Análise: DETECTIVE – Rainy Night transforma mistério em percurso automático

Uma experiência curta e atmosférica que prende pela curiosidade, mas falha em entregar um verdadeiro jogo de detetive.

em 27/01/2026

DETECTIVE – Rainy Night é um jogo curto, com uma premissa interessante que se desenrola de forma rápida e pega o jogador desprevenido ao apresentar escolhas criativas que transitam entre o dúbio e o curioso. Apesar de não cumprir totalmente a promessa do título — a de ser um jogo de detetive propriamente dito —, consegue prender pelo mistério em seu desenrolar.

Detetive Policial em serviço

Assumimos o papel de Iker Carmona, um policial encarregado de investigar desaparecimentos na região. Ao chegar ao Holiday Motel (que é um pequeno hotel de estrada) e se hospedar em um dos quartos, aquilo que começa como uma parada banal rapidamente se transforma em pesadelo. 

Chuva intensa e neblina passam a dominar o ambiente, a eletricidade e o sinal telefônico desaparecem e, como se não bastasse tudo isso, os carros deixam de funcionar misteriosamente, mostrando que o “detetive” do título está mais próximo de Arquivo X ou Sobrenatural do que de qualquer procedural à la CSI.

Preso no hotel, Iker assume a liderança do grupo, tentando acalmar os hóspedes e garantir a segurança de todos. Isso se traduz, inicialmente, na tarefa de conversar com cada um deles, o que apresenta o jogador a um elenco de personagens distintos, que não perdem tempo em demonstrar traços de personalidade, ainda que de forma bastante direta.

Os acontecimentos se desenrolam ao longo de cinco dias, divididos em períodos simples e diretos, contando com um ritmo acelerado que faz com que a experiência completa dure cerca de uma hora.

Estética do Holiday Motel

Quanto à estética, o título deixa claro desde o início o seu escopo reduzido. Com um espaço explorável limitado a poucos quartos e salas, a produção não aposta em grandes valores técnicos, focando em uma ambientação contida que reflete as restrições de seu desenvolvimento.

A identidade visual do jogo é refém de um filtro granulado constante; sem esse artifício, a expressividade dos modelos e cenários seria nula. A sensação de estarmos diante de uma TV antiga cria um charme datado que lembra o início da alta definição. Contudo, fica claro que esse estilo é uma solução de contorno para o baixo investimento, e não necessariamente uma visão criativa consciente.

Não há dublagem, e os personagens raramente demonstram emoções de maneira clara. Suas expressões são estáticas, o que contribui para uma sensação de artificialidade. A exceção é uma personagem específica, cujas reações exageradas diante da situação acabam chamando a atenção justamente por essas destoarem do restante do elenco.

No geral, a estética cumpre seu papel ao sustentar a atmosfera de isolamento e desconforto, mas também evidencia as limitações do projeto.

Vale pontuar que para os jogadores brasileiros, as legendas contam com pequenos erros de concordância, mas nada que atrapalhe o entendimento da trama.

Investigação no automático

Embora o título sugira um papel investigativo ativo, DETECTIVE entrega uma experiência quase passiva. O caderno de anotações, que inicialmente promete dedução e análise, é preenchido de forma automática e tem impacto nulo até o momento do desfecho. Não há espaço para observação crítica ou proatividade: com objetivos e destinos sempre indicados na tela, o jogo conduz o jogador pela mão em uma estrutura rígida, deixando claro que a proposta é a história ser assistida, não jogada.

Essa abordagem excessivamente guiada aniquila qualquer sensação de controle. Os dias no Holiday Motel passam entre diálogos protocolares com os hóspedes e o cumprimento de instruções pontuais que fazem a história avançar sem qualquer possibilidade de desvio. Mesmo o clímax da investigação resume-se a escolher entre perguntas simplistas que oferecem pouco desafio intelectual.

A única e breve exceção a essa apatia mecânica surge em um momento específico, no qual um desenho deixado sob a porta exige a interpretação de três etapas visuais para o progresso da trama. É um desafio extremamente básico, mas que se destaca por ser o único momento em que o título exige o raciocínio do jogador, cumprindo brevemente a promessa sugerida por seu próprio nome.

