Análise: Cairn é uma aventura de escalada solitária, meditativa e implacável

Realismo, dificuldade elevada e ritmo cadenciado definem a experiência oferecida pela ascensão neste título indie.

em 29/01/2026

O quanto você estaria disposto a sacrificar para alcançar um grande sonho? Cairn explora essa pergunta em uma jornada solitária de escalada. No papel de uma alpinista profissional, o objetivo é alcançar o topo de uma montanha jamais conquistada — uma proposta simples que esconde uma ascensão exigente, focada menos em espetáculo e mais no esforço contínuo. Brutal e envolvente na mesma medida, o jogo oferece uma experiência única, mas que demanda estar disposto a enfrentar grandes desafios.  

Ascendendo em direção a um sonho

Aava é uma alpinista profissional de grande renome, mas que ainda carrega um sonho não realizado: alcançar o cume do Monte Kami, uma montanha responsável pela morte de inúmeras pessoas que tentaram conquistá-la. Munida de determinação praticamente inabalável, Aava decide encarar o desafio sozinha, em uma ascensão que vai testar os limites de seu corpo e de sua alma.


A escalada está no cerne de Cairn, que usa conceitos realistas em suas mecânicas. 
A escalada é descomplicada: movemos os pés e as mãos de Aava, um de cada vez, posicionando-os em reentrâncias e fissuras. O jogo seleciona automaticamente o membro a ser usado, mas permite ajustes manuais quando necessário. É possível escalar praticamente qualquer estrutura, mas para ter sucesso é essencial analisar as paredes rochosas com cuidado para encontrar rotas seguras.

O movimento de escalar, em si, é simples, mas é importante ficar atento a diversos detalhes, como pontos de apoio sólidos e a postura da alpinista — ações mal avaliadas fazem a alpinista escorregar ou se soltar ao perder a firmeza dos membros. Cair pode ser fatal, mas Aava pode prender pitons, peças metálicas cravadas na rocha, como salvaguarda. Um pequeno robô recolhe os ganchos já usados, permitindo utilizá-los sem grandes preocupações.


Além da escalada, a sobrevivência é parte central da jornada. Sede e cansaço afetam diretamente o desempenho de Aava, tornando cada movimento mais difícil conforme a exaustão se acumula. Com recursos escassos e espaço limitado na mochila, gerenciar água, comida, medicamentos e equipamentos é essencial. Em pontos específicos, é possível montar acampamento para descansar, cozinhar e se recuperar.



Em uma escalada de dificuldades e superações

A jornada em Cairn me surpreendeu por diversos motivos, especialmente pelo desafio implacável de subir uma montanha traiçoeira. O ato de escalar é intuitivo, bastando pouco tempo para entender o conceito básico de controlar os membros de Aava. No entanto, há inúmeras nuances para dominar. 

No início, caí e escorreguei com frequência por avançar de forma precipitada. Com o tempo, ficou claro que observar os detalhes, como pequenas rochas e reentrâncias, era essencial para encontrar apoios seguros. Aos poucos, a escalada se tornou mais fluida, refletindo uma progressão natural de habilidade. 


Na escalada, a presunção pode ser fatal. Ler a face da rocha, manter o equilíbrio e saber quando usar o gancho são habilidades essenciais para avançar. E a topologia fica cada vez mais complexa, muitas vezes exigindo avançar rapidamente mesmo com Aava tremendo e quase caindo de exaustão — superar as adversidades é muito recompensador.

O desafio é acentuado, com pouquíssimos espaços para erros. Uma rota mal calculada, por exemplo, pode significar descer e refazer os passos; avançar por algum trecho complicado sem recursos suficientes pode resultar em exaustão completa. Utilizar os recursos de forma inteligente faz toda a diferença, seja passando magnésio para melhorar a aderência ou tomando café para ganhar velocidade temporária. Essas escolhas se mostraram decisivas nos trechos mais difíceis.


A escalada em si é o grande foco de Cairn, mas há mais para ver do que simplesmente subir paredes. A montanha está recheada de cavernas e outros locais, muitos deles guardando segredos ou elementos de construção do mundo. Há missões paralelas que oferecem recompensas úteis e funcionam como respiros pontuais, embora não sejam muito elaboradas, além de várias receitas para testar e descobrir.



A exaustão de uma jornada implacável

Cairn claramente tem como objetivo trazer uma experiência intuitiva, ao mesmo tempo em que reproduz a realidade com ambientação pé no chão. Apesar de ser meditativo e imersivo, o realismo é também o maior problema do jogo.

Na maior parte do tempo, estamos escalando paredes de pedra, o que não é de todo ruim. Com o tempo, a escalada se torna repetitiva pela falta de variações mais drásticas. Existem trechos com chuva ou vento, mas, no geral, a abordagem se mantém praticamente a mesma ao longo das cerca de 10 horas de campanha. Por fim, certas partes de escalada são longas, lentas e cansativas, às vezes levando até 20 minutos antes de poder parar e salvar o progresso.


