Mafia III: um retrato histórico incômodo da América de 1968

O jogo usa a ambientação em 1968 para retratar o racismo, o trauma da Guerra do Vietnã e o crime organizado nos EUA.

em 04/01/2026

Lançado em 2016 pela Hangar 13, Mafia III transporta os jogadores para New Bordeaux, uma recriação fictícia de Nova Orleans em 1968, ano de profunda agitação nos Estados Unidos.


O ano que abalou a América

Este período foi marcado pelos assassinatos de Martin Luther King Jr. e de Robert F. Kennedy, eventos que ecoam nas rádios do jogo e intensificam o clima de instabilidade nacional. A Guerra do Vietnã estava em seu pico de intensidade, tendo como estopim a Ofensiva do Tet. Este ataque surpresa de 1968 — evento frequentemente retratado pela sua intensidade militar em jogos como Call of Duty: Black Ops (2010) ou no cinema com o clássico Nascido para Matar — é abordado em Mafia III por um viés muito mais psicológico. Ao revelar a fragilidade americana, o evento forçou os EUA a mudarem sua estratégia diplomática e gerou traumas profundos em veteranos, especialmente nos afro-americanos, que enfrentavam uma discriminação cruel tanto no front de batalha quanto ao retornar para casa.

A escolha narrativa genial

Em vez de uma linha do tempo convencional, o jogo intercala o gameplay com depoimentos gravados décadas depois. Mafia III conta com os relatos do Agente do FBI responsável por investigar o caos causado por Lincoln, Jonathan Maguire, em 2010, e do Padre James, mentor espiritual do protagonista. Somam-se a isso os depoimentos sarcásticos e debochados de John Donovan, o agente da CIA e parceiro de Lincoln, para um comitê do Senado em 1971. Essa escolha narrativa reforça que Lincoln Clay era uma força da natureza, cujas ações e vontade de vingança foram tão impactantes que exigiram décadas de investigação. Assistindo a esses "arquivos", sentimos que estamos vivenciando um fato histórico fascinante. O trailer exibido na E3 de 2016 apresentava de maneira magistral o que podíamos esperar do game.

New Bordeaux: entre o charme e o crime

Paralelamente, o Movimento dos Direitos Civis ainda lutava contra a segregação racial no Sul, apesar de marcos legais como o Ato dos Direitos Civis de 1964 e a Lei Federal da Habitação Justa de 1968. A Nova Orleans real era um caldeirão de culturas com influências francesas, haitianas, irlandesas e italianas, mas também um palco de tensões étnicas, corrupção policial e domínio mafioso sobre portos, cassinos e rackets (esquemas de prostituição, drogas e jogo).

Mantendo a tradição da franquia, o título captura essa realidade com precisão, recriando elementos perdidos da arquitetura da época, como antigas óperas e bairros segregados. Destaque para o famoso French Quarter: fundado em 1718, ele é o coração histórico e cultural da cidade. Embora hoje seja um ponto turístico pacífico, conhecido pelo Jazz e gastronomia, sua história está profundamente ligada ao submundo do crime.



A conexão Siciliana e o legado da Cosa Nostra

No centro dessa ambientação está o controle da máfia italiana, inspirado diretamente em figuras reais como Carlos Marcello, o chefe da família criminosa de Nova Orleans entre 1947 e os anos 80. Marcello, imigrante siciliano nascido na Tunísia, dominava esquemas de extorsão, contrabando e corrupção política. Ele era, inclusive, alvo de teorias que o ligavam ao assassinato de JFK em 1963, conexões que o jogo incorpora na figura do antagonista Sal Marcano.

Essa origem siciliana de Marcello não é apenas um detalhe biográfico, mas um lembrete de que a linhagem da Cosa Nostra sempre retorna às suas raízes. Isso justifica a premissa do mais recente título da franquia, Mafia: The Old Country, que se passa na Sicília do início do século XX. O novo game explora justamente o berço de figuras como Marcello, mostrando como a brutalidade das minas de enxofre e a exploração rural forjaram o código de honra e a violência que, décadas depois, tomariam as ruas de New Bordeaux.

Em 1968, a "era de ouro" da máfia italiana entrava em declínio devido à crescente pressão federal, porém ainda explorava divisões raciais para manter o poder, aliando-se a elementos supremacistas brancos por pragmatismo, apesar das tensões históricas (visto que o KKK, originalmente, também perseguia imigrantes católicos italianos).

O veterano e o racismo sistêmico

O protagonista, Lincoln Clay, reflete a experiência de muitos soldados afro-americanos: desproporcionalmente alocados em unidades de combate (chegando a representar 23% das baixas em certos períodos, apesar de serem 11% da população), eles sofriam com o racismo institucional e a falta de suporte no pós-guerra. Muitos viam o conflito como "uma luta de brancos travada por negros", sentimento agravado após a morte de Martin Luther King Jr. Ao aplicar táticas de guerrilha aprendidas no Vietnã contra o império de Marcano, Lincoln ilustra como veteranos lidavam com o trauma e a exclusão social.

O jogo confronta e expõe o racismo sistêmico de maneira incômoda: policiais hostilizam o protagonista, o tempo de resposta das patrulhas é mais rápido em bairros ricos e brancos, e o fato de ele dirigir em bairros nobres chama a atenção da polícia. Estabelecimentos hostilizam Lincoln e o expulsam, além de exibirem placas de "não se permitem negros". Estes momentos servem para, além de mostrar a dura realidade, gerar revolta e fazer o público refletir sobre o quão pouco evoluímos em quase 60 anos.


Em distritos como Frisco Fields, Lincoln enfrenta a Southern Union, milícia inspirada na Ku Klux Klan, que historicamente resistia à integração escolar — o simples direito de negros frequentarem as mesmas escolas de brancos. O caso mais emblemático da cidade foi o da pequena Ruby Bridges, que em 1960 precisou de escolta federal para estudar em Nova Orleans, uma realidade de segregação e tensão que o cinema retratou de forma muito semelhante em Forrest Gump, na famosa cena da integração da Universidade do Alabama.

A trilha sonora de uma revolução cultural

Mafia III possui, sem dúvida, uma das melhores trilhas sonoras da indústria. Com mais de 100 músicas licenciadas, a obra utiliza clássicos como "All Along the Watchtower", de Jimi Hendrix, já no menu inicial, e "Paint It, Black", dos Rolling Stones. Artistas como Aretha Franklin ditam o pulso de 1968, e é preciso destacar a canção "War", de Edwin Starr, que questiona: "War, what is it good for? Absolutely nothing!" (Guerra, para que serve? Absolutamente nada!). Mesmo tendo sido lançada em 1970, a música resume o sentimento de exaustão da comunidade negra e da juventude da época. Você pode curtir a trilha na playlist oficial.




Apesar dos problemas técnicos na época e missões repetitivas, o título mantém a excelência da franquia ao integrar história real a uma experiência narrativa imersiva, forçando o público a encarar um passado que, infelizmente, ainda se reflete no presente.
Revisão: Thomaz Farias
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Windsor Santos
Jogadorino desde os áureos anos 90, geralmente surpreende amigos com a quantidade de títulos que já finalizou. Divide o amor por games com seus mangás, Hq's e filhotes. Agora seu objetivo é registar seus conhecimentos para as novas gerações de jogadores.
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