Hóspedes ao redor

Em uma experiência sustentada quase exclusivamente por diálogos, a construção do elenco torna-se o pilar central da obra. No entanto, os oito personagens que acompanham o protagonista no Holiday Motel raramente transcendem a função de meros vetores de informação. 

No início, essa superficialidade é camuflada pelo ritmo da investigação, mas não demora para que o roteiro revele costuras mal acabadas. Um exemplo claro é a hostilidade gratuita de Felicia contra a bilionária Elena Bilches; um comentário sobre desigualdade social que surge de forma abrupta, mas que é completamente descartado e nunca mais mencionado, mesmo quando as duas dividem o mesmo espaço. 

Essa inconsistência de tom atinge seu ápice em capítulos posteriores, quando o jogo interrompe o mistério para oferecer verdadeiros palanques ideológicos. Personagens que antes eram rasos passam a vocalizar ideias extremas: Maria Ribes surge denunciando uma suposta doutrinação infantil pela mídia, enquanto Nikolas Lind, seu marido psicossexual, defende a criação de uma sociedade baseada no instinto e desejos em nome de uma liberdade 'verdadeira'.

Embora exista um certo mérito na surpresa de ver personagens tão bidimensionais defendendo conceitos tão fora da curva, o resultado final é de estranhamento. Essas inserções se parecem mais com intervenções do autor do que como desenvolvimentos naturais da trama, o que torna o elenco um conjunto de figuras que parecem apenas fantoches para discussões pautadas pelos desenvolvedores. 

Mistério ou terror

DETECTIVE – Rainy Night se apresenta inicialmente como um jogo de mistério, com desaparecimentos, um protagonista investigativo e um elenco de possíveis suspeitos reunidos em um espaço isolado. No entanto, à medida que a narrativa avança, o título abandona essa proposta e passa a flertar diretamente com o terror.

A transição carece, porém, de impacto. A ausência quase total de mecânicas de jogo faz com que essa mudança de tom seja sentida mais nos acontecimentos do que na experiência do jogador. Não há tensão, perigo iminente ou decisões que exigem resposta rápida. O terror existe como conceito narrativo, mas raramente se traduz em sensações, pois sabemos que não existe a possibilidade de consequência. 

Ainda assim, o jogo merece algum mérito na maneira com a qual retrata a violência. Os assassinatos são apresentados de forma cruel, o que pode surpreender jogadores desavisados.

No fim, acaba não se comprometendo totalmente com nenhum dos dois gêneros. Não entrega um mistério que exija dedução, nem um terror que provoca tensão. O resultado é uma experiência híbrida que desperta curiosidade, mas raramente causa impacto.

A conclusão da investigação

Com duração equivalente a um episódio de série de TV e interatividade bastante limitada, DETECTIVE – Rainy Night se posiciona mais como uma experiência narrativa do que como um videogame tradicional. É um título feito para ser observado e não decifrado, o que entra em conflito direto com a promessa implícita de seu nome, funcionando como um passatempo curioso, ideal para quem busca consumir uma história curta sem esforço ou compromisso.

Prós

  • Atmosfera competente, reforçada pelo uso de granulação e clima chuvoso;
  • Ritmo ágil que mantém a curiosidade até o fim;
  • Ideal para ser consumido em uma única sessão curta.

Contras

  • Investigação inexistente: tudo é automatizado, com falta total de dedução ou escolhas relevantes;
  • Personagens pouco explorados e com desenvolvimento raso;
  • Uso abrupto de comentários sociais que quebram a imersão;
  • Promessa temática maior do que o que o jogo realmente entrega.
DETECTIVE - Rainy Night - PS5/XSX/SWITCH/PC - Nota: 5.5
Versão utilizada para análise: PlayStation 5
Revisão: Juliana Piombo dos Santos
Análise feita com cópia digital cedida pela Jandusoft
OpenCritic
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Matheus Oliveira
Entusiasta de games e cinema, sempre explorando novos gêneros e estilos enquanto acumula um backlog infinito. X e Instagram
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