e ganhar forma como seu derradeiro legado.
O equilíbrio entre a eficiência e o poder
O principal foco do WonderSwan era sua acessibilidade. Lançado inicialmente como um portátil de tela LCD monocromática de 2,3”, ele possuía resolução de 224 x 144 — padrão para a época — e já se mostrava mais capaz que o Game Boy mesmo em preto e branco, podendo exibir até 16 tons de cinza.
Em termos de hardware, o WonderSwan também era mais robusto. Utilizava um processador de 16 bits fabricado pela NEC, o V30 MZ, o que permitia gráficos mais detalhados, com backgrounds complexos e um número maior de sprites em tela sem quedas perceptíveis de desempenho.
Fisicamente, o portátil trazia uma disposição curiosa de controles. À esquerda, havia dois conjuntos de quatro botões em formato de cruz, ambos considerados direcionais; à direita ficavam dois botões tradicionais.
Essa configuração possibilitava experiências tanto no modo paisagem (horizontal) quanto no retrato (vertical) — algo que beneficiaria especialmente jogos de rolagem vertical como Mr. Driller. É uma pena que a biblioteca tenha contado com poucos shmups verticais, pois o formato cairia muito bem ao sistema.
No entanto, o áudio era o ponto mais fraco do hardware. Como a maioria dos portáteis do período, o WonderSwan utilizava um chip PSG (Programmable Sound Generator) de quatro canais em formato wavetable, similar ao do Game Boy.
Embora fosse tecnicamente possível reproduzir samples com maior liberdade, as limitações de espaço dos cartuchos impediam trilhas mais sofisticadas na maior parte da biblioteca. Há exceções — como Beatmania for WonderSwan, que explorava melhor essa capacidade —, mas, em geral, as músicas tendiam a ser simples e agudas.
Em dezembro de 2000, a Bandai lançou o WonderSwan Color, acompanhando a tendência dos portáteis da época. O novo modelo oferecia uma paleta de 4.056 cores, podendo exibir até 243 simultaneamente, permitindo visuais belíssimos sem as restrições que ainda marcavam sistemas como o Game Boy Color.
Mais tarde veio o SwanCrystal, que trouxe uma tela LCD de maior qualidade, reduzindo significativamente o borrão e o arrasto de imagem comuns nos painéis dos anos 1990.
O mais impressionante é que, em qualquer versão, o WonderSwan funcionava com apenas uma pilha AA, proporcionando 40 horas no modelo monocromático, 25 horas no Color e 15 horas no SwanCrystal. Essa eficiência energética, somada a um preço convidativo, fez do WonderSwan um dos portáteis mais acessíveis de sua geração.
Entre katakanas e hiraganas
Por ser um console da Bandai, boa parte da biblioteca do WonderSwan foi composta por jogos licenciados baseados em obras japonesas. Alinhados ao gosto do público nipônico, os gêneros mais prevalentes eram RPGs e simuladores, o que acabava dificultando o aproveitamento para nós por causa da barreira linguística.
Séries como One Piece, Naruto, Neon Genesis Evangelion, Hunter x Hunter, Gundam, Cardcaptor Sakura, Dragon Ball e Os Cavaleiros do Zodíaco ganharam ao menos um título no portátil. Embora a maioria fosse RPG, One Piece recebeu também alguns jogos de luta bem interessantes e competentes para o hardware.
Pelo envolvimento direto da Bandai, Digimon tornou-se a franquia mais presente no WonderSwan, aparecendo em formatos variados: platform fighter, RPG, simulador de cuidar de pets e até software educativo. A maior parte dos jogos foi baseada em Adventure 02 e Tamers, temporadas contemporâneas ao console — portanto, são especialmente recomendados para quem tem nostalgia dessa época da TV.
Fora desse grande mar licenciado, várias desenvolvedoras de peso deram suporte relevante ao sistema. A Capcom iniciou sua trajetória no WonderSwan com Rockman & Forte. Apesar do nome remeter à versão de SNES, o jogo apenas compartilhava a estrutura básica de gameplay e os dois robôs jogáveis. Depois, a empresa usou essa base para criar Rockman EXE WS, uma adaptação da série Battle Network que trocou as batalhas estratégicas por ação de plataforma.
Além do robozinho azul, a Capcom lançou uma aventura exclusiva de Ghosts ‘n Goblins em Makaimura for WonderSwan, bem como um excelente port de Pocket Fighter.
A Squaresoft (hoje Square Enix) marcou presença com vários ports e remakes, destacando-se Final Fantasy I, II e IV, que serviram de base para versões posteriores no PlayStation e Game Boy Advance. SaGa e Front Mission também receberam entradas no portátil.
Entre as novidades, vieram um novo Chocobo’s Mystery Dungeon, além de dois títulos inéditos: Wild Card, um dungeon crawler em que todas as ações são mediadas por cartas, e Blue Wing Blitz, um RPG de batalhas aéreas.
A Namco foi uma das empresas que mais abraçou o WonderSwan. Produziu uma nova aventura de Klonoa com Moonlight Museum (que mais tarde inspiraria Empire of Dreams no GBA), criou a excêntrica experiência de Tekken Card Challenge e ainda entregou um port belíssimo de Mr. Driller.
Talvez sua obscuridade mais interessante seja Namco Super Wars, um RPG tático que reúne diversos personagens da companhia em uma narrativa completamente maluca. Esse espírito de crossover seria expandido depois em Namco x Capcom e, mais tarde, em Project X Zone.
Há ainda muitos outros títulos que valem a pena conhecer, como Puyo Puyo Tsuu, Ganso JaJaMaru-Kun, Guilty Gear Petit, Gunpey, Lode Runner, Side Pocket, Tetris e Clock Tower. Mesmo com a barreira do idioma, vários deles são perfeitamente jogáveis sem necessidade de compreensão textual.
Belo e poderoso como um cisne
Apesar de não ter conseguido competir com a família Game Boy, o WonderSwan permanece como uma peça fascinante da história dos portáteis japoneses. Sua biblioteca é nichada, mas rica o suficiente para justificar uma exploração dedicada para quem se interessa por boas obscuridades.
E, claro, foi uma despedida prematura para Gunpei Yokoi. Seja na Nintendo ou em outras terras, seu legado fez a alegria de muitos jogadores por aí.
Revisão: Beatriz Castro