Outra questão é a dificuldade brutal e com pouco espaço para erros. O desafio é claramente intencional, e há ferramentas para momentos complicados, como os ganchos que funcionam como checkpoint. Em trechos avançados, a escalada ocorre em rochas mais duras, onde não é possível usar pitons, tornando qualquer erro fatal. 

Há também inconsistência na mecânica de escalada: muitas vezes eu estava perfeitamente encaixado em apoios sólidos e, mesmo assim, Aava começou a tremer, perdeu suas forças e caiu. Repetir os mesmos passos nem sempre gerava o mesmo resultado, criando uma sensação incômoda de imprevisibilidade.


A soma desses problemas às vezes tornou a subida cansativa e desgastante, quase que um trabalho braçal. O jogo conta com opções de acessibilidade, como indicar quando nos apoiamos em pontos sólidos, ferramentas infinitas e uma opção para rebobinar a ação após cair. Perto do fim da jornada, essas opções ajudaram a reduzir a frustração acumulada. Aqueles que gostam de mais desafios podem encarar o modo Free Solo que nos desafia a escalar sem ferramentas.

Apesar disso tudo, eu apreciei a experiência como um todo, ainda mais levando em conta que a intenção é justamente remeter à atividade do mundo real. Ainda assim, a experiência poderia ser mais agradável com maior variedade e uma abordagem menos rígida.



Perdendo-se em uma montanha bela e introspectiva

Sem dúvidas, um dos maiores trunfos de Cairn está na sua ambientação. A escalada é solitária e repleta de momentos contemplativos. Subir a montanha se torna um exercício quase meditativo, capaz de absorver completamente a atenção. Utilizei o controle DualSense, o que deixou a experiência mais imersiva com as vibrações diferentes para cada terreno e a resistência nos gatilhos ao me segurar nas cordas.


O visual do Monte Kami é belo, com alguns elementos em cel shading que lembram histórias em quadrinhos de traço estilizado. O local se revela bastante diverso com arcos impossíveis, moradas de uma civilização antiga talhadas na pedra, lagos nas alturas que refletem as estrelas, e mais. Uma trilha sonora suave, que só aparece em momentos específicos, reforça o impacto de cada vista.

A escala ampla reforça o contraste entre a alpinista e a montanha imponente, e constantemente somos lembrados que estamos em uma tarefa que parece impossível em um primeiro momento. O elaborado modo fotografia me permitiu registrar muitas cenas belas com suas opções elaboradas.


Por fim, os temas explorados são poderosos. Aava constantemente se questiona o que está disposta a arriscar para alcançar seu sonho de conquistar o cume, em uma história de superação, perseverança e sacrifício. Ela é bastante humana e tem dúvidas a todo momento, exprimindo suas frustrações constantemente ao se deparar com novos desafios. Outras pessoas cruzam o caminho da escaladora e essas interações são interessantíssimas, trazendo um bom contraponto à personalidade obstinada, e às vezes extrema, da personagem.



Uma subida exigente e imersiva

Ao longo de sua ascensão, Cairn constrói uma experiência centrada na escalada como eixo central da jornada. O controle direto dos movimentos, os elementos de sobrevivência e a necessidade constante de planejamento fazem com que cada avanço seja conquistado com esforço. A ambientação reforça esse sentimento ao criar um cenário solitário e contemplativo, explorando temas como perseverança e realização.

O compromisso com o realismo, no entanto, nem sempre trabalha a favor da experiência. A repetição estrutural da escalada, a lentidão de alguns trechos e a dificuldade elevada podem tornar a experiência desgastante em certos momentos. Ainda assim, esses pontos não anulam o impacto da proposta: Cairn se mantém fiel à ideia de retratar uma conquista árdua e pessoal, oferecendo uma jornada marcante para quem aceita seu ritmo e suas exigências.

Prós

  • Escalada baseada em controles intuitivos, mas com muitas nuances a serem dominadas;
  • Ritmo suave e meditativo, com forte sensação de risco e conquista a cada avanço;
  • Atividades paralelas interessantes, como pequenos puzzles e locais com segredos;
  • Ambientação elaborada e imersiva que reforça a solidão da jornada;
  • Temas bem explorados de superação, perseverança e sacrifício;
  • Opções de acessibilidade permitem customizar o desafio.

Contras

  • Estrutura de escalada com poucas variações se torna repetitiva ao longo da campanha;
  • Inconsistências ocasionais nas mecânicas de escalada trazem momentos desagradáveis;
  • Certos trechos são longos ou com pouco espaço para erros, tornando a experiência frustrante.
Cairn — PC/PS5 — Nota: 8.0
Versão utilizada para análise: PC
Revisão: Heloísa D'Assumpção Ballaminut
Análise produzida com cópia digital cedida pela The Game Bakers
OpenCritic
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Farley Santos
é brasiliense e gosta de explorar games indie e títulos obscuros. Fã de Yoko Shimomura, Yuzo Koshiro e Masashi Hamauzu, é apreciador de roguelikes, game music, fotografia e livros. Pode ser encontrado no seu blog pessoal e nas redes sociais por meio do nick FaruSantos.
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